Cuidando das Pessoas

CUIDANDO DAS PESSOAS

 

Uma das preocupações que tenho enquanto uma pessoa de fé e atuante na educação e direitos humanos, passa pelo cuidado com as pessoas. Tenho lido em diversos periódicos líderes de diversas denominações, pedagogos e terapeutas abordarem este assunto, que tem tudo a ver com o momento em que nos encontramos na sociedade, onde as relações sociais são minimizadas e relativizadas.

 

O cuidado pastoral desafia a família, a escola e a igreja numa sociedade relativista, discriminadora, excludente e individualizante. Com o tema do cuidado junto às pessoas quero realçar diferentes ações que têm como objetivo construir o bem comum e forjar uma sociedade onde as relações sejam fraternas, solidárias e dignas.

 

Neste sentido, as questões relacionadas à emotividade, espiritualidade, família, trabalho, profissão, educação, aspectos psicológicos, mentais, físicos, emocionais, devem ser considerados, pois a pessoa é um ser integral e não pode ser tratada como seguidora de líderes personalistas que oferecem imediatismos, receituário para curas, para ganhar dinheiro, para arrumar casamento, para ser feliz, para comprar casa, para adquirir carro, tampouco mantras ou frases de efeito e de auto-ajuda.

 

A instituição familiar, eclesial ou educativa que vai alcançar as pessoas e ajudá-las na construção de uma história de transformação e construção da cidadania plena e para todos, é a que tiver cuidado com as pessoas em suas diferentes idades, experiências, potencialidades, bem como fragilidades e imperfeições.

 

A história está marcada por intolerâncias e discriminações e está manchada com muito sangue inocente derramado para expiar a insanidade de poderosos e as injustiças praticadas em nome de um deus que só vê os que “pensam que são”.

 

Que 2016 seja o ano do “cuidado junto às pessoas”, pois a sociedade será diferente e humanizada. Vamos seguir este caminho?

 

 

Josué Adam Lazier

 
 

Por uma teologia sobre o caráter cristão

POR UMA TEOLOGIA SOBRE O CARÁTER CRISTÃO

Pensamentos e Abstrações

 

Introduzindo o assunto

Tenho pensado no costume de se colocar adjetivos em alguns conceitos ou entendimentos teológicos. Desta forma, há várias teologias professadas e proferidas nos discursos e nos movimentos eclesiásticos e para-eclesiásticos. Sempre surgem entendimentos ou conceitos teológicos que recebem, em função de suas características, um nome. Cito como exemplo, a teologia da prosperidade, teologia da esperança, teologia da guerra espiritual, teologia de missões, teologia do caminho, e assim por diante. Gostaria de refletir sobre um conceito teológico que se coloca, invariavelmente, quando se considera a vivência cristã num mundo secularizado e marcado por um fundamentalismo religioso extremamente individualizado, ou seja, o conceito de caráter cristão.

Seria possível falar de uma “teologia do caráter cristão”? Seria possível caracterizar esta teologia e teria ela relevância na atual conjuntura e cultura eclesiástica? Para tratar deste assunto se faz necessário colocar algumas questões: Qual evangelho tem sido pregado em nossos dias? Quais são os frutos que acompanham a vida dos que proclamam o evangelho de Cristo? Como vivem os líderes da Igreja? Como a Igreja mede o sucesso de seus líderes? Qual o estilo de vida da liderança? Os líderes são avaliados pela sua fidelidade a Deus e aos compromissos assumidos ou pelos resultados obtidos numa perspectiva do mercado? Quem de fato é referência de vida cristã para os novos cristãos? A Igreja tem sido sal da terra e luz do mundo?

Ao definir caráter e caráter cristão, os bispos e bispa da Igreja Metodista assim se expressaram: “caráter é o conjunto de traços particulares relacionados ao aspecto moral do ser. O caráter cristão é o conjunto das características de que a Bíblia fala e que são inerentes a Jesus Cristo ou ao Espírito Santo e, conseqüentemente, deveriam ser parte da vida daqueles e daquelas que nasceram de novo e têm o Espírito Santo”.[1] Ao fazerem esta consideração esperam que todos os membros da Igreja evidenciem o caráter cristão.


 

Refletindo sobre os contornos de tal teologia

Gostaria de apresentar alguns contornos na busca por uma teologia do caráter cristão.

