UMA IGREJA LITÚRGICA E TRANSFORMADORA
Vale a pena ler de novo 1 - Eclesiologia
Vivemos numa sociedade onde as coisas são relativizadas e ficam atreladas aos interesses pessoais ou de grupos, às circunstâncias da vida, às recompensas que as pessoas podem obter não importando para isto os procedimentos. Esta relativização tem influenciado a Igreja e de forma muito agressiva. Assim, comportamentos cristãos são definidos não pelos valores absolutos do Evangelho e sim pelos relativos da sociedade. Atitudes de caráter, ética, família, honestidade, coerência, misericórdia e outras são relevadas a outros planos que não os absolutos.
Infelizmente, tem sido comum a mídia informar que líderes cristãos estão envolvidos em corrupção, mentiras, violências, falcatruas de toda sorte, manchando assim a imagem da Igreja na sociedade. Não é tão raro em nossos dias encontrarmos membros destacados de igrejas evangélicas cometerem atos abusivos, seja no contexto eclesiástico, familiar ou profissional. Há líderes evangélicos que afirmam que vale tudo para que a igreja esteja sempre em movimento e aparentando desenvolvimento.
Enquanto metodistas como nos colocamos diante deste quadro?
Encontramos em um dos documentos que costuma permanecer nas estantes dos gabinetes pastorais ou das bibliotecas das igrejas várias orientações seguras que nos ajudam a tratar das relativizações dos dias de hoje. Refiro-me ao Credo Social da Igreja Metodista.
O Credo Social é a doutrina social da Igreja, ou seja, a formulação e concepção da responsabilidade da Igreja e sua membresia, frente à sociedade e as questões que a envolvem. Além das Bases Bíblicas que são como um texto litúrgico, o Credo apresenta o que poderia ser designado de doutrina social e onde se evidenciam aspectos da compreensão e da leitura que a Igreja tinha do mundo e da sociedade e a responsabilidade da mesma na sua imersão no contexto social. A primeira versão do Credo Social data de 1930, por ocasião da autonomia da Igreja Metodista.
Ele apresenta os seguintes princípios: direitos iguais para todos; justiça para todos e em todas as camadas sociais; cuidado com a família; abolição da exploração de crianças através do trabalho; oferecimento de uma educação que propicie o desenvolvimento das crianças; regulamentação do trabalho para as mulheres; proteção do indivíduo e da sociedade contra os males da bebida alcoólica e tóxicos, bem como dos prejuízos causados pelo comércio destas substâncias e da prática do jogo e da prostituição; sustento para o operário em sua velhice ou em caso de invalidez ou desemprego; descanso semanal e horas de trabalho razoável; salário que sustente a família do trabalhador; repúdio à guerra; direito do voto (CÂNONES, 1930).
Alguns destes itens já foram conquistados pela sociedade brasileira, mas há outros que ainda são relevantes e alvos de busca para os dias em que vivemos.
O VIII Concílio Geral realizado em 1960 fez as primeiras mudanças no Credo Social. Este Credo enfatiza a busca pela justiça social, política e econômica. Para a época era um documento de grande abrangência e de uma abertura no interior da Igreja no sentido de conceber a sua missão de forma contextualizada, profética, sinalizadora da vida, educativa e formadora da cidadania e de perceber as oportunidades de cumprimento da missão de forma concreta e relevante.
O X Concílio Geral realizado em 1970 fez outras alterações no Credo Social. Este Concílio alterou sua concepção de uma Igreja de finalidades para uma Igreja de missão e assim se expressou no caput e no parágrafo único (CÂNONES, 1970: p. 11):
“A missão da Igreja Metodista é participar da ação de Deus no seu propósito de salvar o mundo”.
Parágrafo único: “A Igreja Metodista cumpre a sua missão realizando o culto de Deus, pregando a sua Palavra, ministrando os sacramentos, promovendo a fraternidade e a disciplina cristãs e proporcionando a seus membros meios para alcançarem uma experiência cristã progressiva, visando ao desempenho de seu testemunho e serviço no mundo”.
O XVI Concílio Geral realizado em 1997 também fez revisão e contextualizou o Credo Social. Entre as alterações feitas estão uma ampliação da participação ecumênica da Igreja e o resgate da preocupação de João Wesley em unir ciência e piedade (CREDO, 1999: p.17).
Ao relermos o Credo Social nos deparamos com valores que confrontam a relativização que toma conta da sociedade e que influencia a Igreja. O Credo Social apresenta bases Bíblicas que fundamentam a liturgia e a responsabilidade social e indica que a presença da Igreja no mundo deve ser salvífica, portanto transformadora da realidade, e não de conformação.
Entre os valores que o Credo assinala estão: bases bíblicas para a vivência cristã, responsabilidade social, justiça social, direitos humanos, cidadania, liberdade, família, dignidade humana, vida em comunidade, entre outros. O Credo Social se encerra com as seguintes palavras: “amar efetivamente as pessoas, caminhando com elas até as últimas conseqüências para a sua libertação dos problemas e a sua autopromoção integral”. Em outras palavras, o Credo Social ensina à Igreja que a vida cúltica está ligada ao cumprimento da missão. Cultuar a Deus é agir para transformar a realidade da vida e transformar a vida é cultuar a Deus. Portanto, vale à pena ler de novo o Credo Social.
Bispo Josué Adam Lazier
Categoria: Discipulando a liderança
Escrito por Josué Adam Lazier às 20h24
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Filosofando - quem sou eu
Reflexão 8 – Vida cristã
Filosofando: quem sou eu?
Quem sou eu?
Uma barriga com fome
Um corpo com frio
Uma criança não come
A comida sumiu.
Quem sou eu?
Um pé pisando o chão
Uma mão a sangrar
Um burguês, indecisão
Não sabe em que gastar.
Quem sou eu?
Um povo oprimido
Um bolso vazio
Um menino ofendido
Seu pai lhe agrediu.
Quem sou eu?
Um trabalhador explorado
Um chefe sem consideração
Um mundo desumanizado
A caminho da destruição.
Quem sou eu?
Alguém que acredita no “Eu Sou”.
Escrevi esta pequena poesia quando era aluno da Faculdade de Teologia, em fevereiro de 1981.
Bispo Josué Adam Lazier
Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 12h35
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A "IGREJA DA IMPORTAÇÃO"
Falar sobre os vários tipos de igrejas que existem não é tarefa muito difícil, haja vista a enorme lista que se forma com diferentes denominações que são encontradas em nosso meio. O difícil é conhecer e entender o fundamento bíblico e teológico da vida e da missão da grande maioria destas igrejas.
Numa lista que circulou na internet há uma relação enorme de igrejas e com os mais variados nomes. Por exemplo: Igreja Pentecostal do Fogo Azul (Duque de Caxias/RJ); Igreja a Serpente de Moisés, a que engoliu as outras (Rio de Janeiro/RJ); Igreja Atual dos Últimos Dias (Araras/SP); Igreja Pentecostal Jesus Vem Você Fica (São Paulo/SP); Congregação Anti-Blasfêmias; Igreja Automotiva do Fogo Sagrado; Igreja Evangélica Adão é Homem; Igreja Evangélica Mar do Sertão; Igreja Metodista Internacional Fábrica de Milagres; e muitas outras.
Gostaria de inserir nesta lista outro tipo de igreja: a “igreja da importação”. Esta igreja é do tipo que importa muitas coisas, seguindo a tendência do “mercado” religioso de imitar o que surge por aí e de introduzir práticas, comportamentos e ensinamentos que não encontram respaldos nos documentos oficiais da Igreja. A expressão “importação” neste texto tem esta conotação. Entre os “produtos” de importação estão os seguintes:
- Evangelistas estrangeiros para evangelizar os brasileiros;
- Técnicas de evangelização e métodos de crescimento de igreja que não têm nada a ver com a eclesiologia professada pela Igreja;
- Práticas pastorais de movimentos que se apresentam como Igreja, mas que não passam de agrupamentos travestidos de eclesiásticos;
- Modelos de gerência executiva e que, portanto, buscam resultados a todo o custo;
- Estratégias de lideranças fundamentadas em marketing pessoal;
- Atitudes que o Evangelho reprova nos governantes e nos dirigentes do povo, mas que acabam sendo “toleradas” em algumas lideranças cristãs;
- Modelos de captação de recursos que mais parecem financeiras em busca de lucro fácil e exploratório;
- Uma ética estereotipada;
- O “jeitinho” brasileiro de transformar safadeza em proeza;
- A concepção pecaminosa de que o que os outros não vêem não é pecado;
- O supérfluo em detrimento do permanente;
- Técnica de transformar o corruptível em incorruptível;
- Mecanismo de intimidação que caracteriza lideranças opressoras e repressoras;
- O estreitamento de pensamento e reflexão que caracteriza o fundamentalismo religioso.
Esta igreja tipo importação parece que não se importa com o Reino de Deus e a sua justiça e com o Direito e a Justiça de Deus. Um dia haverá choro e ranger de dentes. Mas onde está a Igreja que não se importa com isto? Às vezes parece que está importando baboseiras e entrando no rol das igrejas esquizofrênicas, tal qual a “Igreja e Bar Evangélico Arca Ltda ME” ou a “Igreja Evangélica da Maresia que Corrói”.
Que Deus nos ajude a sermos uma Igreja que se importa com os altos valores do Reino de Deus e com a dignidade da vida humana.
