O tom que deve reger a Igreja

O TOM QUE DEVE REGER A IGREJA

 

Coloco a questão com uma pergunta: qual é o tom que deve reger a igreja? Com esta pergunta quero refletir sobre o que deve ser predominante na orientação da vida, da missão, da estrutura, dos concílios e toda a vida eclesial.

Nos últimos anos, o que inclui alguns Concílios Gerais, o tom que tem estado presente é o jurídico, ou seja, os advogados, juristas e conhecedores de leis do país e da Igreja têm tido uma participação destacada e cuja palavra tem determinado decisões e encaminhamentos tomados ao longo do tempo. Acontece que este não é o tom que deveria reger a Igreja. Esta fala não é minha apenas, pois já ouvi outras lideranças afirmarem isto. Logicamente que o jurídico é importante, especialmente numa sociedade que busca valorizar os direitos sociais e humanos e, para isto, a Igreja deve estar esclarecida e se manter em consonância com as leis que regem nosso país. Não há como ser diferente disto, mas o tom regente da Igreja deve ser outro.

O tom deve ser o teológico e missionário. Teológico no sentido da compreensão de Deus, da revelação divina e da Palavra de Deus. O conhecimento de Deus, do Evangelho e dos valores que advêm deste conhecimento forma o saber teológico da Igreja e, por conseguinte, orienta sua vida e missão. Missionário no sentido da ação e da presença pública da Igreja na sociedade, evidenciando compromissos com a justiça, sobretudo na perspectiva do Reino de Deus e se fazendo presente na denúncia, no anúncio e na ação restauradora, evangelizadora e transformadora da sociedade. Neste sentido, o teológico-missionário é o tom que deveria orientar o todo da Igreja, seus concílios, suas doutrinas, sua organização e estrutura, etc.

A Constituição da Igreja assim se expressa: “A Igreja metodista tem como principal missão participar da ação de Deus no seu propósito de Salvar o mundo. A Igreja Metodista faz isto realizando cultos, pregando o evangelho, ministrando os sacramentos, ensinando os membros da igreja e capacitando-os para os diversos ministérios” (Art. 3º da Constituição da Igreja Metodista).

Já o Plano para a Vida e Missão da Igreja se expressa assim: “A missão de Deus no mundo é estabelecer o seu Reino. Participar da construção do Reino de Deus em nosso mundo, pelo Espírito Santo, constitui-se na tarefa evangelizante da Igreja” (Plano de Vida e Missão).

Sendo assim, o tom seria o teológico e missionário e não o jurídico, como parece estar acontecendo nos últimos anos. O jurídico orientaria a Igreja para que suas leis e decisões estivessem em acordo com o que prescreve a Constituição Brasileira e suas leis e para que não tivéssemos que passar pela experiência de ver a Justiça Comum julgando a Igreja e, em muitas ocasiões, insinuando ou mesmo afirmando que a Igreja está equivocada. Mas o tom, o diapasão que rege a Igreja deve ser o teológico e missionário, conforme nossos documentos, em outras palavras, a MISSÃO segundo ela é entendida de forma conciliar, descrita nos documentos da Igreja e fundamentada na tradição bíblica com ênfase wesleyana.

Ao definir a sua missão a Igreja o faz a partir de um conceito bíblico-teológico mais amplo e abrangente do que a vida eclesial, ou seja, o Reino de Deus. Neste sentido, vale ressaltar que a Igreja existe para o cumprimento de sua missão, ampla e abrangente, e não apenas para o crescimento numérico como pensam algumas pessoas em nossa Igreja. O crescimento numérico seja na forma de novos membros, de arrecadação ou de freqüência as atividades da igreja, são conseqüências do cumprimento cabal da missão, mas não se pode minimizar a confessionalidade da Igreja em termos de números.

Portanto, o tom que deve reger a Igreja é o teológico e missionário, cujo eixo principal é Reino de Deus. Que assim seja.

