Carisma e integridade
INTEGRIDADE X CARISMA
PRINCÍPIO OU IMPERATIVO?
Tu, porém 6 – carisma do ministério pastoral

Tenho refletido sobre o tema do carisma no ministério pastoral e há muitos colegas que têm me acompanhado nestas reflexões. Volto ao tema para falar da integridade. Seria ela um princípio de vida ou um imperativo que acompanha o carisma? Vejamos o texto de Mateus 6.19-24:
Integridade vem do latim integritate e significa qualidade de íntegro; inteireza; retidão; pureza. Já o termo íntegro significa inteiro; completo; perfeito; reto; imparcial; brioso.
O primeiro aspecto na integridade do ministério pastoral é a questão dos tesouros (Mt 6.19-24). O foco está na relação da pessoa com as coisas que possui, ou as atitudes que toma e os pensamentos que tem. Jesus não condena o dinheiro em si, mas o apego a ele. A expressão tesouro evidencia coisas muito importantes para alguém. Está incluído o status, a posição social, a busca pelo poder. Portanto, ajuntar tesouros no céu é fazer coisas na terra cujos efeitos durem por toda a eternidade[1]. Trata-se do exercício de uma liderança no estilo de Jesus, que fez do Reino de Deus prioridade.
Outro aspecto da integridade está nos versículos 21 e 24: “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” e “ninguém pode servir a dois senhores”. O verbo servir é muito forte na tradição bíblica, pois o povo de Deus foi chamado para servi-lo. Esta obediência está em relação direta com o “coração”, pois o que “fazemos é o resultado do que pensamos; portanto, o que irá determinar nossas vidas e o exercício das nossas vontades é o que pensamos, e isso por sua vez é determinado por onde está nosso coração – tesouro”.[2]
Um ministério pastoral íntegro não está dividido entre dois senhores, tampouco age de maneira hipócrita, tentando mostrar o que de fato não é. O apóstolo Paulo usa a expressão irrepreensível para transmitir a Timóteo esta qualidade (I Tm 3.2). Ser irrepreensível significa ter uma boa reputação. Esta foi uma das razões que motivou Paulo a levar consigo Timóteo, pois em Listra e Icônio as pessoas davam bom testemunho acerca dele (Atos 16.2). O importante no caso de Timóteo é que as pessoas falavam sobre ele; era mais de uma pessoa que falava e em dois lugares, Listra e Icônio. Quando a Igreja Primitiva enfrentou um problema na organização e atendimento das pessoas, os apóstolos recomendaram que fossem escolhidos sete homens de “boa reputação”, ou seja, homens íntegros (Atos 6.3).
Paulo demonstra integridade no exercício do seu ministério e no relacionamento com os cristãos (I Ts 2.3-8). Integridade não deve ser vista aqui como perfeição ou ausência de erro, mas, sim, a capacidade de atingir os objetivos sem corrupção ou enganos.
Vejamos como esta integridade se apresenta no texto: a) verso 3 - a pregação não foi baseada no engano, impureza e dolo - engano no sentido de “desviar do caminho”, “iludir”, “seduzir (para o erro)” ou “levar ao erro”; impureza no sentido de “más intenções” e dolo no sentido de “falsificação” ou “adulteração”. Pelo contrário, a pregação era o anúncio dos oráculos de Deus para seu povo. A pregação é o momento no qual o pastor e a pastora alimentam o rebanho e orientam sobre a vida, sobre a fé, sobre o discipulado, sobre a esperança, sobre o serviço cristão, sobre a família, etc. Para isto, devem dedicar tempo para a oração, leitura, reflexão e preparação do sermão; b) verso 4 - não para agradar a homens e sim a Deus. É necessário que fique bem compreendido o que Paulo está afirmando, pois ele fala num contexto onde muitos procuravam ganhar vantagens dos homens agradando-os de diversas maneiras. A motivação para agradar era falsa, pois não tinha o interesse pelo bem-estar dos outros. Paulo está dizendo que a preocupação dele e dos seus companheiros de ministério não era o tornarem-se populares e assim receberem favores. Pelo contrário, eles haviam sido maltratados em Filipos e por todos os lugares onde passavam, pois a preocupação era com a pregação do evangelho de Jesus Cristo; d) versos 7-8 - Paulo revela que estavam prontos a dar a própria vida em favor dos Tessalonicenses e que trataram os cristãos com amor e carinho.