Bispo Josué Adam Lazier
Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 18h20
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O/a pastor/a, a família e o ministério pastoral
O/A PASTOR/A, A FAMÍLIA E O MINISTÉRIO PASTORAL
Um Programa de Pastoreio junto ao Pastor, Pastora e à Família Pastoral, deve promover a saúde física, emocional, espiritual e psicológica das pessoas, bem como aprofundar a amizade, o companheirismo e a solidariedade. Nem todos os assuntos para um Programa serão tratados neste artigo, mas muitos poderão ser encaminhados e administrados, visando o bem-estar dos pastores e familiares. Abordarei alguns que julgo ser de suma importância para este início de conversa, destacando que a solução das crises e conflitos está em cada pessoa. O texto bíblico para nossa motivação é Romanos 15.1-7.
I - EXPECTATIVAS NA VIDA DO PASTOR E DA SUA FAMÍLIA
Várias são as expectativas que estão presentes na vida pastoral. Não há como não tê-las, pois estão presentes em todos os segmentos da sociedade hoje, bem como em todas as profissões, sobretudo levando em consideração que vivemos num mundo em competição e na busca pela produção imediata. A vida pastoral está presente neste contexto. As expectativas podem ser identificadas como: pessoais, familiares, eclesiais e institucionais.
Estas expectativas não podem ser anuladas ou desconsideradas, pois elas fazem parte da vida. O pastor e sua família precisam conviver com elas, mas estabelecer prioridades para a vida pessoal, familiar e ministerial. Estas expectativas tendem a criar as tensões e as crises, seja no aspecto pessoal do pastor, no sentido ministerial ou na vida familiar. Estas tensões podem ser destrutivas ou criativas, pois se traduzem em desafios que cercam a vida pastoral.
Como enfrentar este quadro? Não há mágica, mas há um convite à algumas atitudes que podem ser tomadas:
1. Estabelecer um Plano de Ação Pastoral - será o "trilho", a "linha" pela qual o/a pastor/a cumprirá o seu ministério;
2. Reavaliar expectativas, sonhos e motivações - a reavaliação deverá estar presente na vida pastoral, pois trata-se de uma atitude saudável e prazerosa, ainda mais considerando que vivemos num mundo em constante desenvolvimento;
3. Promover mudanças em áreas onde a reavaliação indicar. As mudanças são importantes no processo de crescimento e de maturação;
4. Evitar fantasias e ilusões - estas fantasias e ilusões acabam por colocar um peso para a família ou igreja carregar.
5. Evitar a imitação - práticas promovidas pela mídia, pela literatura e por movimentos para-eclesiásticos tendem a criar expectativas "alienígenas" e estranhas ao contexto.
II - CUIDADO COM A AGENDA
A Administração do tempo é um gerador de crises na vida e família pastoral. O ativismo tem tomado conta das agendas e dos Planos, dando uma falsa idéia de realização e, em muitos casos, apenas para atender determinadas expectativas irrelevantes. Como administrar o tempo e organizar a agenda?
Os especialistas indicam que este assunto tem se desenvolvido ao longo dos anos. Assim, podem ser encontradas "gerações" ou métodos na arte de administrar o tempo1:
1) O tempo é administrado através de listas e bilhetes
2) O tempo é administrado através de calendários e agendas. O objetivo é olhar para frente e marcar os futuros eventos com antecedência
3) O tempo é administrado através da definição de prioridades e estabelecimento de metas. Este é o método mais usado hoje em dia.
4) O importante não é administrar o tempo mas sim os relacionamentos, as pessoas. Em vez de centrar-se nas coisas e no tempo, esta geração concentra-se nos relacionamentos fundamentais e na obtenção de resultados.
Dentro desta perspectiva, alguns relacionamentos são fundamentais e devem fazer parte da agenda do pastor: familiar, colegas, autoridades da igreja, liderança da igreja, membresia, vizinhos, e outros. O pastoreio é feito através de relacionamentos e convivência.
III - CUIDADO PESSOAL
1) Cuidado com a saúde física, emocional e espiritual - Destacamos o cuidado que deve-se ter hoje com a saúde física e mental. Um seguro de saúde ajuda muito nas horas de emergência, além de dar tranqüilidade para a família. Um Seguro de vida também pode ser contemplado no orçamento familiar. O pagamento do INSS deve ser observado; o pastor e a pastora responsáveis fazem os pagamentos em dia e seguem os interstícios que o governo determina. As vezes uma terapia pode ajudar muito na administração das emoções e dos sentimentos. A disciplina na alimentação, no programa de exercícios físicos ou na prática de esportes também faz parte das "atividades espirituais".
2) Cuidado com a vida devocional - Paulo deixa transparecer nas suas cartas que dedicava muito tempo para orar por seus discípulos. Nestas horas de oração e reflexão encontrava força para vencer as dificuldades do ministério, bem como as lutas e prisões que enfrentou. Encontrava conforto na oração e rendia sempre Graças a Deus por tudo que estava acontecendo. Chegou a escrever para os tessalonicenses o seguinte: "orai sem cessar, em tudo daí graças, pois esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus" (I Tes. 5.17-18). O pastor e a pastora hoje precisam desenvolver na sua vida este "momento no altar de Deus" para que seu ministério produza os frutos segundo a capacidade que Deus deu a cada um e a cada uma. O Colégio Episcopal orienta o povo metodista a viver a sua espiritualidade de maneira vertical, através da "Ceia do Senhor, leitura e estudo devocional da Bíblia, prática da oração e do jejum, participação nos cultos" e que esta espiritualidade se expresse de maneira horizontal, através da solidariedade junto aos pobres, necessitados e marginalizados.2
3) Cuidado com a família - "A família do pastor e da pastora deve ser uma prioridade no seu ministério. A falta desta consideração e do atendimento das responsabilidades do pastor para com o seu lar tem produzido grandes desajustes e problemas em sua família".3
Na priorização da família o pastor precisa responder uma questão fundamental: Sua família é protagonista ou coadjuvante? Neste sentido, que atividades serão desenvolvidas com a família (esposa, esposo, filhos, etc.)?
* Determinar um tempo semanal para estar com a família - brincar, passear, ir ao shopping, tomar sorvete, assistir um filme em casa ou no cinema, etc. Além disto, será um tempo oportuno para planejar, para ensinar, para resolver problemas.
* Convivência com o cônjuge é fundamental pois o casal pode praticar outras atividades além daquelas praticadas no quarto.
* Convivência com os filhos. Os pais podem desenvolver atividades ou programas dentro das necessidades de cada filho ou filha.
IV - SENTIMENTO DE SER ACOLHIDO
O sentimento de ser acolhido e de acolher é fundamental para os relacionamentos. Em Romanos 15.1-7 o apóstolo Paulo indica algumas atitudes a serem observadas pelo cristão, tanto no contexto do lar como no da igreja. São recomendações relevantes para nós:
* Os mais fortes devem suportar os mais fracos - v. 1 * Agradar o próximo com o que for bom para a edificação - v.2 * Ter paciência e consolação para com os outros - v. 5 * Acolher uns aos outros como também Cristo nos acolheu - v. 7
Para concluir, é importante ressaltar que tanto o ministério como a família pastoral são como meios de graça na vida da igreja.
Bispo Josué Adam Lazier
Bibliografia:
1 Covey, Stephen R., Os 7 hábitos das pessoas muito eficazes, Editora Best Seller, 31a Edição, pg. 163 2 Colégio Episcopal, Servos Servas, Sábios Sábias, Santos Santas, Solidários Solidárias, 1989, pg. 33. 3 Igreja Metodista, Ênfases Metodistas no Ministério Pastoral, Série "Documentos" - 1, 1980., pg. 59.
Categoria: Pastorais
Escrito por Josué Adam Lazier às 20h18
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Quanto pesava a cruz
QUANTO PESAVA A CRUZ?
Quanto pesava aquela cruz
Que Tu truncado carregavas
Todo exangue e molestado
Pelas três vezes que no chão rolaras?
Quanto pesava aquela que tu,
Já semimorto,
Ainda levavas ao calvário
Para si próprio padecer?
A cruz, quanto pesava?
Talvez não tanto
Pela grandeza do mundo que criaste
E pela missão que nos confiaste.
E o madeiro, que de imaculado
Foi assim tão vil transformado,
Não pesaria nada também
Não fossem os pecados do mundo sobre ele recaírem.
Simão, o camponês,
Veneradamente contigo partilhou,
Sentindo o peso e o desfavor deste mundo,
Todo falso, todo imundo!
E a cruz que o assolou
Manchada pelo ombro que sangrava
Por nossos pecados e desacertos,
Quanto pesava?
E Tu, tão humilde e tão sereno,
Aceitou a crucificação,
Que fez com que tantos vibrassem
No meio de uma grande multidão.
Quanto pesava a cruz?
Aquela onde benevolente enunciaste:
“Pai, perdoa-lhes,
Eles não sabem o que fazem”.
Escrevei este poema em 13 de janeiro de 1977. Ele me fez lembrar a mensagem da cruz que tão bem faz a nossas vidas e que tanto nos desafia, especialmente numa época da história em que a doação, o sacrifício, a renúncia, a conformação com as exigências de uma vida transformada pela Cruz de Cristo parecem coisas do passado.
Bispo Josué Adam Lazier
Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 14h11
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Ministério junto à família
Pastoral 2 - Família
O ministério junto à família é um dos grandes desafios ministeriais e pastorais nos dias de hoje. Ao cumprir com sua missão, a Igreja deve incluir em seu horizonte missionário as famílias, seja qual for a sua forma de organização. O exercício do ministério pastoral também teve ter como uma das suas prioridades de ação as famílias. Assim, o desenvolvimento de uma pastoral que alcance as famílias deve ter os seguintes contornos:
I - Fundamentos bíblicos e teológicos
1. O Antigo Testamento se inicia quando a primeira família é criada por Deus (Gn 2.26-27) e quando Deus dialoga com o primeiro casal (Gn 3.9-10) e termina chamando as famílias para uma reconciliação - Ml 4.6: "E ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais...".