 

Bispo Josué Adam Lazier



Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 19h05
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A IN-JUSTIFICAÇÃO

A IN-JUSTIFICAÇÃO

I Coríntios 6.1-11

 

O texto do apóstolo Paulo em epígrafe foi escrito numa perspectiva escatológica, ou seja, na compreensão de que a comunidade da época era a que marcaria o fim do mundo com a volta de Cristo aguardada por e para aquela geração, mas que não se constitui, por causa disto, num escrito menos instigante, provocador, relevante e norteador de reflexão que leve em conta as questões judiciais do presente. Os versículos 2 e 9 mostram o caráter apocalíptico e escatológico da comunidade cristã na compreensão paulina: ela julgará o mundo, ou seja, os injustos (v. 9), os que foram reduzidos a nada de acordo com I Coríntios 1:28, julgará os mensageiros cristãos e, portanto, poderia julgar as questões do dia a dia.

O texto é redigido em função das questões que envolviam membros da comunidade cristã na cidade de Corinto e que iniciaram processos judiciais contra outros membros. Para Paulo isto era como uma negação da fé e da experiência cristã. Ele entendia que os “santos e fiéis” da comunidade iriam julgar os demais: “ou não sabeis que os santos julgarão o mundo?” (6.1) e não ao contrário, os “injustos e infiéis” julgarem os que deveriam ter conhecimento da justiça do Reino de Deus.

Na verdade, há uma tensão quando este assunto é tratado. A tensão reside no fato de que os que tinham maiores condições de buscarem a justiça legal o fizeram contra aqueles que não tinham as mesmas condições. A comunidade cristã em Corinto era um reflexo da sociedade, ou seja, havia a estratificação social e os cristãos coríntios eram oriundos de diversas classes, incluindo a dos escravos e a dos trabalhadores das docas, que constituíam o maior número de membros daquela comunidade. Além das questões que acabaram se transformado em processos legais, havia as dificuldades e as diferenças com relação aos dons espirituais, agravando ainda mais os relacionamentos entre os membros daquela igreja.

O apóstolo trabalhava com a idéia de que entre os membros da comunidade havia quem pudesse ouvir as questões que envolviam a membresia, pois eram assuntos do dia a dia das pessoas, e mediar o diálogo e a busca pelo entendimento e pela reconciliação entre os envolvidos. Mas fazendo uma leitura mais apurada da questão, fica claro que a comunidade e a sua liderança não conseguiram lidar com as diferenças e com as querelas da membresia, preferindo que a Justiça Legal de Corinto julgasse estas situações.

As questões legais naquela época eram julgadas pelos magistrados e, especialmente, pelo governador romano. Em Corinto o Fórum do governador ficava num espaço que era freqüentado pelo público (Agorá), tendo em volta de si os vários deuses representados pelos templos e estátuas. Os julgamentos eram realizados voltados para estas "entidades" religiosas. Esperava-se, por exemplo, que Júpiter (deus romano) iluminasse os debates e julgamentos.[1] Os juízes não eram muito claros e objetivos e no "seio daquela sociedade corrompida os subornos eram moeda corrente".[2]

Portanto, para o apóstolo esta atitude de alguns membros da igreja se constituía numa "contradição com a natureza e com a grandeza escatológica da comunidade"[3] e uma autêntica falta de sentimento cristão e negação do ensino de Jesus  (Mateus 5:39-42). Ele concebia uma comunidade livre e justa, onde não haveria acepção de pessoas e, portanto, apela para a experiência que os coríntios tiveram (6.9,10 e 11). Perante um sistema legal opressor, corrompido e incapaz de cumprir a justiça e fazer valer os direitos das pessoas, como era o de Corinto, a comunidade cristã lá estabelecida deveria ser referencial de vivência e de prática da justiça na perspectiva do Reino de Deus.

Isto nos remete ao tempo presente, quando a Igreja se encontra envolvida em situações judiciais, tendo havido um crescimento deste tipo de demanda nos últimos anos, até mesmo por conta da valorização dos direitos civis. São vários os processos movidos contra a Igreja, suas Instituições, sua Sede Nacional, em função de decisões administrativas, pastorais, episcopais, etc. Na grande maioria dos casos a Igreja está tendo que reconsiderar suas decisões e restabelecer o direito ou a justiça envolvendo pessoas. Há casos que envolvem membros contra membros e casos ainda em que os advogados de ambos os lados fazem parte também da membresia. A Igreja, através de sua liderança e seus seguimentos representativos, não tem conseguido buscar o entendimento, o diálogo, a reconciliação, deixando que a Justiça Comum julgue o que poderia ser resolvido internamente, sem desrespeito ao direito, à justiça e à dignidade das pessoas. Quando isto acontece fica evidente a fragilidade da Igreja na questão do direito e da justiça.