 

1. Uma teologia do caráter cristão deve levar em conta os referenciais bíblicos e teológicos que fundamentam a integridade da pessoa que exerce liderança e que vivencia o Evangelho de Cristo. Estes referências são encontradas nas cartas pastorais endereçadas a Timóteo e a Tito. O apóstolo, ao ensinar seus discípulos, elencou qualidades que devem acompanhar a vida dos líderes. Destaco as seguintes: irrepreensível, temperança, sobriedade, modéstia, hospitalidade, aptidão para ensinar, sem violência, sem contendas, sem avareza, vivência familiar equilibrada, maturidade, bom testemunho, respeitabilidade, sem ganância e sem arrogância, além de outras (I Tm 3.1-13).

 

2. Uma teologia do caráter deve considerar o referencial teológico e doutrinário deixado por João Wesley, ou seja, a santidade bíblica. Ele definia a santificação como amar a Deus de todo coração e ao próximo como a si mesmo.  Considerava o amor como prova suprema da presença de Deus e da Sua Ação na vida do cristão. Portanto, uma santidade que se concretizava em atitudes em relação ao próximo, atitudes de respeitabilidade, dignidade, tolerância, solidariedade, consideração e apoio.

Falar de amor nos dias de hoje é repetir um chavão pejorativo e que tem a ver mais com a própria pessoa. Assim, prefiro falar de caridade que apresenta um apelo que vai em direção aos outros e, desta forma, chega no amor abnegado revelado por Cristo na cruz do Calvário.

 

3. Uma teologia do caráter cristão deve assinalar a integridade que acompanha a vida de uma pessoa transformada pela Graça de Deus. A Graça de Deus é transformadora, capacitadora e, portanto, forjadora da integridade cristã. Integridade vem do latim integritate e significa qualidade de íntegro; inteireza; retidão; pureza. Já o termo íntegro significa inteiro; completo; perfeito; reto; imparcial; brioso.

Desta forma, a integridade começa com o cuidado que a pessoa tem consigo mesma, com as atitudes que toma, com a vida daqueles que estão próximos e com a vida daqueles que estão ao seu alcance. É a integridade física, moral, ética, relacional, familiar, profissional, social, etc.

 

4. Uma teologia do caráter cristão tem como contorno a espiritualidade, que não pode ser a estereotipada, a da moda, a que promove o ibope pessoal, a que atrai os holofotes, a que apresenta uma imagem superficial e enganosa da pessoa, a da dominação, do grito, da enganação. A espiritualidade na perspectiva de uma teologia do caráter é aquela que se evidencia através do cuidado pastoral, da alegria em servir a Deus em toda e qualquer circunstância e do discernimento maduro e comprometido com os valores do Reino de Deus.

 

5. Uma teologia do caráter cristão deve levar conta a dimensão pública. Não há liderança que possa ser desenvolvida sem a perspectiva da coletividade, da comunidade e da sociedade em geral. O que a pessoa é enquanto ser vivente e transformado pela Graça de Deus tem que ter respaldo no público da vida, no enfrentamento das questões contraditórias da vida, no testemunho e na defesa do direito e da justiça. Não é porque a pessoa se apresenta como alguém que tem a Graça e o Espírito de Deus que pode se colocar acima da lei e dos direitos dos outros.

 

6. Uma teologia do caráter cristão é alimentada na vivencia familiar e doméstica, onde a pessoa se desnuda e é conhecida pelas reações espontâneas e pelo que ela é “por dentro”. A teologia do caráter cristão começa no íntimo das relações familiares e conjugais, considerando que a família é um meio de graça.

 

7. Uma teologia do caráter cristão evidencia os valores do Reino de Deus, entre os quais a justiça é fundamental. A mensagem dos profetas ao longo do Antigo Testamento assinalava o direito e a justiça de Deus, onde o povo, em especial seus líderes, era exortado a viver e praticar a justiça.

 

Desafios para uma teologia do caráter

Esta teologia apresenta diversos desafios, tais como: Não conformação com os valores da pós-modernidade; Não conformação com os expedientes utilizados na política pela busca de espaços ou de poder, ou seja, mentiras, dissimulações, enganações, maldade, impiedade, roubo, imoralidade e outros; Renúncia às tentações por fama, riqueza, prestígio e holofotes; Negação do eu enquanto autopromoção e bem estar pessoal em virtude da experiência com a Cruz de Cristo que produz uma vida transformada e forjada para a humildade, para o serviço e para o testemunho cristão; além de outros.