2. O Novo Testamento se inicia contando a história de uma família que aguarda um filho que, pelas indicações dos acontecimentos, seria muito importante (Mt 1.18-25). O filho nasce quando a família está em viagem e o único lugar que encontram para acolher a criança é uma manjedoura. Termina com a figura da esposa e do esposo que se comunicam com a palavra de convite "Vem" (Ap 22.17).
3. A família faz parte do plano divino da criação. Deus tem um projeto para a vida da família. Ao criar a família Deus estava providenciando as condições para que o homem e a mulher não estivessem sozinhos. Ao vínculo entre o homem e a mulher Deus estava estabelecendo a comunhão.
4. O termo grego oikos ocorre cerca de 110 vezes no Novo Testamento e significa a "casa", a "família", "pertences" (incluindo escravos), "bens", etc. Lendo e analisando alguns textos dos Evangelhos pode-se perceber que Jesus, de uma maneira ou outra, resgatou o sentido de família. Jesus não falou de uma maneira clara e direta sobre ela, mas fica claro que a família teve um papel importante na Sua formação e para o Seu ministério.
5. Nas cartas de Paulo encontramos alusão às relações familiares. Ele destaca a família como modelo de comportamento ideal para toda a igreja e exorta as comunidades cristãs como uma família (Rm. 12 e 14; I Co. 12; Ef. 5.21-26; Cl. 3.18-21).
6. Assim, tanto o Antigo e o Novo Testamento testificam "a respeito da importância da família na vida das pessoas e da sociedade. Seu papel vai além da função meramente procriadora, sendo uma comunidade de apoio mútuo, amor, comunhão, formação e serviço, atingindo assim funções educadoras, socializadoras e integradoras das pessoas na sociedade".
II - Documentos e pastorais da Igreja
Alguns documentos e pastorais da Igreja destacam a importância e relevância de uma pastoral direcionada para a vivência familiar. Destacamos alguns:
1. João Wesley inclui nos seus ensinamentos o tema da família. Destacamos as seguintes frases:
"A pessoa que exige as suas primeiras atenções na sua casa é, sem dúvida, a sua esposa, visto que o sr. tem amá-la como Cristo amou a sua Igreja, quando deu a sua vida para pudesse 'purificá-la para si mesmo, para que ela não tivesse mancha nem ruga ou qualquer outra coisa semelhante'. Todos os maridos devem ter o mesmo objetivo em todas as suas relações com as suas esposas...".
"Em segundo vem os filhos - espíritos imortais que Deus confiou ao seu cuidado, por algum tempo, para que possa treiná-los em toda santidade e prepará-los para a alegria de Deus na eternidade. Esta confiança é importante e gloriosa, visto que uma alma é mais valiosa do que todo o resto do mundo. O sr., portanto, tem de ter todo o cuidado com as crianças para que quando for chamado a dar contas ao Pai dos espíritos a respeito delas, possa fazê-lo com alegria e não com tristeza...".
2. No Credo Social da Igreja Metodista, um documento que aborda a doutrina social da Igreja ou a responsabilidade que a Igreja tem em sua ação na sociedade e junto à família.
3. Na Carta Pastoral do Colégio Episcopal sobre a Família, está presente a preocupação da Igreja no que diz respeito ao mundo de hoje e a complexidade social presente que atinge as famílias, gerando desunião, desintegração, separação e impactos na vida de muitos cidadãos e cidadãs.
4. Na Pastoral sobre Afetividade e Sexualidade, desenvolvida pelo Dr. Almir Linhares de Faria, o tema da família ganha uma especificidade e orientação para a vivência da afetividade e sexualidade.
III - Ações na perspectiva de uma pastoral
São várias as ações que podem ser desenvolvidas na busca por uma pastoral junto à família. Apresentamos algumas:
1. Desenvolvimento de um ministério que proporcione educação, apoio e ajuda à família. 2. Formação de um ministério pastoral que esteja apto a acompanhar a família na sua realidade e em seus dramas. 3. Publicação de materiais, apostilas, livros, materiais visuais, pastorais e tudo o mais que possibilite meios à família para o cumprimento de sua vocação cristã. 4. Organização de encontros, palestras e conferências. 5. Desenvolvimento de um programa de preparação dos noivos para o casamento. 6. Acompanhamento familiar e desenvolvimento de núcleo de apoio familiar. 7. Apoio ao pastor/a e sua família. 8. Serviço de atendimento interpessoal. 9. Celebração e valorização de datas como dia das mães, dos pais, mês da família, bodas, batizado de crianças, casamentos, e outras. 10. Sermões periódicos e estudos bíblicos acerca da família.
IV - A Pastoral junto à família deve ser:
1. Prioridade no trabalho da Igreja - Planejamento, Recursos, Programas, Cursos devem priorizar a família. Neste sentido, é importante que a "família nuclear" transforme-se na "família de fé" e a unidade social mais importante nos dias de hoje. 2. Base, o fundamento, suporte e apoio. A família deve ser a base para os outros ministérios e atividades desenvolvidas pelos membros da Igreja. 3. Assumida por todos os segmentos da Igreja. 4. Parte do Plano de Ação das Igrejas Locais, dos distritos e Região a fim de que não seja a prática isolada de grupos ou pessoas ou somente em determinadas ocasiões.
V - Como iniciar um ministério junto à família
Para o início de um trabalho que busque valorizar e alcançar as famílias sugerimos os seguintes passos:
1. Abordar o tema e sua relevância para os dias de hoje nos sermões e estudos bíblicos; 2. Convidar casais para momentos de diálogo sobre o desenvolvimento de um trabalho específico com as famílias da igreja. Estes casais não precisam ter, necessariamente, formação específica, mas sim apresentarem disposição para este tipo de trabalho; 3. Envolver pessoas que vivem sozinhas, pais, mães, filhos, filhas, e outras pessoas da família que podem contribuir para que o ministério tenha um alcance maior e não fique restrito apenas ao casal; 4. Fazer levantamento dos problemas que envolvem as famílias da igreja; 5. Promover encontros regulares com casais e com pais e filhos, para trabalhar assuntos relativos aos relacionamentos familiares; 6. Preparar noivos para o casamento e integrá-los com outros novos casais; 7. Valorizar a própria família para ser um exemplo para as demais famílias da igreja. 8. Evitar a tendência que muitas vezes influencia o trabalho com casais ou famílias de criar manuais e regras para todas as pessoas. O trabalho com famílias deve ser concebido de uma forma mais abrangente e não de maneira legalista e uniformizadora.
Conclusão
A pastoral (ou o ministério junto às famílias) deve trabalhar na perspectiva de que a família é uma comunidade de graça.
Bispo Josué Adam Lazier
Bibliografia básica: 1. Colégio Episcopal da Igreja Metodista, Pastoral da Família, São Paulo, Imprensa Metodista, 1979. 2. Mohana, João, Ajustamento Conjugal, São Paulo, E. Loyola, 1994. 3. Maldonado, Jorge, Até nas Melhores Famílias, Petrópolis, Editora Vozes, 1998. 4. Tournier, Paul, Para Melhor Compreender-se no Matrimônio, Editora Sinodal. 5. Atiencia, Jorge, Fundamentos Bíblico-Teológicos do Casamento e da Família, Viçosa, Editora Ultimato, 1996. 6. Covey, Stephen R., Os 7 Hábitos das Famílias muito Eficazes, São Paulo, Editora Best Seller, 1998. 7. Faria, Almir Linhares, Afetividade e Sexualidade, São Paulo, Editora Cedro, 2003. 8. Lazier, Josué Adam, Família - Relacionamento Fundamental, Revista Kairós nº 1, Belo Horizonte, Igreja Metodista - IV Região Eclesiástica, 1999 (em preparação uma reedição desta publicação). 9. Lazier, Josué Adam, Quando a Família acolhe a Graça, São Paulo, Editora Cedro, 2005.
Categoria: Pastorais
Escrito por Josué Adam Lazier às 08h24
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Caminhos do amor
Evangelizare e Educare - Os caminhos do amor (Colossenses 3:14)
(Sermão pregado por ocasião do culto de celebração pelos 126 anos de vida e missão da Igreja Central de Piracicaba e do Colégio Piracicabano acontecido no dia 16 de setembro de 2007, na Catedral Metodista de Piracicaba).
INTRODUÇÃO
O texto é extraído de um dos catálogos de virtudes que o apóstolo Paulo desenvolveu para, de forma pedagógica, orientar os cristãos da época. Podemos chamar o catálogo de onde extraímos o texto de Catálogo de virtudes da Espiritualidade, considerando que espiritualidade é a capacidade do cristão em conectar suas atitudes com o conhecimento de Deus e as experiências cristãs que adquiriu. No catálogo em destaque, o escritor bíblico destaca o amor.
Ao meditar sobre a mensagem para este culto, me veio à mente a imagem de uma vertente de água que nasce no alto da montanha. É uma gota que se soma a outras gotas e formam um filete de água que vai descendo pela montanha, aumentando seu volume com a chegada de novas gotas. Este filete se transforma num pequeníssimo córrego que vence obstáculos ao longo da descida. Supera pedras e rochas que se encontram no caminho. Faz voltas e mais voltas na ânsia de encontrar o vale e lá regar as plantas. Nesta descida surgem situações que tentam obstacular o caminho deste córrego, que pela força e pelo tempo se transforma num riacho que enfrenta quedas e forma belíssimas paisagens ao longo da viagem ao vale.