A carta de Judas trata do tema da integridade dos líderes da Igreja de então, como que a dizer que o carisma da liderança, aquele concedido pela comunidade de fé através da imposição das mãos como reconhecimento do chamado, tinha como principal marca a integridade. Carisma sem integridade é como um jardim sem flores, ou uma árvore frutífera sem frutos. Pode ser como a palha que o vento dispersa, pois o carisma por si só não se sustenta, sem a integridade ele é frágil e débil e fica a mercê das vaidades humanas.
Desta forma, poderíamos ousar concluir dizendo que a integridade é princípio e imperativo, ela tem que estar presente na vida da pessoa que recebeu o “carisma” dado por Deus pela instrumentalidade da Igreja.
Bispo Josué Adam Lazier
[1] STOTT, John R.W. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo, ABU, 1985, p. 161.
[2] LLOYDE-JONES, Martyn. Estudos no Sermão do Monte. Editora Fiel, 1984, p. 377.
Categoria: Tu, porém
Escrito por Josué Adam Lazier às 10h06
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DESGASTES NO CARISMA PASTORAL
Tu, porém 5 – carisma pastoral
O tema do carisma é provocante e instigante. Considerá-lo significa colocar para reflexão o fato de que o mesmo tem sofrido desgastes e enfraquecimento. Identifico os seguintes:

1. Individualismo e personalismo. Quando as qualidades pessoais se sobrepõem ao carisma ministerial e o ministério pastoral é exercido centralizado na pessoa, nas suas intenções e nas suas habilidades, há o desgaste da figura pastoral;
2. Autonomia e desintegração com as orientações da Igreja. Quando o pastorado é exercido de forma autônoma e desintegrado das orientações da Igreja, acontece a fragmentação da vocação pastoral;
3. Status. O ministério pastoral atribui status à pessoa e a coloca em evidência na Igreja e na sociedade. O exercício do pastorado exclusivamente com esta intenção é o mesmo que raptar o sentido apostólico do ministério pastoral;
4. Relação econômica. A figura pastoral tem estado vinculada, nos últimos anos, às questões econômicas e financeiras. Fazer do trabalho pastoral um negócio em troca de favores financeiros é reduzir o carisma pastoral a uma mera mercadoria;
5. A negociação entre pastor e igreja, que inclusive esteve presente durante alguns anos na Igreja Metodista, é transformar as ações pastorais em interesses pessoais e de grupos e diminuir a autoridade dos atos pastorais;
6. Profissionalismo. Muito embora vivamos numa sociedade secularizada, o exercício do pastorado destituído do seu sentido bíblico e teológico, é transformar o ministério pastoral numa relação meramente comercial, ou seja, trabalho x salário;
7. A pressão que existe sobre o pastor e pastora para que copiem e introduzam na igreja local modelos praticados por outros grupos é outro fator gerador de desgastes. Um dos modelos é o “pastor-show”, ou “animador de auditório”. Esse modelo não segue o exemplo cristológico – profeta, servo, sacerdote e deturpa a imagem do pastor que cuida das ovelhas;
8. O movimento instalado nos meios evangélicos que busca sucesso nos molde do capitalismo e do modernismo. Para este movimento o que vale é a eficiência na pregação, nos cultos, etc. Se os objetivos são bons ou não é relegado ao segundo plano. Pregadores se tornam “executivos religiosos” buscando sucesso em tudo o que fazem manchando assim, a imagem do pastor que é servo de Deus;
9. Quando se perde o sentido da vocação, do ser chamado por Deus, do ser servo de Deus, se perde a perspectiva apostólica do ministério pastoral;
10. Quando interesses pessoais se sobrepõem aos interesses do carisma, do mandato dado pela Igreja, há o enfraquecimento na autoridade e na qualidade do ministério exercido;
11. Questões éticas, morais, econômicas e movimentos doutrinários tendem a estabelecer a falsidade e a dissimulação, coisas nocivas ao carisma.