 

Bispo Josué Adam Lazier

 

 

 

 



[1] Colégio Episcopal da Igreja Metodista, Caráter Cristão, São Paulo: Editora Cedro, pg. 8.

 
 

Eu tenho esperança....

EU TENHO ESPERANÇA. E DAÍ...

 

 

Gostaria de deixar uma mensagem de esperança. A esperança é um dos sinais da presença de Deus, ao lado da fé e do amor. Ela é sinal que o Reino de Deus está presente.

 

A educação numa perspectiva libertadora leva em conta a esperança para ver a pessoa-objeto se transformar em sujeito da sua história. Além disto, há a teologia da esperança e a pedagogia da esperança, pois sem ela a vida vira uma desgraça.

 

Não é fácil falar de esperança considerando as crises que estamos vivendo: crise de autoridade, crise de identidade, crise de confessionalidade, crise da integridade, crise da criticidade.

 

Mas vou me arriscar e dizer que a esperança é que nutre a fé e a espiritualidade. Sem esperança a fé fica utilitária e a espiritualidade fica sem chão. Ao contrário disto, quando há esperança a fé é comprometedora e a espiritualidade é transformadora, acolhedora e pedagoga.

 

Tenho esperança de que o Espírito de Deus não esteja entristecido e continue a se mover e a nos mover para a plena realização do Reino de Deus e da sua Justiça. Esperança de que a vida seja vivida dignamente.

 

Alguém vai dizer que estou virando um sonhador utópico. “Pode ser”, assumo a minha utopia. A minha utopia é a do Reino de Deus, ela é realizável. Não de forma mágica ou como um “maná” que cai do céu. Mas com trabalho, transformação, libertação, coragem, verdade, transparência, honestidade, dignidade, fraternidade, solidariedade, ecumenicidade, unidade, coisas que parece terem sumido com as crises, mas que continuam imersas em muitas pessoas de bem.

 

Eu tenho esperança. E daí? É aí que reside um grande diferencial para o enfrentamento das lutas da vida e o confronto com as injustiças que poderosos e endeusados promovem.

 

 

Josué Adam Lazier

 
 

Qual é o tom que deve reger a Igreja?

O TOM QUE DEVE REGER A IGREJA

 

Coloco a questão com uma pergunta: qual é o tom que deve reger a igreja? Com esta pergunta quero refletir sobre o que deve ser predominante na orientação da vida, da missão, da estrutura, dos concílios e toda a vida eclesial.

Nos últimos anos, o que inclui alguns Concílios Gerais, o tom que tem estado presente é o jurídico, ou seja, os advogados, juristas e conhecedores de leis do país e da Igreja têm tido uma participação destacada e cuja palavra tem determinado decisões e encaminhamentos tomados ao longo do tempo. Acontece que este não é o tom que deveria reger a Igreja. Esta fala não é minha apenas, pois já ouvi outras lideranças afirmarem isto. Logicamente que o jurídico é importante, especialmente numa sociedade que busca valorizar os direitos sociais e humanos e, para isto, a Igreja deve estar esclarecida e se manter em consonância com as leis que regem nosso país. Não há como ser diferente disto, mas o tom regente da Igreja deve ser outro.

O tom deve ser o teológico e missionário. Teológico no sentido da compreensão de Deus, da revelação divina e da Palavra de Deus. O conhecimento de Deus, do Evangelho e dos valores que advêm deste conhecimento forma o saber teológico da Igreja e, por conseguinte, orienta sua vida e missão. Missionário no sentido da ação e da presença pública da Igreja na sociedade, evidenciando compromissos com a justiça, sobretudo na perspectiva do Reino de Deus e se fazendo presente na denúncia, no anúncio e na ação restauradora, evangelizadora e transformadora da sociedade. Neste sentido, o teológico-missionário é o tom que deveria orientar o todo da Igreja, seus concílios, suas doutrinas, sua organização e estrutura, etc.

A Constituição da Igreja assim se expressa: “A Igreja metodista tem como principal missão participar da ação de Deus no seu propósito de Salvar o mundo. A Igreja Metodista faz isto realizando cultos, pregando o evangelho, ministrando os sacramentos, ensinando os membros da igreja e capacitando-os para os diversos ministérios” (Art. 3º da Constituição da Igreja Metodista).