O rio Piracicaba nasce na cidade de Americana, no encontro das águas do rio Atibaia com o Jaguari. As nascentes do rio Jaguari localizam-se no Estado de Minas Gerais, em Camanducaia. A formação do rio Atibaia ocorre na junção dos rios Atibainha e Cachoeira. O Atibainha nasce nas proximidades de Nazaré Paulista e o Cachoeira, na região de Piracicaba.
Este filete de água deságua no vale do rio Piracicaba, homenageado pelo poeta como rio das lágrimas e rega, em especial, duas plantas. A planta evangelizare e a planta educare. A primeira nasceu no dia 11 de setembro de 1881 e foi batizada de Igreja Metodista Central e a segunda nasceu no dia 13 do mesmo mês e ano e foi batizada de Colégio Piracicabano. São plantas gêmeas e que não se separam. Há quem tente separá-las, mas elas são muito fortes e superam estas tentativas, pois têm como raiz a ecclesia. Há forças que atentam contra a Igreja, mas ela resiste aos ataques, seja dos inimigos de fora ou de dentro. É por isso que a evangelizare e a educare são resistentes e vencem os opositores: elas têm esta estirpe de audácia e de perseverança.
Embora sejam irmãs elas adquiriram identidade e personalidade próprias e ambas procuram cumprir com suas existências no mundo com dignidade. A missão de cada uma tem cor diferente, mas no fundo têm o mesmo sabor e a mesma raiz.
Evangelizar e Educar
No batizado da planta evangelizare foi dito que a sua missão era a evangelização e no caso da planta educare que a missão seria a educação. Aparentemente, coisas diferentes, mas quando olhadas no âmago de cada uma, elas se encontram sempre juntas.
Evangelizar tem como objetivo a vida. Educar também. Evangelizar é apresentar o Evangelho para que as pessoas e a sociedade recebam uma vida nova e a vivam na perspectiva dos valores do Evangelho. Educar é transmitir valores que valorizam a vida e a vivência em sociedade. Evangelizar e educar tem a vida como seu objetivo maior. Quando se evangeliza se educa e quando se educa se evangeliza, pois ambas focam a vida, pois são ações confessionais.
O fundador da ecclesia batizada de Metodista tinha a evangelização e a educação como principais ênfases da missão e estabeleceu que as duas seguiriam sempre juntas, para não ocorresse uma distorção, tanto da evangelizare como da educare. Para cumprir com a missão de evangelizar e de educar as irmãs se utilizam de um instrumento que transforma a vida das pessoas: o amor. Sem amor não há evangelização e sem ele a educação não se concretiza.
O amor
O tema do amor está presente na vida de todos. Ele é tema de um dos mais belos textos da Bíblia, o capítulo 13 de I Coríntios. É considerado o maior dom e como sendo fruto do Espírito Santo de Deus. Segundo o apóstolo, permanecem a fé, o amor e a esperança, sendo que o maior é o amor (I Co 13.13).
O amor está presente na vida e no ministério de Jesus. Ele veio ao encontro do ser humano porque Deus amou o mundo de tal maneira que enviou seu filho para salvar a todos (Jo 3.16). Quando questionado pelos líderes religiosos, Jesus declara que o amor é o primeiro mandamento de Deus e resume todo o ensinamento da lei e dos profetas (Mt 22.34-40).
João Wesley ensina que o caminho do amor, além de ser libertador, é também o caminho que leva à perfeição cristã. Wesley afirmava que “um metodista é alguém que tem o amor de Deus em seu coração, pelo Espírito Santo que lhe foi dado...” (J. Wesley). Para o fundador do metodismo as obras de misericórdia e os atos de piedade se concretizam no amor.
O amor está presente também no processo da educação como um caminho libertador. O educador Paulo Freire declara que (FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. São Paulo, SP: Paz e Terra, 2007, p. 29) “não há educação sem amor. O amor implica luta contra o egoísmo. Quem não é capaz de amar os seres inacabados não pode educar. Não há educação imposta como não há amor imposto. Quem não ama não compreende o próximo, não o respeita. Não há educação do medo. Nada se pode temer da educação quando se ama”.
As Diretrizes para a Educação na Igreja Metodista também enfatizam o tema do amor e o fazem em termos de atos que quebram as cadeias da opressão, do pecado e de toda sorte de injustiças, superando o egoísmo e promovendo a vida em comunidade que se manifesta no serviço ao próximo (DIRETRIZES, 1996). Assim, o amor é também uma prática educativa que promove o bem estar e a integração de todas as pessoas. Ele compromete o educador e o educando com a vida.
O Plano de Vida e Missão expressa que a missão na perspectiva dos metodistas (PLANO, 1996: p. 12) “caracteriza-se por sua paixão evangelística, procurando proclamar as boas-novas de salvação a todas as pessoas, de tal sorte que o amor e a misericórdia de Deus, revelados em Jesus Cristo, sejam proclamados e aceitos por todos os homens e mulheres”.
Desta forma, a evangelização é definida em termos de “encarnar o amor divino nas formas mais diversas da realidade humana para que Jesus Cristo seja confessado como Senhor, Salvador, Libertador e Reconciliador. A evangelização sinaliza e comunica o amor de Deus na vida humana e na sociedade através da adoração, proclamação, testemunho e serviço” (PLANO, 1996: p. 37). Isto é anúncio e ensino.
Portanto, evangelizare e educare são caminhos do amor libertador, pois ele sustenta a evangelização e a educação. A sociedade precisa experimentar a cura do amor, nos relacionamentos, na família, nas convivências, nos debates e embates que a vida impõe para todos.
O caminho do amor libertador
1. O amor aproxima as pessoas e a ajuda-as a superarem suas diferenças, porque o amor nos faz ser iguais uns aos outros;
2. O amor vence obstáculos porque ele impulsiona os verdadeiros e sublimes motivos para a continuidade da vida;
3. O amor promove as atitudes que denunciam amor e fraternidade;
4. O amor evangeliza, educa, porque ele é o maior sinal da presença de Deus, independente da fé ou da religião, pois Deus não depende da fé e da religião para se fazer presente;
5. O amor enaltece a singeleza de coração, a ética e o respeito e promove a paz.
Este é o caminho do amor pelo qual percorrem a evangelizare e a educare.
Bispo Josué Adam Lazier
Categoria: Sermões
Escrito por Josué Adam Lazier às 17h39
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O/a pastor/a e a Escola Dominical
Pastoral 1 - Escola Dominical
O PAPEL DO/A PASTOR/A NA ESCOLA DOMINICAL
As tarefas do membro clérigo
Os Cânones de 2007 da Igreja Metodista definem, no artigo 22, que o membro clérigo tem o seguinte mandado: “Membro clérigo é pessoa que a Igreja Metodista reconhece chamada por Deus, dentre os seus membros, homens ou mulheres, para a tarefa de edificar, equipar e aperfeiçoar a comunidade de fé, capacitando-a para o cumprimento da Missão”.
O documento define as seguintes tarefas docentes como natureza do ministério ordenado:
1. Edificar – do latim aedificare e significa construir, levantar, instituir, fundar, dar fundamento, infundir sentimentos religiosos em, mover à piedade e à virtude pelos bons exemplos, doutrinar moralmente.
2. Equipar – do francês équiper e tem o sentido de guarnecer ou prover do que é necessário para uma atividade ou função poder se desenrolar, apetrechar para a sustentação da vida.
3. Aperfeiçoar – tem o sentido de tornar perfeito, acabar, completar, emendar os defeitos e corrigir. Quando o apóstolo Paulo fala do aperfeiçoamento dos santos ele se utiliza de uma palavra que é usado nos evangelhos quando os pescadores estão consertando a rede para a pesca. A palavra grega katártizo, no sentido primitivo, significa “consertar os ossos quebrados”.
4. Capacitar – tem o significado de tornar capaz, habilitar, convencer, persuadir, fazer acreditar. Estas ações pastorais devem levar em conta o mandato dado pela Igreja através da ordenação ou consagração ao exercício do presbiterado ou pastorado. Neste sentido, a didaquê, o estudo bíblico e a aula na Escola Dominical são atividades que acompanham o mandato e o carisma apostólico do ministério pastoral. O desafio para o pastorado hoje é a docência exercida no ambiente da Escola Dominical e o desenvolvimento da educação cristã nas ações pastorais.
Segundo ZABATIERO (2003: p. 234), o pastor e a pastora devem ser capacitadores/as multidisciplinares: “Em Efésios 4.11-16 aprendemos que a principal função dos líderes pastorais do povo de Deus é a capacitação desse povo para a realização dos ministérios (v.12). Nas pastorais, Paulo alista características que devem compor a identidade dos ministros e ministras do Evangelho – todas no âmbito da ética e dos relacionamentos, com exceção de uma, relativa à função ministerial, que é a do ensino da Palavra de Deus em todas as suas dimensões (I Tm 3.1-7; Tito 1.6-9). Na clássica exortação petrina, o foco da atuação pastoral é o cuidado, o próprio apascentar, a partir do exemplo de vida do pastor, modelo para os fiéis, e um servo de Jesus Cristo que, através do pastorado, busca ser ele mesmo fiel e submisso ao Pastor Supremo (I Pd 5.1-4)”.