Estes aspectos se somam a outros. Fica o desafio para que trilhemos o caminho pelo qual seguiram os apóstolos: imitação de Cristo. Este tempo de quaresma é oportuno para reflexão, arrependimento e frutos de arrependimento. Fica como sugestão uma das leituras preferidas de João Wesley: A Imitação de Cristo, de Tomás de Kêmpis. Ele afirma: “se tiveres o coração reto e puro, tudo contribuirá para o teu bem e para o teu aperfeiçoamento”.[1]
Bispo Josué Adam Lazier
[1] Kêmpis, Tomás de. Imitação de Cristo. Lisboa. Editoria Verbo, pg. 49.
Escrito por Josué Adam Lazier às 18h51
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Carisma, caráter e caridade
UMA TRÍADE NA ESPIRITUALIDADE MINISTERIAL: CARISMA, CARÁTER E CARIDADE
Tu porém 4 - carisma pastoral
Introdução
Gosto de pensar na espiritualidade enquanto uma relação das experiências adquiridas, do conhecimento e do saber com a vida prática. Em outras palavras, pensar na conexão do interior com o exterior. A espiritualidade nos desafia a sermos uma pessoa que evidencia esta conexão em todos os momentos da vida.
No que se refere aos ministérios desenvolvidos, a espiritualidade conecta o sentido de vocação com os atos ministeriais praticados. Destaco, portanto, uma tríade nesta espiritualidade ministerial: carisma, caráter e caridade. Sem carisma não há qualidade e autoridade no ministério que se exerce, sem caráter não há autoridade nas ações pastorais e ministeriais e sem caridade não dá para chegar ao coração das pessoas com as quais trabalhamos.
Carisma
Já tive a oportunidade de desenvolver este tema em outros textos, incluindo o livro publicado pela EDITEO (O Carisma do Ministério Pastoral), onde apresento os contornos do carisma pastoral. Ao falar de carisma estou me referindo ao ato de reconhecimento e de mandato dado pela Igreja. O carisma, seja do ministério pastoral ou dos ministérios laicos, é reconhecido pela comunidade cristã e desenvolvido em sintonia com a eclesiologia. Não cabe, seja qual for a denominação, um ministério autônomo e sem qualquer relação com as doutrinas, em especial a que define o modo de ser igreja.
Carisma significa o dom através do qual o Espírito Santo age na vida do cristão e da Igreja na medida em que o cristão se oferece a Deus em resposta ao Seu amor. O carisma se evidencia de forma comunitária e não individualizada, pois ele se expressa por meio da dedicação da pessoa ao serviço de Deus e por meio da Sua Graça.
Em outras palavras, o carisma que atribui autoridade ao ministério, não é o pessoal, não são os dons pessoais ou os talentos da pessoa, e sim o mandato, a ordenação ou a consagração realizada pela comunidade de fé.
Caráter
O ministério “carismático”, ou seja, aquele que tem o carisma dado pela Igreja é acompanhado por comportamentos e atitudes que evidenciam uma boa índole, um bom caráter, um conjunto de boas qualidades. Nas cartas pastorais (I e II Timóteo e Tito) o autor apostólico destaca várias qualidades que se referem ao comportamento ético e relacional dos líderes da comunidade de fé. Fala, portanto, de caráter e de integridade na vida pessoal, familiar e social.
Falar do carisma é o mesmo que falar da integridade da pessoa. O que confere valor e autoridade ao carisma recebido por ordenação e consagração é a integridade que a pessoa evidencia, em termos de comportamento ético, responsabilidade, transparência, honestidade, respeito e confiabilidade. Sem esta integridade a pessoa que exerce um determinado ministério, mesmo que possua o carisma, não possuirá autoridade e legitimidade para suas ações ministeriais. Da mesma forma que na figura da espiritualidade há conexão do interior com o exterior, deve existir conexão entre o carisma dado pela Igreja e o caráter da pessoa que recebe o mandato (carisma). O carisma sem caráter não tem substância e qualidade.