Todas as pessoas podem recorrer à Justiça Comum para fazer valer seus direitos. Não entramos no mérito dos motivos que levaram a tais situações, mas não podemos deixar de perceber que seguidamente a Igreja tem sido considerada equivocada em suas ações ou decisões. Lamentavelmente! Estaria a Justiça errada em suas sentenças contra a Igreja?

Se a igreja quer ser a comunidade que busca promover a vida, sobretudo dos menos favorecidos, dos marginalizados, dos diminuídos, dos que não têm voz, ou seja, missionária e a serviço do povo, ela terá que criar meios a fim de favorecer e praticar o direito e a justiça em todas as instâncias, e denunciar quando direitos não forem respeitados e quando houver abuso de poder. No confronto com a macro-sociedade a Igreja não pode deixar de ser sal da terra e luz do mundo e de sinalizar, a que custo for, o Reino de Deus e a sua Justiça. Se a Igreja não cumprir com a tarefa de promover a autêntica liberdade e, conseqüentemente, a dignidade da vida, mediada pelos valores do Reino de Deus e sua justiça, ela incorre no risco de receber através da Justiça Comum, como instrumento de Deus, um lacre em sua porta com os dizeres: injustificada.

A Igreja tem o dever de buscar na força do Evangelho e do Reino de Deus o poder do amor, do perdão, da reconciliação, da solidariedade, da compaixão e da justiça e julgar quando os que a representam deixarem de cumprir com o que prescreve o Evangelho de Cristo e os documentos conciliares da Igreja, bem como as leis que regem nossa sociedade. Somente assim a sua proclamação será ouvida e até os fundamentos das trevas se abalarão. A Igreja está numa encruzilhada: ficar na quietude, indiferença e sonolência ou assumir ser profética, transformadora, libertadora e, portanto, uma igreja comunidade missionária a serviço do povo.

Tenho dito!

Bispo Josué Adam Lazier



[1] GRIMAL, Pierre. A Vida em Roma na Antigüidade. Publicações Euro-América, 1981: pg 95.

[2] WALTER, Eugen. Primeira Carta a los Corintios. Barcelona, Espanha: Editora Herder, 1970: pg 91.

[3] WENDLAND, Heinz-Dietrich. Le Lettere oi Corinti. Brescia, Paidéia: Editrice Brescia, 1976: pg 95.



Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 21h37
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O JOVEM TIMÓTEO

FILHO E SERVO

I Tm 1.1

 

Timóteo nasceu na cidade de Listra, localizada num planalto de cerca de 900m de altitude, no centro da Ásia Menor. A cidade era muito pobre e os bandidos, na época, costumavam se refugiar lá. Timóteo converteu-se na primeira viagem de Paulo, quando o apóstolo esteve na cidade de Listra anunciando o Evangelho (At 16.1-4).

 

A mãe de Timóteo, Eunice, era uma judia temente a Deus. Sua avó, Lóide, também era uma mulher temente a Deus. Ambas foram exemplos para o jovem convertido e vocacionado que, percebendo a fé autêntica das progenitoras, se tornou igualmente um cristão de fé autêntica (2 Tm 1.5). O pai era um grego, mas não impediu que Timóteo fosse instruído nas Sagradas Escrituras (2 Tm 3.15).

 

Timóteo era um jovem vocacionado para o ministério pastoral (1 Tm 4.14 e 2 Tm 1.6). Recebeu a incumbência de pastorear a Igreja de Éfeso (1 Tm 1.3), mas parece que tinha preferência por Filipos (Fp 2.19-20).  Entre as responsabilidades de Timóteo, podemos destacar as seguintes: combater os falsos pregadores que perturbavam a igreja; orientar sobre a ordem no culto; ordenar os líderes da igreja; criar o ministério de atendimento às viúvas; ensinar a fé, as doutrinas e as obrigações éticas e morais[1]. Ou, seguindo o texto de 1 Timóteo, impedir que alguns ensinassem doutrinas diferentes (1.3), instruir (1.8), ensinar (4.6,11), proclamar (4.11), exortar (5.1), ordenar (5.7), repreender (5.20), admoestar (6.17), etc.