Papel do ministério pastoral na Escola Dominical 
São vários os aspectos que perfazem o papel do pastor e da pastora na Escola Dominical. Ressaltamos alguns:
a) Que a educação reeba por parte de pastores e pastoras a devida atenção e valorização, no sentido de se promover a capacitação e formação dos membros da igreja para que atuem nos diversos dons e ministérios, bem como junto aos grupos societários e departamentos de crianças e da Escola Dominical.
b) Que o ministério pastoral oriente e capacite professores e professoras. Esta é uma função de suma importância para a Escola Dominical. Não se deve improvisar para suprir as necessidades das classes. Aquele ou aquela que vai dar aulas deve estar preparado/a e motivado/a para tal ministério. Devem-se também fazer avaliações periódicas para saber do desempenho dos professores e da participação e aproveitamento dos alunos e alunas. A participação do pastor e pastora neste aspecto é de fundamental importância.
c) Que o pastor e a pastora assumam classes na Escola Dominical, a fim de que esta atividade não seja um apêndice do ministério pastoral. A aula aproxima o pastor e a pastora dos alunos e alunas e abre oportunidades para a tarefa educativa pastoral.
d) Que o material didático e o currículo sejam promovidos e utilizados pelo pastor e pastora. Quando o membro clérigo faz “campanha” contra o material didático está promovendo um desserviço e contribuindo para a utilização de outros materiais que promovem uma compreensão do Evangelho, das Doutrinas e da Missão da Igreja, diferentemente da professada pela Igreja Metodista. As famílias em geral, na educação dos seus filhos, seguem princípios da família e não os dos vizinhos.
e) Que a Escola Dominical seja o lugar por excelência onde a tarefa educativa da igreja aconteça, seja para orientar novos membros, educar as crianças, jovens e adolescentes, bem como para treinar e capacitar para os diversos ministérios que a igreja necessita para cumprir com sua missão e com seus objetivos traçados no Plano de Ação. Para que isto aconteça, é necessário que o espaço da Escola Dominical seja priorizado, a começar pelo pastor e pastora da igreja.
f) Que o pastor e pastora sejam facilitadores no processo de aprendizagem e de desenvolvimento da consciência cristã e crítica dos membros da Igreja e que, para isto, desenvolvam métodos e dinâmicas de integração entre as pessoas e transformação da vida na perspectiva de uma vivência do discipulado enquanto estilo de vida.
g) Que o pastor e pastora desenvolvam o modelo apostólico de atividade docente. O principal modelo apostólico é o de Paulo. Encontramos o testemunho apostólico em I Tessalonicenses 2.11-12, através das palavras exortar, consolar e admoestar que apresentam um sentido de estar junto às pessoas para a orientação, para fortalecimento e para declaração das coisas de Deus. O mesmo testemunho está em Colossenses 1.28 através dos termos anunciar, advertir e ensinar, que indicam instrução, recomendação e educação.
Desafios pastorais para a prática pedagógica
Os desafios que se apresentam para a prática pedagógica do pastor e da pastora, estão delimitados no Plano para a Vida e Missão da Igreja (PLANO, 1996: P. 29):
“1. Proporcionar a formação cristã para a pessoa em sociedade levando-se em conta as diversas fases de seu desenvolvimento; 2. Preparar o cristão a viver no Espírito de Deus nas suas relações, anunciar o Evangelho e cumprir seu ministério no mundo; 3. Ajudar a comunidade a saber o que é, e o que significa sua situação humana, a partir do indivíduo que integra o processo social; 4. Levar os cristãos a se integrarem na prática missionária à luz do Evangelho e da realidade social”.
Desta forma, a natureza do ministério ministerial apresenta uma abrangência em termos de educação que exige do pastor e da pastora uma postura em favor da educação. Urge, portanto, que pastores e pastoras, bem como a liderança da Igreja, resgatem o lugar da educação cristã na vida de nossas igrejas locais.
O Plano para a Vida e Missão, bem como as Diretrizes para a Educação na Igreja Metodista indicam o caminho a ser seguido na busca por uma educação que forme cristãos conscientes e comprometidos. Este caminho é a educação numa perspectiva libertadora e conscientizadora.
Paulo Freire, ao propor uma educação libertadora, inclui o amor, a humildade, a fé, a esperança e o pensamento crítico como elementos que promovem o diálogo entre educadores e educandos. Para FREIRE (2005: p. 96) “o amor é ao mesmo tempo fundamento do diálogo e o próprio diálogo” ou “sendo fundamento do diálogo, o amor é, também, diálogo” (FREIRE, 2006: p. 92).
Em outras palavras, não pode haver educação sem amor e, da mesma forma podemos afirmar que não há diálogo sem amor. Além do amor há que se considerar a humildade, pois ela vence a arrogância e aproxima as pessoas. No ato de construção da história, onde a luta e o aprendizado se fazem presentes em todos os momentos, a humildade se transforma numa força que opera em favor da união das pessoas em prol da vida.
Ao falar da fé FREIRE (2006: p. 93) assinala que “não há também diálogo, se não há uma intensa fé nos homens. Fé no seu poder de fazer e refazer. De criar e recriar. Fé na sua vocação de ser mais, que não é privilégio de alguns eleitos, mas direito dos homens”. Considerando estas palavras, podemos apreender que a educação é feita através da fé que o educador tem no educando em termos de força para superação, transformação e construção da história e da cultura. Esta fé no educando abre as portas para o diálogo ou, por sua vez, o educador dialógico tem a capacidade de acreditar que os outros podem participar da construção de uma convivência em sociedade e contribuir para a transformação da realidade e, desta forma, abrem a porta para que o diálogo esteja sempre presente.
Como o ser humano está em desenvolvimento, ou, seguindo a linguagem de Freire, é um ser inconcluso, o encontro, o relacionamento e a convivência possibilitam que a esperança se instale na vida, pois a luta que busca construir uma vida justa e fraterna deve ser acompanhada da esperança.
A educação feita a partir do amor, da humildade, da fé na pessoa e da esperança é uma educação humana e humanizadora das relações entre educadores e educandos e, em contrapartida, geradora de uma relação fraterna e de uma convivência de paz na vida em sociedade.
Este é um bom caminho para que o pastor e a pastora sigam a fim de cumprirem com o carisma da ordenação que indica a tarefa de edificar, equipar, aperfeiçoar e capacitar.
Conclusão
São várias as questões colocadas hoje acerca da Escola Dominical, tanto a favor da relevância da mesma na Igreja hoje como contra. Mas o fato é que não há espaço como o da Escola Dominical para que os objetivos da educação cristã sejam plenamente alcançados. Há outros momentos educativos na vida da Igreja, mas nenhum deles supera a excelência que o ensino dominical apresenta. Assim, no exercício do pastorado numa perspectiva de mandato da Igreja, o cuidado com a Escola Dominical está presente.
Bispo Josué Adam Lazier
Referências Bibliográficas
1. ZABATIERO, Júlio. O Pastor Urbano. Londrina, PR: Editora, 2003.
2. PLANO para a Vida e Missão da Igreja. São Paulo, SP: Editora Cedro, 1996.
3. FREIRE, Paulo. Conscientização – teoria e prática da libertação. São Paulo, SP: Centauro Editora, 2005.
4. FREIRE, Paulo. A Pedagogia do Oprimido. São Paulo, SP: Paz e Terra, 2006.
Categoria: Pastorais
Escrito por Josué Adam Lazier às 17h05
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Missão
AS CRIANÇAS SÃO DO REINO DE DEUS

As crianças não eram valorizadas nas diversas sociedades no período do Antigo e do Novo Testamento. Elas não representavam força de trabalho e ainda por cima atrapalhavam o programa dos adultos. Era comum o adulto enxotar as crianças.
Jesus tem uma atitude diferenciada para com as crianças. Ele as toma no colo e cita-as como exemplos para os grandes. Jesus chega a afirmar que quem deseja participar do Reino de Deus deve ser como uma criança (Mt 18.1-5 e 21.15-16).
Quando nós cuidamos das crianças estamos exercendo uma das mais sublimes ações missionárias, pois cuidar delas é lutar para que tenham dignidade e possam viver a vida de forma plena. Nem sempre se valoriza o trabalho com as crianças, pois elas não entram nas estatísticas que muitos gostam de mostrar e de utilizar para se promover. Mas o cuidado com elas é maior tarefa missionária que a Igreja pode exercer.
Cuidar das crianças também é uma tarefa educativa das mais sagradas. Ensinar a criança no caminho em que ela deve andar deve ser prioridade na ação educativa da Igreja. Neste sentido, os maiores investimentos feitos numa comunidade de fé deveriam ser direcionados para as crianças. Nós lamentamos que isto não aconteça, mas quem sabe um dia aprendamos a desenvolver esta virtude.
Ao cuidarmos das crianças aprendemos com elas. Como comunidade aprendente, a igreja também aprende com elas. Aprende, por exemplo, a simplicidade, a humildade, o perfeito louvor, a espontaneidade, a não discriminar os outros e assim por diante. São muitas as histórias de crianças que a Bíblia conta. Destacamos a história do menino Davi.
Desde menino ele aprendeu o ofício com seu pai e pastoreava o rebanho da família. Pelo costume da época, desde os cinco anos de idade Davi aprendeu a manejar o rebanho de ovelhas. Durante muitas e muitas horas do dia ficava contemplando as ovelhas pastando. Enquanto isto tocava a sua harpa e, na sua cabeça de criança, imaginava que Deus era com um pastor de ovelhas que cuidava do seu povo assim como ele fazia com as ovelhas do pai. Coisa de criança!