Caridade
Poderia falar do amor, mas preferi a expressão caridade. Parece que o amor tem sido tema dos escritores bíblicos que ficou distante de nós, tema de músicas que são cantadas nas igrejas locais dominicalmente ou tema de poesia e romance. O amor como descrito pelas sagradas escrituras e que se refere ao ato de entregar-se pelos outros, perdoar, pedir perdão, restauração, etc, parece ser algo que ficou no passado. O amor se transformou meramente numa virtude teologal quando deveria ser um fruto sempre presente na vida do cristão. Desta forma, a música que fala da volta ao primeiro amor, lembrando a carta dirigida à Igreja de Éfeso (Ap 2.4), tem razão: a Igreja precisa voltar ao primeiro amor e começar de novo suas boas obras na ótica do ágape.
Optei por falar da caridade, pois se não é possível amar como Cristo amou, que haja pelo menos caridade para com os mais fracos, caridade para com os diferentes, caridade para com o que pensam de forma diferenciada e que ela seja para integrar e incluir os que ficam marginalizados. Recordo-me das palavras do apóstolo Paulo dirigidas aos tessalonicenses, quando diz: “admoesteis os insubmissos, consoleis os desanimados, ampareis os fracos e sejas longânimos para com todos” (I Ts 5.14). Estas palavras inspiram, de certa forma, atitudes de caridade.
Caridade pode ser complacência, benevolência ou compaixão e caridoso seria aquele que procura identificar-se com o amor de Deus. Se conseguirmos isto em nossas práticas ministeriais já estaremos num bom caminho.
Tentando concluir
Não dá para concluir. Esta reflexão apresenta inquietações, preocupações, desafios, provocações, questionamentos, convite para o diálogo e para o aprofundamento do tema do carisma. Vamos seguir conversando...
Bispo Josué Adam Lazier
Categoria: Tu, porém
Escrito por Josué Adam Lazier às 20h03
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pastorado - diversidade e mutualidade
DIVERSIDADE E MUTUALIDADE NO MINISTÉRIO PASTORAL
I Coríntios 12.4-6
Tu, porém 3 – ministério pastoral
I. Diversidade no ministério pastoral.
Ela é expressão da amplitude da ação de Deus na vida da Igreja, que concede talentos, dons e ministérios para o cumprimento da missão. Daí decorre a diversidade e a pluralidade nas ações ministeriais, como afirma o apóstolo Paulo em I Coríntios 12.4-6.
Esta diversidade implica também na pluralidade do ministério pastoral. É importante ressaltar estes aspectos porque eles contribuem para a amplitude da missão da Igreja. Desta forma, não é aconselhável definir o ministério pastoral a partir de determinados talentos e dons, tampouco a partir de experiências ou perspectivas pessoais. A diversidade do ministério pastoral se dá pela amplitude da missão da Igreja.
II. Mutualidade no ministério pastoral.
Mutualidade indica a “relação e integração que um ministério tem com o outro”. Cada pessoa que exerce o ministério pastoral o faz a partir de seus talentos e dons, mas eles não sintetizam o ministério pastoral como um todo. Na verdade, o ministério pastoral que uma pessoa exerce é completado pelo ministério que outras pessoas também exercem.
A Igreja funciona bem quando os diversos ministérios que ela tem trabalham de maneira integrada e para o benefício de todos os membros, em especial o ministério pastoral.
A mutualidade é evidenciada em vários aspectos. Destaco três para nossa reflexão:
1) Vocação (clesiologia). É importante considerar que todos os membros da igreja são vocacionados para servir a Deus através do desenvolvimento dos talentos naturais e profissão (Ef 4.1). A vocação é para a salvação, para a santificação, para o testemunho, para a vivência do discipulado cristão, para o serviço cristão e para exercício de dons e ministérios. A palavra vocação tem origem no verbo grego Kaléo, que tem o sentido de “chamar”, “reclamar para si”, e “comissionamento”, portanto vocação significa “chamada”, “convocação”, ou, de forma mais literal, “sair de si mesmo para servir aquele que chamou”. As cartas paulinas empregam a palavra kaléo 29 vezes, klésis 8 vezes e klétos 7 vezes, quase sempre com o sentido de vocação divina.