Já o Plano para a Vida e Missão da Igreja se expressa assim: “A missão de Deus no mundo é estabelecer o seu Reino. Participar da construção do Reino de Deus em nosso mundo, pelo Espírito Santo, constitui-se na tarefa evangelizante da Igreja” (Plano de Vida e Missão).

Sendo assim, o tom seria o teológico e missionário e não o jurídico, como parece estar acontecendo nos últimos anos. O jurídico orientaria a Igreja para que suas leis e decisões estivessem em acordo com o que prescreve a Constituição Brasileira e suas leis e para que não tivéssemos que passar pela experiência de ver a Justiça Comum julgando a Igreja e, em muitas ocasiões, insinuando ou mesmo afirmando que a Igreja está equivocada. Mas o tom, o diapasão que rege a Igreja deve ser o teológico e missionário, conforme nossos documentos, em outras palavras, a MISSÃO segundo ela é entendida de forma conciliar, descrita nos documentos da Igreja e fundamentada na tradição bíblica com ênfase wesleyana.

Ao definir a sua missão a Igreja o faz a partir de um conceito bíblico-teológico mais amplo e abrangente do que a vida eclesial, ou seja, o Reino de Deus. Neste sentido, vale ressaltar que a Igreja existe para o cumprimento de sua missão, ampla e abrangente, e não apenas para o crescimento numérico como pensam algumas pessoas em nossa Igreja. O crescimento numérico seja na forma de novos membros, de arrecadação ou de freqüência as atividades da igreja, são conseqüências do cumprimento cabal da missão, mas não se pode minimizar a confessionalidade da Igreja em termos de números.

Portanto, o tom que deve reger a Igreja é o teológico e missionário, cujo eixo principal é Reino de Deus. Que assim seja.

 

 

Bispo Josué Adam Lazier

 
 

Da visão ou Di + Visão

DA VISÃO OU DI + VISÃO

Conjecturas e nada mais

 

 

Perguntaram-me se eu sou da “visão”. Esta pergunta me problematizou. Não sabia de qual “visão” estavam falando: seria a Visão Mundial, a visão celestial do apóstolo Paulo ou a visão tipo um visionário.

 

Matreiramente, antes de responder, pois hoje as portas, janelas e paredes têm ouvido, procurei esclarecimento: descreva a “visão”, pedi ao interlocutor. Ele me descreveu. Pedi mais esclarecimentos, pois queria me atualizar.

 

Fui informado que há uma “visão” que alguns receberam de Deus e estão implantando (ou seria plantando?) nas igrejas e que todos os membros, pastores, pastoras, bispos, bispas, apóstolos, e outros mais, teriam que recebê-la, pois se trata de uma nova “visão” que a igreja tem.

 

Bem, já que o assunto tinha começado, continuei a conversa: como ficará a situação dos que não receberam a tal “visão”? Serão excluídos, pois não há lugar para quem não é da “visão”, afirmou o interlocutor. Logo descobri que não sou da “visão”. Mas, para matar a curiosidade, não me contive e fiz mais perguntas e acabei por descobrir que há mais de uma “visão”, mas que estas estão relacionadas entre si e que no fundo é a mesma coisa.

 

Para encurtar a conversa, me contive e lamentavelmente concluí: não é uma “visão” e sim movimentos batizados por diferentes nomes que são apresentados como um modelo formatado de coisa nova, mas em roupa velha, pois preconceitos, desrespeitos, falta de ética e moral, continuam sendo praticas correntes entre os da “visão”.

 

Em minha defesa, como um não da “visão”, recorro ao discurso do apóstolo Paulo perante o rei Agripa, quando ele resume o seu trabalho e defende seu apostolado dizendo que simplesmente foi “fiel à visão celestial que recebeu de Deus” (Atos dos Apóstolos, 26.19).

 

A visão celestial do apóstolo pode ser descrita com as palavras de Romanos 1.16-17: “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: o justo viverá por fé”. Isto sim é visão, o resto, me desculpem os da “visão”, é di+visão.

 

Tenho dito...