Algumas imagens estavam sempre presente com o menino Davi e, quando já grande, compôs um dos mais belos cânticos que o livro de Salmos registrou. Todos sabem que é o salmo 23. Entre as imagens que o menino Davi ensinou aos adultos são:
1. O pastor cuidando das ovelhas e providenciando pasto verde e água fresca;
2. O pastor dando segurança quando o caminho era pelos vales altos e à beira de grandes abismos;
3. As ovelhas andavam confiantes e seguras seguindo o seu pastor.
Esta mensagem que chegou até os ouvidos do povo em geral foi de tal impacto que cântico do salmo 23 era cantado por todo o povo e em diversos momentos. A criança ensinou o povo a alimentar a sua fé em Deus enquanto cantava que ele era o bom pastor.
Não podemos deixar de lembrar que a grande lição que Davi aprendeu e ensinou é a do Pastor que procura a ovelha perdida e machucada e a restaura. Davi foi como uma ovelha perdida e machucada durante muito tempo. Além disto, enquanto um líder do povo na época machucou muitas pessoas com o seu poder de Rei. Ele foi repreendido pelos erros cometidos.
Somos chamados a educar e ensinar nossas crianças. Elas são o presente e o futuro da Igreja e da sociedade. Esta é nossa missão. Investir nas crianças é investir no Reino de Deus. Desta forma, a Igreja precisa olhar para as crianças que são exploradas, violentadas, marginalizadas, empobrecidas e impedidas de brincarem. A Igreja precisa ter esta sensibilidade e não se esquecer que, se o mundo é dos grandes, o Reino de Deus é dos pequenos.
Bispo Josué Adam Lazier
Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 20h36
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Ética
A ÉTICA DO CORVO

A ética é tema de extrema importância no mundo em que vivemos e também de extrema complexidade. Não que ela seja complexa, mas sim a pessoa em sua totalidade. O tema da ética, ou a falta dela, está presente nos jornais e noticiários todos os dias. Há muita literatura abordando o tema, a importância e as definições que se formam em torno dela. Falar da ética da vida, do meio ambiente, da política, da família etc., está na ordem do dia. Portanto, escrever sobre a ética é deveras desafiador.
Por onde começar? Pela ética cristã que deve ser vivenciada pelas autoridades religiosas? Achei que não seria oportuno, considerando que algumas das maiores autoridades das diferentes religiões acabam envolvidas em episódios que não passam pelos caminhos da ética cristã.
Escrever sobre a ética dos governantes, dos políticos e dos nobres que têm a missão sagrada de governar para o povo? Seria um grande desafio abordar tal temática, considerando as guerras promovidas por governos sem escrúpulos, ou levando-se em conta as corrupções e o amor ao poder que acaba por caracterizar os que assumem postos de governo, seja no campo executivo, legislativo e judiciário.
Poderia então falar acerca da ética dos relacionamentos mais próximos, entre irmãos e familiares, entre amigos, entre companheiros de grupo, entre membros de agremiações ou religiões, mas não seria motivador, pois nestes meios a ética virou estética, sintética e “individualizante”, onde se preconiza que se for para o bem pessoal então a falta de ética não é bem falta de ética. Para algumas pessoas não faz mal dar uma escapadinha para o campo da imoralidade, da maldade e da impiedade, da mentira, da dissimulação, especialmente se for para levar vantagem.
Preferi então abordar a ética de um modo mais simples e até insignificante, considerando que o exemplo que pretendo usar vai nesta linha, ou seja, a ética do corvo. Isto mesmo, a ética do corvo que, mesmo sendo um animal considerado impuro, é ético. Os dicionários definem corvo como “animais dentirrostros carnívoros, com bico e plumagem pretos”. Dentirrostros quer dizer bico denteado. Os corvos foram usados pelo Cristo para ilustrar uma de suas lições sobre a solicitude da vida, dizendo que, mesmo sendo esta ave considerada impura, Deus cuidava dela (Lc 12.24). O salmista louva este cuidado de Deus para com este tipo de ave de rapina (Sl 147.9). Teria ética o corvo? O corvo tem a sua ética segundo o mundo dos corvos. Ele não ataca um animal, seja racional ou irracional, que ainda tenha qualquer sopro de vida. Ele espera que a vida se vá para então comer os restos mortais. O corvo não se aproveita da fragilidade daquele que está agonizante.
Num primeiro momento parece coisa horrível o corvo aguardar suas presas morrerem para então devorá-las sem que tenham direito a um sepultamento digno. Para o corvo, segundo o seu instinto, quando a morte chega é o fim e o seu destino é dar um fim aos restos mortais. Ao fazer isto está contribuindo para que bactérias não se espalhem e o meio ambiente seja limpo.
Talvez esta visão do corvo devorando corpos acabe por ferir a sensibilidade das pessoas, mas perguntaria se as violências que são cometidas diariamente, as injustiças que são praticadas cotidianamente, os compromissos que não são cumpridos, os votos não praticados e as inverdades que são anunciadas como verdades também não deveriam causar indignação? Se pensar na ética do corvo avilta os mais nobres sentimentos, quanto mais pensar nas crianças violentadas, mulheres agredidas por seus parceiros, mentiras que são transformadas em verdades, práticas discriminatórias e atitudes contra o bem estar social? Estas ações antiéticas deveriam indignar os que se incomodam com a atitude “impura” do dentirrostro.
Ao falar do assunto expresso minha indignação com atitudes de arrogância, de orgulho, de avareza, de maldade e outras mais, que ganham o aplauso de muita gente. Estou indignado com os “éticos” que são na verdade “estéticos” (bonito por fora e estragado por dentro). Prefiro pensar na ética simples do corvo, que não ataca o seu oponente enquanto este tem vida, enquanto está fragilizado, mas que pode ainda superar a morte iminente, para vislumbrar a ética do Reino de Deus que é apresentada como virtude de caráter. Esta sim me motiva e me faz procurar o caminho da cruz de Cristo, para nela depositar minha carnalidade e ganhar uma nova vida, sobretudo numa perspectiva do respeito. Se Deus cuida dos corvos, como afirma o evangelista Lucas, Deus cuidará dos que preconizam em suas relações a ética que é a do Reino de Deus, ética de virtude, de caráter e de compromisso com a vida.
Esta ética é simples, justa, fraterna e misericordiosa para com os enfraquecidos e fragilizados pelos acontecimentos que cercam a nossa vivência. Ela indica o caminho do doar-se a si mesmo, da tolerância e da justiça; ela aponta o caminho do amor, do perdão e da reconciliação. Sobretudo, ela sinaliza o caminho da simplicidade e do respeito à dignidade humana. Esta ética é virtude, é pureza, é benevolência, é atitude de muita humanidade e expressão da divindade presente entre nós. Se a ética do corvo nos levar a pensar em nossa própria ética, ou na ausência dela, então valeu o desconforto...
Bispo Josué Adam Lazier
Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 19h19
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Eclesiologia
IGREJA QUE VAI PERMANECER
Uma das preocupações que tenho enquanto pastor e bispo da Igreja, passa pelo cuidado pastoral. Tenho lido em diversos periódicos líderes de diversas denominações abordarem este assunto, que tem tudo a ver com a eclesiologia metodista.
O cuidado pastoral desafia a igreja numa sociedade contextualizada, relativizada, discriminadora, excludente e individualizada. Com o tema do pastoreio queremos destacar ações ministeriais, portanto de todos os membros da igreja, e que passam pelo contato, acolhimento e integração. Aprecio a conceituação de pastoreio dado pelo prof. James Farris. Ele afirma que pastorear “...é o processo de proteção para com o ministério de pessoas e comunidades em nome de Deus. É uma expressão do cristão para com o outro e para aqueles para quem Cristo viveu e morreu”.
Neste sentido, as questões relacionadas à emotividade, espiritualidade, família, trabalho, ministérios, aspectos psicológicos, mentais, físicos, emocionais, etc, devem ser considerados, pois a pessoa é um todo e não apenas ouvinte, contribuinte e consumista dos produtos oferecidos ou seguidoras de um líder personalista que oferece imediatismos, receituário para curas, para ganhar dinheiro, para arrumar casamentos, para ser feliz, tampouco mantras como uso de determinados produtos ou não consumo de outros, utilização de cores, etc.
A Igreja que vai permanecer cumprindo com os propósitos bíblicos, teológicos, missionários, pastorais e doutrinários, é aquela que desenvolver o cuidado pastoral para com os seus membros. Neste sentido, a igreja é sacerdotal, terapêutica, acolhedora, comunidade de amor e de amparo. Mas, ao contrário disto, a igreja que seguir o caminho da massificação, do crescimento como fim em si mesmo, da promoção da auto-ajuda no lugar da reflexão bíblica, teológica e pastoral, do culto destituído de atos de arrependimento, confissão e dedicação a Deus e transformado em showcultos, ou da falta de ética, do individualismo, da discriminação e da exclusão, estará minimizando a sua presença na sociedade e, conseqüentemente, deixando de ser o sal da terra e a luz do mundo.
Nossa herança bíblica e wesleyana nos fazem resistir a qualquer movimento que aspire formar uma nova eclesiologia dentro de nossa estrutura de dons e ministérios e utilizando o potencial humano e missionário que a Igreja granjeou ao longo dos anos.