Outra palavra que tem relação com a vocação e origem na palavra grega kaléo é ekklesia, que quer dizer igreja, assembléia, povo chamado por Deus e vocacionado para realizar seus planos. Assim, a teologia da igreja é denominada de eclesiologia, que está em relação com a clesiologia. A vocação acontece sempre no contexto da Igreja, pois o vocacionado deve estar integrado ao Corpo de Cristo.
2) Carisma (eclesiologia). O carisma pastoral é um mandato da Igreja. É a Igreja que capacita, avalia, ordena, consagra e dá o mandato. Alan Richardson afirma: “Ninguém pode dizer que recebeu autorização direta do próprio Cristo sem a instrumentalidade própria de seu corpo, a Igreja ...”. “O ministério pastoral tem sua autenticidade reconhecida quando o carisma da Igreja de Cristo determina os carismas individuais”. A vocação, o chamado, o despertamento para o ministério pastoral pode ser individual, ou pessoal, mas o mandato, a ordenação, a autorização para exercício dos atos pastorais e dos sacramentos é dada exclusivamente pela Igreja.
Portanto, no ministério pastoral não há lugar para o individualismo ou o personalismo, pois se trata de um carisma da Igreja e não da pessoa. Ninguém pode exercer este carisma de forma autônoma ou desintegrada da Igreja que reconheceu o carisma dado por Deus e ofereceu condições para o exercício do mesmo. O ministério pastoral exercido por uma pessoa tem implicação direta com os outros ministérios pastorais, justamente porque ele é expressão da eclesiologia. O carisma determina que não há ministério autônomo.
3) Dimensão. O ministério pastoral, por ser diversificado, mas mútuo, apresenta algumas dimensões que promovem a unidade:
Dimensão cristológica. O ministério pastoral deve seguir as pegadas do ministério de Cristo. Ele, sim, exerceu um ministério pleno e perfeito e, portanto, modela o pastorado.
Dimensão pastoral. O amor deve ser uma das marcas do pastorado. O ministério pastoral é marcado pela doação e pela dedicação aos outros. O amor promove a gratuidade e a alegria do serviço.
Dimensão profética. A Igreja Metodista professa uma dimensão profética do ministério pastoral. É importante destacar o aspecto profético no sentido de proclamação e prática, seja no serviço cristão, na resistência aos valores do mundo e na renúncia aos movimentos modistas.
Dimensão sacerdotal. O pastor e a pastora, como servos de Deus em constante comunhão com o Senhor da Igreja, têm empatia com aqueles que sofrem e agem com solidariedade e apoio para com os enfermos, angustiados, frustrados, marginalizados, desesperançados, atribulados, com o propósito de orientá-los e nutri-los espiritualmente.
Dimensão do serviço. Os membros do ministério pastoral são servos de Deus, vocacionados, consagrados e comissionados para o trabalho pastoral e, portanto, chamados a renunciar (Mt 10.3-15), sem o que haverá muitas dificuldades para um cumprimento cabal do ministério pastoral. Vocação não significa a concordância de Deus com os projetos pessoais, mas renúncia a projetos e expectativas pessoais e familiares para servir a Deus.
No exercício do pastorado, a pessoa evidencia estas dimensões. Alguns têm uma determinada dimensão mais acentuada, mas todos os que exercem o ministério pastoral expressam em algum momento estas dimensões. Elas também estabelecem a diversidade e a mutualidade.
É importante ressaltar que, considerando a vocação, o carisma e as dimensões do pastorado, um pastor não mais pastor que outro, ou que tenha mais “espírito santo” que outro. Devemos lembrar que somos vocacionados para o serviço e que a Igreja é o instrumento nas mãos de Deus para reconhecer nossa vocação e nos dar o carisma. Se há diversidade há também a mutualidade.