 

Josué Adam Lazier

 

 

 

 

 

Quando a Igreja precisa ir para o Divã

QUANDO A IGREJA PRECISA IR PARA O DIVÃ

 

Quando ela deixa de perceber que mesmo entre seus principais membros há pessoas que estão lutando com dilemas, dúvidas, incertezas, inseguranças e decepções;

Quando ela deixa de perceber que ao seu redor há sinais de morte e violência e faz de conta que não é com ela;

Quando ela não deixa que pessoas que professam cultura, rito ou mito diferente dos seus se integrem plenamente em sua vida e missão;

Quando ela não consegue estender a mão para as pessoas cujas mãos estão machucadas, calejadas, trêmulas e manchadas pelas lutas da vida e dureza dos dias;

Quando ela não percebe que as famílias se desencontram, mesmo quando vão aos encontros de casais, porque não sabem como lidar com o contraditório e com a contrariedade;

Quando ela não se dá conta que mesmo entre sua liderança há sinais de imobilidade, passividade e prostração ante os dilemas que os dias de hoje apresentam aos líderes cristãos;

Quando ela não consegue gritar contra a violência que atinge a mulher, a criança, o idoso e os menos favorecidos, como se ela estivesse em outro mundo que não o da realidade;

Quando ela confunde colheita com poda e se vale do Evangelho de Cristo para pautar esta ação espúria;

Quando ela não vê que seus servidores, no caso pastores e pastoras, estão adoecendo e adoentando outros, com suas loucuras em nome de um evangelho que não tem nada com o pregado por Cristo;

Quando não se dá conta que ela deveria ser uma comunidade terapêutica e não uma associação de esquizofrenia alimentada pela idéia de que Deus concorda com suas teorias individualistas, intolerantes e homogeneizadas;

Quando a morte, a dor do outro, o lamento, a murmuração do próximo, não alcançam os que deveriam atuar terapeuticamente, mas que agem pateticamente;

Quando o grito, o choro, o ranger de dentes são transformados em manifestação divina, enquanto a quietude, a reverência, a contemplação são tomadas como falta de experiência religiosa;

Quando a Igreja se referencia na máxima de Maquiavel “os fins justificam os meios” e não sente o constrangimento que o Espírito Santo produz por esta quebra de princípio do Evangelho;

Quando ela disciplina os membros “pequeninos” e não faz o mesmo com os que estão entre a liderança maior da Igreja;

Quando o pastoreio é virtual;

Quando o fundamento dos apóstolos ficou sendo somente dos apóstolos;

Quando o “ai daquele” proclamado pelos profetas ganha relevância entre os chamados líderes cristãos cujas práticas merecem um “ai daquele”;

Quando o vale tudo condenado pela ética da sociedade acaba valendo tudo no aconchego dos espiritualizados;

Quando ela perde o senso da misericórdia;

Quando o amor vira tema dos cânticos “espirituais” e neles fica cativo;

A Igreja que deveria ser terapêutica precisa ir para o divã quando o Cristo da fé, o Jesus de Nazaré, bater à porta da Igreja pedindo acolhida. Ele, com certeza, estará acompanhado daqueles que não puderam adentrar no átrio da Igreja porque não eram os “escolhidos”.

 

Josué Adam Lazier

 

 

 

 
 

A Igreja da Importação

A “IGREJA DA IMPORTAÇÃO”

 

Falar sobre os vários tipos de igrejas que existem não é tarefa muito difícil, haja vista a enorme lista que se forma com diferentes denominações que são encontradas em nosso meio. O difícil é conhecer e entender o fundamento bíblico e teológico da vida e da missão da grande maioria destas igrejas.

Numa lista que circulou na internet há uma relação enorme de igrejas e com os mais variados nomes. Por exemplo: Igreja Pentecostal do Fogo Azul (Duque de Caxias/RJ); Igreja a Serpente de Moisés, a que engoliu as outras (Rio de Janeiro/RJ); Igreja Atual dos Últimos Dias (Araras/SP); Igreja Pentecostal Jesus Vem Você Fica (São Paulo/SP); Congregação Anti-Blasfêmias; Igreja Automotiva do Fogo Sagrado; Igreja Evangélica Adão é Homem; Igreja Evangélica Mar do Sertão; Igreja Metodista Internacional Fábrica de Milagres; e muitas outras.