Bispo Josué Adam Lazier
Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 19h50
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Não há lugar para o espinheiro
NÃO HÁ LUGAR PARA O ESPINHEIRO
A fábula de Jotão (Juízes 9.7-15) denuncia as ações de um dos filhos de Gideão que se utilizou de expedientes reprováveis para assumir a liderança do povo e, para isto, contou com a omissão das lideranças das famílias naquela época. O filho mais novo do juiz morto, que havia conseguido livrar-se das loucuras do irmão mais velho, Abimeleque, começou a contar a fábula das árvores para advertir o povo sobre as propostas de governo de seu irmão. Jotão comparou-as aos frutos do espinheiro, que não produz nada além dos espinhos, ao contrário das outras árvores da fábula, a oliveira, a figueira e a videira que produzem bons frutos.
Nesta reflexão quero apropriar-me da mensagem da fábula e compará-la ao mercado educacional que cresce em nosso país e transforma a educação em produto de vendagens e de aplicação em bolsas de valores. Para mim, a proposta educacional em termos de mercado é a proposta do espinheiro. Considero que a educação preconizada pela Igreja Metodista e definida no documento Plano para a Vida e Missão e nas Diretrizes para a Educação na Igreja Metodista, é a boa árvore, cujos frutos podem ser simbolizados nos da oliveira, da figueira e da videira. È claro que não é somente a Igreja Metodista que preconiza uma educação nestes níveis de resistência ao mercado; há outras instituições confessionais que também o fazem.
Da mesma forma que cresce o mercado educacional, ou a proposta do espinheiro, crescem também as preocupações de que estas tentação e tendência cheguem aos arraiais confessionais, incluindo aí o metodista. Cresce também a desconfiança de que a Igreja, enquanto uma instituição humana que trabalha com o sagrado, não consiga resistir aos apelos do mercado e sucumba ante as propostas do “espinheiro”. Considero que isto não seja possível, desde que se leve em conta que a Igreja há muitos anos abandonou o cumprimento da sua missão em forma de finalidades para assumir uma concepção mais abrangente a partir do Reino de Deus, que é o eixo central da sua missão e a razão de ser Corpo Vivo de Cristo. Ou estaria me enganado quanto a isto?
Quando falo em missão estou me referindo à educação também, pois ela está inserida na concepção de missão que a Igreja Metodista preconiza. O Plano para a Vida e Missão, vigente desde 1982, assim se expressa: "A Educação como parte da Missão é o processo que visa oferecer à pessoa e comunidade, uma compreensão da vida e da sociedade, comprometida com uma prática libertadora, recriando a vida e a sociedade, segundo o modelo de Jesus Cristo, e questionando os sistemas de dominação e morte, à luz do Reino de Deus” (PLANO para a Vida e Missão, item C).
Com relação à educação, a Igreja Metodista abandonou uma tendência liberal e individualizante desde a aprovação do documento com as Diretrizes para a Educação em 1982 e, ao fazer isto, expurgou os seguintes elementos dessa tendência: “preocupação individualista com a ascensão social; acentuação do espírito de competição; aceitação do utilitarismo como norma de vida e colocação do lucro como base das relações econômicas” (DIRETRIZES para a Educação na Igreja Metodista, item III). Desta forma, as bases bíblico-teológicas que fundamentam o documento sobre educação indicam uma prática educativa vinculada aos valores do Reino de Deus e não aos do mercado e contrapõem movimentos que anseiam por uma educação na perspectiva do neoliberalismo.
Logicamente, a Igreja enquanto uma instituição formada por pessoas sofre todo e qualquer tipo de pressões e tensões. Como em qualquer instituição, também na Igreja há movimentos de transformações e disputas internas pelo poder e pelo status que a religião confere aos seus líderes. Mas há aqueles e aquelas que resistem e ajudam a Igreja a superar estes momentos. Desta forma, considero que a proposta do “espinheiro” não encontra guarida em nosso meio, institucionalmente falando. Para que isto viesse a ocorrer seriam muitas as rupturas. Indico algumas:
- O Reino de Deus teria que deixar de ser o eixo central da missão da Igreja e das ações educativas, pois uma missão vivenciada na perspectiva da justiça deste Reino não combina com valores mercantilizados da nossa sociedade. Ao assumir valores mercantilistas a Igreja se transformaria num grupo de pessoas acentuadamente individualistas e não se identificaria mais como povo de Deus;
- Algumas páginas do Evangelho de Cristo teriam que ser jogadas fora, pois ele adverte sobre o “deus” do presente século que é o poder monetário, o mercado que desgraça a vida das pessoas, além de orientar para uma convivência em sociedade onde a ética, o respeito e a vida são prioridades;
- Parte da herança que nutriu os metodistas em quase trezentos anos de história e de serviços prestados ao mundo - seja através da evangelização, da educação, do trabalho social e ou presença sacerdotal e profética na sociedade - teriam que ser apagadas da nossa memória;
- Documentos construídos de forma coletiva, participativa, reflexiva, confessional e profética, que foram amadurecendo e dando o respaldo teológico à missão, teriam que ser desrespeitados. Como exemplo, cito o documento Diretrizes para a Educação na Igreja Metodista que afirma o seguinte: “Não se pode mais aceitar uma educação elitista, que discrimina e reproduz a situação atual do povo brasileiro, impedindo transformações substanciais em nossa sociedade. Também não podemos nos conformar com a tendência que favorece a imposição da cultura dos poderosos, impedindo a maior participação das pessoas e aumentando cada vez mais seu nível de dependência” (DIRETRIZES para a Educação na Igreja Metodista, item IV);
- A experiência pessoal de milhares de pessoas com a gratuidade do amor de Deus e, portanto, transformadora da vida e das relações, teriam que ser definitivamente anuladas.
Para que tudo isto acontecesse, diversos Concílios Gerais da Igreja Metodista teriam que ser realizados. Mesmo que em alguns houvesse retrocessos, em outros haveria avanços mais significativos. Tem sido assim a história dos concílios metodistas.
Diante disto, está claro para mim que a opção da Igreja, para todas as suas áreas de missão, é pela proposta da oliveira, da figueira e da videira, ou seja, pelos frutos da cidadania, da solidariedade, da tolerância, da vivência de paz, da convivência de amor, da fraternidade, da dialogicidade, do companheirismo e da sinalização do Reino de Deus, combatendo assim os projetos do espinheiro que estão presentes em nossa sociedade e que seduzem a Igreja, seja na área educacional ou em qualquer outra da vida ou da missão. Não há lugar para o espinheiro entre nós. Que ele seja anátema, bem como toda tentativa de negação da identidade e confessionalidade que caracteriza o povo chamado metodista.
Bispo Josué Adam Lazier
(Publicado no Mosaico Apoio Pastoral. Ano 15, nº 39. Faculdade de Teologia da Igreja Metodista. Junho/setembro de 2007)
Categoria: Tu, porém
Escrito por Josué Adam Lazier às 18h46
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Credo do amor
Reflexão 3 – Vida cristã
O CREDO DO AMOR
O amor
Ao escrever para a Igreja de Éfeso, o autor do Apocalipse, identificado como sendo o evangelista João, expõe uma queixa: a igreja havia abandonado o primeiro amor (Ap 2.4), numa referência aos sentimentos e afetos das primeiras experiências da conversão e do conhecimento de Deus.
O tema do amor está presente nos escritos neo-testamentários e onde é apresentado como sendo o fruto do Espírito Santo e o maior dom espiritual. Ao descrever o dom do amor, o apóstolo Paulo conclui dizendo que agora permanecem a fé, a esperança e o amor e que o maior deles é o amor (I Co 13.13). Para ele o amor, a fé e a esperança, são os maiores sinais da presença de Deus na vida do cristão.
O Evangelho de João registra que Deus amou o mundo de tal maneira que enviou seu filho para salvar todos os que nele crerem (Jo 3.16). Quando questionado pelos líderes religiosos, Jesus declara que o amor é o primeiro mandamento de Deus e resume todo o ensinamento da lei e dos profetas (Mt 22.34-40).
O amor também é cantado em nossas igrejas, seja através de hinos ou de cânticos que expressam que o amor é o adorno da vida cristã (HE 394). Mas o amor não pode ser apenas tema dos cânticos ou mesmo um enfeite, pois ele é como um credo:
O Credo do primeiro amor
Creio no amor porque ele é o fruto do Espírito Santo que habita a vida do cristão e indica quando ele está vivendo a plenitude de Deus;
Creio no amor porque ele é o dom maior, maior do que todas as riquezas, do que todo o conhecimento e do que todos os sacrifícios;
Creio no amor porque ele me faz seguir pelo caminho da santidade bíblica, que na tradição wesleyana é o caminho do amor para com Deus e para com o próximo: “um metodista é alguém que tem o amor de Deus em seu coração, pelo Espírito Santo que lhe foi dado...” (J. Wesley);
Creio no amor porque ele me faz longânimo, benigno, bondoso, fiel e alegre;
Creio no amor porque ele me faz vivenciar a paz, o domínio próprio, a tolerância e a fraternidade;
Creio no amor porque ele me faz andar em direção a cruz de Cristo onde encontro o perdão para meus erros e a força para viver a nova vida em Cristo;
Creio no amor porque ele se confunde com respeito, com dignidade, com humildade e com solidariedade;
Creio no amor porque ele possibilita que o diálogo esteja sempre presente nas horas de paz e nas horas de contrariedade;
Creio no amor porque ele supera barreiras, quebra preconceitos, vence resistências, perdoa pecados, reconcilia os adversários e promove uma vivência de paz;
Creio no amor porque ele desarma os opressores, pacifica os violentos e cura os machucados;
Creio no amor porque ele é simples, singelo e ético;
Creio no amor porque ele humaniza a humanidade;
Creio no amor porque ele é o caminho sobremodo excelente, é o caminho da perfeição cristã, é caminho para a eternidade e horizonte para os que caminham pelas trilhas do Reino de Deus.