Bispo Josué Adam Lazier
(reflexão apresentada na reunião de pastores do Distrito de Piracicaba, no dia 13 de fevereiro de 2008. Para aprofundar este estudo indico o meu livro publicado pela EDITEO, O Carisma do Ministério Pastoral)
Categoria: Tu, porém
Escrito por Josué Adam Lazier às 23h32
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Fruto de perseverança
QUERER E EFETUAR
Filipenses 2.12-18
Sermões 8 – perseverança cristã
INTRODUÇÃO
Sob o prisma do Hino no início do cap. 2, Paulo faz algumas exortações aos filipenses, mas antes faz um reconhecimento: a obediência dos filipenses na presença e na ausência do apóstolo. Os Filipenses abraçaram o Evangelho e continuaram a perseverar na observação dos valores que o Evangelho de Cristo apresenta, mesmo Paulo estando longe.
Paulo conhecia bem os filipenses, pois havia uma relação muito próxima entre o apóstolo e os membros da Igreja em Filipos. Ele sabia da intenção do coração e propósitos dos irmãos em Filipos, descritos dos versos 15 e 16:
· Ser um cristão irrepreensível
· Ser um filho de Deus sincero
· Ser inculpável no meio de uma geração corrupta
· Conservar a Palavra da Vida
· Ser como luzeiro a brilhar

Paulo percebeu que sua prisão estava produzindo um desestímulo entre os filipenses, embora eles continuassem fiéis ao Evangelho. Alguns membros da igreja estavam com dificuldades em cumprir com os seus propósitos de servir a Deus. Paulo, como pastor, ensina que eles poderiam continuar os propósitos de Deus mesmo em meio às dificuldades e passa a ensinar aos filipenses uma grande lição.
Algumas vezes isto acontece conosco também. Fazemos propósitos de sermos cristãos que cumprem com suas responsabilidades, de ler a bíblia todos os dias, de servir a Deus e à Igreja, além de outros; e percebemos que nem sempre cumprimos com os mesmos. Isto estava acontecendo com a Igreja de Filipos, pois a ausência e prisão do apóstolo estavam criando um desestimulo para a perseverança nos propósitos.
COMO CUMPRIR COM OS PROPÓSITOS
Paulo trata deste assunto, como um pastor que pastoreia o seu rebanho e oferece algumas orientações para a vida, ministério dos filipenses e cumprimento dos propósitos:
“Operar a salvação” - v.12.
O verbo grego katergazomai, traduzido por operar, tem o sentido de levar o trabalho até o final, completar a obra. A salvação é um processo contínuo. Com estas palavras o apóstolo está dizendo que os filipenses estão em fase de crescimento e maturidade na vida cristã. Devem perseverar, mesmo que em alguns momentos aconteçam falhas entre eles.
“... Com temor e tremor” - v.12.
Esta expressão “indica uma ansiedade nervosa e trêmula de fazer o que é correto” ou o cuidado para não ofender o próximo, significando um estado de vigilância para evitar atritos e contendas. O apóstolo está ensinando que o cristão deve cumprir com os alvos da vida cristã com humildade.
“É Deus quem efetua o querer e o realizar” - v. 13.
Sem a presença de Paulo os filipenses poderiam praticar os atos para o bem de toda a comunidade, pois era Deus quem efetuaria isto na vida deles. O verbo grego energeo tem o sentido de dar poder, energizar, tem também o sentido de produzir. Isto seria o resultado da graça de Deus. Em outras palavras, o que está sendo ensinado é que o cristão deve cumprir seus propósitos na dependência da Graça de Deus e fortalecido pela presença de Deus em sua vida. É Deus quem efetua o querer e o realizar. Em Romanos 7.18 o apóstolo diz que o querer o bem está nele, mas não o efetuar. O cristão que tentar viver a vida cristã confiado na sua própria capacidade, força ou formação, descobrirá muito cedo a sua incapacidade para tal.
Paulo dá esta lição, pois ele mesmo havia tido esta experiência quando afirma o seguinte: “porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm 7.19).