Gostaria de inserir nesta lista outro tipo de igreja: a “igreja da importação”. Esta igreja é do tipo que importa muitas coisas, seguindo a tendência do “mercado” religioso de imitar o que surge por aí e de introduzir práticas, comportamentos e ensinamentos que não encontram respaldos nos documentos oficiais da Igreja. A expressão “importação” neste texto tem esta conotação. Entre os “produtos” de importação estão os seguintes:

  • Evangelistas estrangeiros para evangelizar os brasileiros;
  • Técnicas de evangelização e métodos de crescimento de igreja que não têm nada a ver com a eclesiologia professada pela Igreja;
  • Práticas pastorais de movimentos que se apresentam como Igreja, mas que não passam de agrupamentos travestidos de eclesiásticos;
  • Modelos de gerência executiva e que, portanto, buscam resultados a todo o custo;
  • Estratégias de lideranças fundamentadas em marketing pessoal;
  • Atitudes que o Evangelho reprova nos governantes e nos dirigentes do povo, mas que acabam sendo “toleradas” em algumas lideranças cristãs;
  • Modelos de captação de recursos que mais parecem empresas financeiras em busca de lucro fácil e exploratório;
  • Uma ética estereotipada;
  • O “jeitinho” brasileiro de transformar safadeza em proeza;
  • A concepção pecaminosa de que o que os outros não vêem não é pecado;
  • O supérfluo em detrimento do permanente;
  • Técnica de transformar o corruptível em incorruptível;
  • Mecanismo de intimidação que caracteriza lideranças opressoras e repressoras;
  • O estreitamento de pensamento e reflexão que caracteriza o fundamentalismo religioso.

Esta igreja tipo importação parece que não se importa com o Reino de Deus e a sua justiça e com o Direito e a Justiça de Deus. Um dia haverá choro e ranger de dentes.

Mas onde está a Igreja ...? Às vezes parece que está importando baboseiras e entrando no rol das igrejas esquizofrênicas, tal qual a “Igreja e Bar Evangélico Arca Ltda ME” ou a “Igreja Evangélica da Maresia que Corrói”.

Que Deus nos ajude a sermos uma Igreja que se importa com os valores do Reino de Deus e com a dignidade da vida humana.

 

Josué Adam Lazier

 

 

 
 

Qualidade de Ensino e Responsabilidade Social

QUALIDADE DE ENSINO E RESPONSABILIDADE SOCIAL

 

Um dos valores da Política de Extensão da Unimep, aprovada em 1998, é aliar a qualidade acadêmica com o compromisso social e a construção da cidadania. Neste sentido, projetos e programas de extensão contribuem para a mediação da relação entre a universidade e a sociedade, ampliando os horizontes no processo de ensino e aprendizagem e a inserção em diferentes realidades, possibilitando aos alunos a interação com as pessoas da comunidade e em contextos diferenciados.

Por meio do programa de extensão “Unimep na Comunidade”, ação realizada em diferentes comunidades, há a desmistificação do outro. Ou seja, a comunidade universitária percebe que o diálogo entre o conhecimento científico e o saber das pessoas das comunidades e movimentos sociais contribui para o desenvolvimento social e o bem estar comum e a comunidade descobre que a Universidade oferece condições para a construção da cidadania como patrimônio coletivo da sociedade.

Nesta troca de vivências, experiências, conhecimentos, saberes e a busca pela superação das dificuldades da vida, professores, alunos e comunidade se perceberam como cidadãos que podem lutar pela dignidade da vida. Foram várias as ações desenvolvidas em 2013 e que se repetirão de forma ampliada em 2014.

A experiência da ação extensionista é ímpar e sinalizadora da importância de a universidade sair de seus muros para encontrar as pessoas no ambiente em que vivem e perceber o outro em seu contexto histórico e cultural.

 

Prof. Dr. Josué Adam Lazier

Coordenador de Extensão e Assuntos Comunitários

Universidade Metodista de Piracicaba - Unimep

 
 

Onde ficam as pessoas?

ONDE FICAM AS PESSOAS?

 

O ministério pastoral é relacional! O pastor ou a pastora, ou mesmo outros segmentos da igreja que desenvolvem o cuidado pastoral, estão, a todo o tempo, relacionando-se com as pessoas da igreja, pessoas que procuram a igreja e pessoas que são procuradas pela igreja, além dos contatos e visitas que são feitas, ou deveriam, a diferentes segmentos da sociedade.

O apóstolo Paulo deixa registrado em suas cartas esta questão relacional quando relembra pessoas que estiveram envolvidas com o seu trabalho pastoral. Destaca pessoas pelo comprometimento com o Evangelho e pela dedicação a Cristo. Há também alguns apontamentos que faz em função de comportamentos de pessoas que ele acolheu na comunidade cristã.