Creio no amor porque ele me faz voltar ao princípio de tudo: o primeiro amor e orar:
“Quero voltar ao início de tudo
Encontrar-me contigo Senhor
Quero rever meus conceitos, valores.
Eu quero reconstruir
Vou regressar ao caminho
Vou ver as primeiras obras, Senhor.
Eu me arrependo Senhor,
Me arrependo Senhor, Me arrependo Senhor.
Eu quero voltar ao primeiro amor
Ao primeiro amor
Eu quero voltar a Deus
Quero voltar ao início...” Aurélio Rocha).
Bispo Josué Adam Lazier
Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 18h06
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O país do falta um dedo
Reflexão 2 – Ética na política
O PAÍS DO “FALTA UM DEDO”
A propósito da sessão do Senado Federal para cassação de Senador
Eu Pensava que vivia num país do “falta um dedo” e que isto simbolizasse que mesmo no meio das carências as pessoas submetidas aos maus tratos ou ao trabalho forçado e sem cuidado, poderiam buscar e alcançar a dignidade na vida.
Eu Pensava que neste país do “falta um dedo” faltavam outras coisas também, como a água, a luz, o pão, o chão pra plantar, a casa, o trabalho, a saúde, a educação, o mínimo para se viver com dignidade, etc.
Eu Pensava que neste país faltava uma política de inclusão das pessoas portadoras de deficiências, dos velhos, dos menos favorecidos e dos que sempre foram impedidos de se incluírem com dignidade na vida social.
Eu Pensava que no período do governo do “falta um dedo” estas carências e estas faltas seriam combatidas e supridas, mesmo que com muito trabalho e com muito enfrentamento político, porque para mudar o país do “falta um monte de coisas” para um mais justo, fraterno e humano, as forças do mal teriam que ser combatidas com justiça, com a força do voto do povo, com a lei e com o direito.
Eu Pensava que mudanças ocorreriam na cultura política e na estrutura de poder deste país do “falta um dedo”, pois a dor do povo, a dor da fome, a dor do não ter onde morar, trabalhar e estudar, estava simbolizado no dedo que faltava.
Eu Pensava, esperava, votava e aguardava.
Agora estou descobrindo que o país do “falta um dedo” é também um país do “falta ética na política”, falta “vergonha na cara” de alguns políticos, falta dignidade em alguns que assumiram pelo voto sagrado do povo o dever sagrado de cuidar do povo e não o fazem, pois preferem cuidar de si mesmos, ao invés de desempenharem suas funções de forma legal, de legalidade e legal, de legal mesmo e por fazer “coisas legais” para o povo.
Agora descobri que o erro, o crime, a violência contra a mulher, a exploração da criança, o roubo, a bandalheira, a corrupção e outras praticas, só são considerados erros passíveis de punição se houver quem consiga convencer os “juízes” da veracidade dos fatos que são fatos no mundo real.
Descobri que aqueles que foram eleitos para cuidarem do povo, estão cuidando dos que foram eleitos pelo povo e constrangendo os representantes “legais” do povo para que não punam os que cometem crimes e, mesmo que no vocabulário desta elite política as palavras tenham outras conotações, crimes são sempre crimes.
Descobri que a falta que angustia o povo é a falta de vergonha e de respeito para com a população, que está presente entre os que foram eleitos pelo voto popular.
Descobri que nem Igreja ecumênica, nem não ecumênica, nem carismática, nem progressista, nem tradicional, nem pentecostal, se faz presente nesta hora para denunciar profeticamente e indicar o caminho do direito e da justiça, pois o que acontece no Senado Federal deste país do “falta ética” é coisa para o juízo divino, é coisa para a justiça de Deus, uma vez que nos nossos “juízes” não têm competência para julgar e condenar.
Acho que estou vivendo no país do “falta respeito para com Deus”, pois se houvesse muitas coisas mudariam, pois não dá para ir ao culto ou à missa em respeito a Deus e não ser impulsionado pelo Espírito de Deus para a prática da justiça e do direito que Ele mesmo criou para orientar a vida e os relacionamentos. As leis nós criamos, mas o direito e a justiça são de Deus e elas nunca faltam, em algum momento da vida julgarão a todos, sobretudo os que roubam e impedem a vida digna e a esperança do povo pobre e sofrido. O dedo que ninguém vê é o dedo indignado de Deus apontado para os poderosos.
Bispo Josué Adam Lazier
Pastoral Universitária da UNIMEP
Categoria: Tu, porém
Escrito por Josué Adam Lazier às 18h05
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Multiplicando os pães
Reflexão 1 - solidariedade
MULTIPLICANDO NOSSOS PÃES
Os quatro Evangelhos narram o episódio da multiplicação dos pães (Mt 14.13-21, Mc 6.3044, Lc 9.10-17 e João 6.1-13). Os relatos seguem a mesma estrutura, mas apresentam algumas diferenças nas informações prestadas. O número de pães e peixes é o mesmo no relato dos quatro evangelistas, ou seja, cinco pães e dois peixes. A multidão é impelida a sentar-se sobre a relva, sendo que Marcos informa que foram organizados grupos de cinqüenta e de cem pessoas. Para Lucas foram organizados grupos de cinqüenta pessoas. Mateus e João não informam nada sobre os grupos de cinqüenta e de cem pessoas. Há uma lembrança dos evangelistas sobre o conselho que Getro deu a Moisés no período do Antigo Testamento e que ajudou-o na condução do povo pelo deserto.
Para os três primeiros evangelistas, os discípulos apresentaram a Jesus os cinco pães e dois peixes e não indicam quem possuía estes alimentos. Para João um menino foi encontrado com os pães e peixes.
Mateus e Marcos relatam uma segunda multiplicação de pães. Para os estudiosos da bíblia, estes relatos, juntamente com os demais, formam um conjunto de ação que sinaliza a messianidade de Jesus. Mesmo levando em conta os debates sobre o episódio da multiplicação dos pães, podemos extrair alguns pensamentos:
1. Houve uma preocupação por parte dos discípulos com a multidão que seguia a Jesus e estava sem comer a muitas horas. Eles intercedem para que Jesus mande a multidão de volta para casa a fim de se alimentarem. No relato de João a iniciativa é de Jesus. O primeiro pensamento que destacamos é o da percepção das necessidades das pessoas que estavam seguindo a Jesus.
2. Jesus faz um convite aos discípulos para que alimentem o povo, pois eles mesmos poderiam se organizar e atender a esta necessidade. Eles ficaram atônitos porque não sabiam o que fazer para atender a tanta gente. Alguns dos discípulos pensaram em procurar uma padaria para comprar os pães, mas não tomaram nenhuma iniciativa. O segundo pensamento é que às vezes a pessoa, na sua humanidade, espera que Deus faça aquilo que ela pode fazer, enquanto basta tomar uma atitude que vá de encontro às necessidades presentes.
3. Os discípulos apresentam a Jesus cinco pães e dois peixes, embora soubessem que era muito pouco para o grupo que estava presente naquela hora. Eram cerca de cinco mil homens, mais mulheres e crianças que estavam juntos. O terceiro pensamento é que os discípulos oferecem o que têm e ao fazerem isto criam as condições para que o povo fosse alimentado. Não fora o desprendimento dos discípulos ao ofertarem o que tinham o milagre não aconteceria. Assim, podemos assinalar que Deus utiliza nossos recursos, nossos talentos e nossas potencialidades para realizar milagres na vida de todos, pois é “mais bem aventurado dar do que receber” (Atos 20.35). No Evangelho de Lucas Jesus diz: “dai e vos será dado” (Lc 6.38). Registro um pensamento de Leonardo Boff: “quanto mais damos, mais recebemos; quanto mais entregamos, mais temos. Quanto mais damos amor, mostramos solidariedade, distribuímos benquerença e praticamos perdão, mais ganhamos como pessoa humana e mais recebemos estima. Os bens espirituais são como o amor: ao se dividirem, multiplicam-se. São como o fogo: ao se espalharem aumentam”.
4. João registra que o doador dos pães e dos peixes era um menino, uma das crianças que estavam com seus pais ouvindo as palavras de vida que Jesus proferia e acompanhando a preocupação que se formou em torno da alimentação da multidão. Vendo o alvoroço, o menino oferece o seu lanche. Este é um elemento novo nos relatos da multiplicação dos pães e dos peixes. Isto nos faz pensar nas coisas pequenas da vida, para as quais às vezes não damos a devida atenção e valor. A mensagem bíblica é cheia de indicativos acerca das coisas pequenas.
Podemos refletir sobre nossa atuação num ambiente de necessidades e de desafios que nos são apresentados pela vida. Como reagimos ao convite para ajudarmos na superação das dificuldades da vida? O que oferecemos para sanar as dores e carências dos outros? O que colocamos a disposição dos outros para que utilizem a fim de enfrentar crises e conflitos? Vamos lembrar que cinco pães e dois peixes alimentaram uma multidão. Estes desafios e oportunidades estão sempre diante de nós. E se em algum momento não soubermos responder a eles, vamos chamar as crianças, pois elas saberão nos ajudar na superação dos nossos problemas, com a sua simplicidade, humildade, meiguice e espontaneidade.
Bispo Josué Adam Lazier
BOFF, Leonardo. A Oração de São Francisco – uma mensagem de paz para o mundo atual. Rio de Janeiro, RJ: Editora Sextante, 1999, p. 122.
Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 18h04
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