“Fazei sem murmurações e nem contendas” - v.14.
Para o cumprimento dos propósitos da Igreja em Filipos estas duas orientações são de fundamental importância. A expressão murmuração tem o sentido de reclamação, queixume, insatisfação e contenda no sentido de disputa, de rebelião. Os conflitos de opinião sempre existirão, mas eles não devem criar contenda e polêmicas. A murmuração e a contenda são o que mais ataca e impede a unidade da igreja. A murmuração era a mesma do povo no Antigo Testamento quando reclamava insatisfeito com Deus. Bispo Paulo Lockmann faz uma diferenciação entre conflitos e contendas: “conflito é o choque de opiniões; contenda é quando passamos a tratar os que pensam diferente de nós como inimigos, e não irmãos, e por isso abrimos uma guerra contra eles”.
Paulo aprendeu que é Deus quem efetuar o querer e o realizar, ou seja, os filipenses cumpririam com seus propósitos na dependência de Deus e da Graça de Deus. Enquanto tentassem cumprir os propósitos confiados em Paulo e na própria força, continuariam a acumular frustrações.
A LIÇÃO PARA HOJE
Muitas vezes nós também fazemos alvos e propósitos e depois percebemos que não conseguimos cumpri-los. Precisamos aprender esta dinâmica da dependência de Deus e da Sua Graça para o cumprimento da vontade de Deus em nossas vidas. Não estamos errados quando estabelecemos objetivos e propósitos, o que precisamos aprender é que devemos submeter nossa vida e nossos propósitos a Deus e depender da Sua orientação para o cumprimento destes propósitos. Neste período da quaresma, quando somos chamados a refletir e meditar em nossas ações e espiritualidade, temos a oportunidade de fazermos ajustes em nossos relacionamentos. Pois a mensagem da cruz que se descortina neste período, nos convida à conversão e transformação.
Desta forma, Paulo desempenha um papel pastoral e educativo, pois orienta e educa os filipenses para que sejam cristãos transformados pela Graça de Deus e agentes de transformação na sociedade da época.
Bispo Josué Adam Lazier
Categoria: Sermões
Escrito por Josué Adam Lazier às 16h55
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Eu creio no amor
CREDO DO AMOR
Creio no amor porque ele é o fruto do Espírito Santo que habita a vida do cristão e indica quando ele está vivendo a plenitude de Deus;
Creio no amor porque ele é o dom maior, maior do que todas as riquezas, do que todo o conhecimento e do que todos os sacrifícios;
Creio no amor porque ele me faz seguir pelo caminho da santidade bíblica, que na tradição wesleyana é o caminho do amor para com Deus e para com o próximo:
Creio no amor porque ele me faz longânimo, benigno, bondoso, fiel e alegre;
Creio no amor porque ele me faz vivenciar a paz, o domínio próprio, a tolerância e a fraternidade;
Creio no amor porque ele me faz andar em direção a cruz de Cristo onde encontro o perdão para meus erros e a força para viver a nova vida em Cristo;
Creio no amor porque ele se confunde com respeito, com dignidade, com humildade e com solidariedade;
Creio no amor porque ele possibilita que o diálogo esteja sempre presente nas horas de paz e nas horas de contrariedade;
Creio no amor porque ele supera barreiras, quebra preconceitos, vence resistências, perdoa pecados, reconcilia os adversários e promove uma vivência de paz;
Creio no amor porque ele desarma os opressores, pacifica os violentos e cura os machucados;
Creio no amor porque ele é simples, singelo e ético;
Creio no amor porque ele humaniza a humanidade;
Creio no amor porque ele me faz voltar ao princípio de tudo: o primeiro amor;
Creio no amor porque ele é o caminho sobremodo excelente, é o caminho da perfeição cristã, é caminho para a eternidade e horizonte para os que caminham pelas trilhas do Reino de Deus;
Creio no amor porque ele é o caminho libertador.