Ao se relacionar com as pessoas, o pastor e a pastora criam laços de afetividade e até mesmo animosidade, o que é natural, considerando que relacionar-se com os outros é sempre uma troca de vivências, conhecimentos, saberes, fazeres, expectativas, ideias, sentimentos, etc. E, neste sentido, não é possível agradar a todas as pessoas ou mesmo atender a todas as expectativas.

Surgem, portanto, amizades que se fortalecem e animosidades que se aprofundam, gerando antagonismos e desentendimentos.

Ao falar sobre este assunto, fui perguntado sobre onde ficam as pessoas depois que o pastor e pastora já cumpriram muitos anos de ministério e tiveram diferentes momentos em sua jornada ministerial desempenhando funções pastorais. No que fui pronto a responder:

1.       Algumas pessoas ficam no coração e na lembrança e acompanharão o pastor e a pastora ao longo de sua vida. São pessoas que criaram laços de afetividade, amizade e mantêm os sentimentos. Estas pessoas “nutrem” o pastor ou a pastora, pelo significado da amizade, do companheirismo e da empatia que caracteriza alguns relacionamentos na igreja.

2.       Algumas pessoas continuarão a receber a lembrança do pastor e da pastora, pela dedicação que demonstraram no cumprimento das responsabilidades enquanto pessoas da igreja comprometidas com os valores do Evangelho.

3.       Algumas pessoas serão objetos da intercessão do pastor e da pastora. Por meio da oração, o pastor e a pastora continuarão a buscar a benção de Deus para alguns membros da igreja que pastorearam e cujas situações de vida envolveram o pastor e a pastora no enfrentamento das mesmas.

4.       Algumas pessoas o pastor e a pastora colocarão no “altar de Deus”, uma vez que o agente pastoral não tem mais condições de tratar (pastoralmente) das mesmas, o recurso que têm é entregar estas pessoas no “altar de Deus”, na esperança que outros possam continuar oferecendo o cuidado pastoral.

5.       Algumas pessoas o pastor e a pastora desejarão não ter conhecido e presenciado determinados comportamentos...

Bom, é isto aí. Breves e apressadas considerações.

 

 

Bispo Josué Adam Lazier

 
 

O FERMENTO LEVEDA A MASSA

O FERMENTO LEVEDA AS MASSAS

 

Temos visto o povo se reunindo em diferentes cidades brasileiras para protestar, manifestar, cantar, gritar a liberdade e a democracia. Infelizmente há alguns, poucos, que se valem da violência para serem ouvidos. Completamente desnecessário, pois o clamor que os poderosos ouvem é o grito de liberdade, de respeito, de democracia, de direito respeitado, não o grito/estouro de bombas e de vidros.

Há quem designe o povo reunido de “massa”, dando a entender manobras e manipulações. Não me uno aos que assim se referem ao povo reunido, pois, diferente das massas, este tem identidade, tem rosto, tem cor, tem dor, tem sofrimento, tem esperança, tem cheiro, tem suor, tem sangue, tem coragem, tem dignidade. O povo reunido tem o “fermento que leveda as massas” e dá sabor, gosto, prazer e orgulho de ser povo e de estar com o povo. Se os poderosos fazem festas e festanças, o povo faz manifestação em nome de um Brasil abandonado pelas políticas públicas “umbilicais” e eleitoreiras.

O fermento que leveda as massas é a força gerada pela indignação que vem se somando ao longo dos anos de tantas indiferenças e tantas corrupções que parecem que não se acabam. Indignação pelas “casas do povo” que fecham suas portas para o povo, porque os poderosos estão “indignados” que o povo está na rua, lugar de moradia para muitos brasileiros que não tem recebido o “cuidado” dos políticos. Dormir na rua pode? Mas estar na rua para protestar não.

Lembro-me da fábula de Jotão de um dos contadores de história do povo da Bíblia, que afirma que se as boas árvores não se manifestarem, os espinheiros dominarão. Como pastor e bispo senti orgulho de saber que jovens da minha igreja foram para as ruas manifestar; como educador me senti orgulhoso de ver as lideranças estudantis da minha Universidade (UNIMEP) liderarem o movimento pelas ruas de Piracicaba em nome do direito e da paz. Recordei o final dos anos de 1970 quando o movimento dos metalúrgicos eclodiu no ABC Paulista e eu me encontrava por lá para estudar e vivenciei este momento.

É isto aí! O fermento que torna as massas povo é a fragilidade das políticas públicas e a sabedoria popular que sabe ler a vida. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça o clamor do povo na rua...

Josué Adam Lazier

 

 

 

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