Bispo Josué Adam Lazier
Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 11h35
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O ministério sob a graça de Deus
O MINISTÉRIO SOB A GRAÇA DE DEUS
O tema proposto pelo Colégio Episcopal para o biênio 2008-2009 é Testemunhar a Graça e Fazer Discípulos. Este tema coloca dois grandes desafios para nós: testemunhar a graça de Deus em todas as ações a serem desenvolvidas e cuidar para que o Fazer Discípulos não transforme a missão da Igreja em atos de missionar e voltados para dentro dos muros eclesiais. Nesta reflexão, quero destacar a graça de Deus na vida da liderança[1]:
- O/a líder não tem o sentimento de ser super-homem ou super-mulher, tendo que responder a todas as perguntas, que fazer várias coisas ao mesmo tempo e atender a todos os chamados;
- O/a líder não assume um sentido de onipotência no ministério, ou seja, ter poder para curar e resolver problemas, mandar na igreja, ultrapassar os limites, dar ordens a Deus e manipular o Espírito Santo;
- O/a líder faz da sua família uma comunidade de graça, onde o amor, o companheirismo, o perdão, o respeito, a educação e os valores do Evangelho se fazem presentes;
- O/a líder ama a igreja que tem, ama as ovelhas que pastoreia, atende aos desafios que lhe são colocados, e não fica “paquerando” a igreja dos outros, como se fosse uma árvore com melhores frutos;
- O/a líder reconhece suas limitações, suas fragilidades, suas dificuldades e vive na dinâmica da dependência de Deus, considerando que pode errar, pois não é auto-suficiente;
- O/a líder observa o “tem cuidado de si mesmo” e suas implicações nos outros relacionamentos;
- O/a líder não se envolve no ativismo inconseqüente, sem alvos, objetivos, planos de ação e sonhos;
- O/a líder curte os meios de graça, celebra a Deus e se desmistifica das vestes clericais, assume o fato de que é humano, gente, e de que todo dia é um novo amanhecer;
- O/a líder lê a Bíblia para si, para ouvir a voz de Deus, para alimentar sua fé, despertar sua esperança e interpretar o que Deus quer da sua vida e ministério;
- O/a líder se oferece ao pastoreio, à terapia, à ajuda e ao carinho dos/as outros/as;
- O/a líder sabe que foi chamado/a para cuidar dos outros, especialmente os da família, e não chamado/a para curar, resolver, solucionar, fazer e acontecer. Foi chamado/a para desenvolver o cuidado pastoral;
- O/a líder desenvolve a vida de piedade, confessa seus pecados, reconhece seus erros, quebranta-se na presença de Deus e desenvolve a perspectiva da graça de Deus em sua vida, família e ministério;
- O/a líder desenvolve a consciência acerca do carisma, do caráter e da caridade (amor). Sem carisma não há qualidade no ministério que se exerce, sem caráter não há autoridade nas ações pastorais e ministeriais e sem caridade não dá para chegar ao coração das pessoas que pastoreamos.
Por certo, serão muitas as lutas, dificuldades e tensões no exercício da liderança cristã, mas sob a graça de Deus serão muitas as vitórias, as oportunidades de aprender de Deus e ver Sua ação na dinâmica e na presença do Espírito Santo. O ministério sob a perspectiva da graça de Deus permite que o homem e a mulher reconheçam suas limitações e fragilidades e vivam na dependência de Deus. O/a líder seja clérigo ou leigo, deve assumir o imperativo apostólico: “fortifica-te na graça de Deus”. Sem a graça de Deus o ministério não tem graça nenhuma.
A Graça de Deus, se acolhida e vivenciada, desenvolve na vida da Igreja o sentido de missão e a percepção de que o fazer discípulos é um imperativo para que os cristãos percebam o mundo e a realidade em que vivem e, na dependência da graça de Deus, sinalizem o Reino de Deus através da prática da justiça, do direito, da solidariedade, do testemunho transformador da realidade, da tolerância, da denúncia profética e do anúncio salvífico.
Bispo Josué Adam Lazier
[1] Extraído do meu livro: Reaviva o Dom, publicado pela Editora Cedro, 2005.
Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 18h02
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