 

Antes de assumir as responsabilidades pastorais, Timóteo foi companheiro de Paulo por muito tempo. Estima-se em 15 anos o tempo empregado por Paulo para discipular Timóteo. Uma das razões da escolha era que, em Listra e Icônio, davam um bom testemunho a seu respeito (At 16.2). Paulo chama-o de verdadeiro filho na fé (1Tm 1.1).

 

Nos textos de Paulo, filhos dele são aquelas pessoas que ele gerou para a fé em Jesus Cristo. Ou seja, sente-se pai e mãe de todos os que, pela ação e testemunho dele, aderiram a Jesus Cristo pela fé. É o que podemos ver, por exemplo, em 1 Tessalonicenses 2.7-,11-12; 2Coríntios 12.14-15. Gálatas 4.19, Filemom 10. Timóteo, apesar de ter sido educado na fé pela avó e pela mãe (veja 2 Timóteo 1.5), é considerado ‘filho’, sinal de que entre o autor e o destinatário da carta há uma relação forte (veja o que se diz de Timóteo em Atos 16.1-5)”.[2]

 

Como companheiro de Paulo, ele o representou em Tessalônica e depois levou notícias ao apóstolo (1 Ts 3.2-6). Fez isto com a igreja de Corinto também (1 Co 4.17). Além disto, teve participação na evangelização e fundação de algumas igrejas. Por isso, é chamado de “amigo nas lutas” (Cl 1.1, Fp 1.1 e Fm 1). Ele assumiu suas responsabilidades e Hebreus 13.23 informa que foi preso e recentemente libertado. Isto nos leva a pensar que Timóteo, por sua liderança na Igreja de Éfeso, acabou preso, como muitos outros líderes, e agora, para alegria dos irmãos, estava liberto.

 

Paulo costumava dirigir-se ao discípulo chamando-o de servo (1 Tm 4.6), usando a expressão “diácono”, normalmente traduzida por “ministro”. Vários termos gregos apresentam o conceito de “servir” no Novo Testamento: douleuo - servir como escravo; therapeuo - cuidado e preocupação presente no ato de servir; latreuo - servir por salário; leitourgeo - serviço oficial e público do povo e do Estado (no caso do cristianismo, significa o serviço da Igreja); hypereteo - designa a relação do escravo para com o senhor e significa, literalmente, “remar”; diakoneo­ - serviço prestado por amor.[3] A palavra mais usada é a diakoneo, seguindo seu uso corrente, que indicava aqueles que serviam à mesa, ou seja, os servidores. Filipenses 1.1 e 1 Timóteo 3.8-12 fazem referências aos diáconos, indicando pessoas que assumiam determinados encargos na comunidade cristã.    

 

Qual era, portanto, o perfil do jovem discípulo Timóteo? Alguns textos definem-no: tímido e receoso (1 Co 16.10); jovem (1 Tm 4.12, 2.22); doente (1 Tm 5.23); emotivo (2 Tm 1.4); cauteloso em demasia (2 Tm 1.7); cooperador (Rm 16.21); filho amado e fiel (1 Co 4.17); cuidadoso com os filipenses (Fp 2.20); caráter provado (Fp 2.22); fé sem fingimento (2 Tm 1.5); conhecedor das Escrituras (2 Tm 3.15). Essas qualidades e características revelam uma pessoa frágil e vulnerável como as outras, mas com o carisma da vocação  e do serviço cristão.

 

 

Bispo Josué Adam Lazier



[1] STOTT, John. Tu, porém: a mensagem de 2 Timóteo. São Paulo, ABU, 1982, p.7.

[2] BORTOLINI, José. Como ler a Primeira Carta a Timóteo. São Paulo, Paulus, 2001, p.20.

[3] BEYER, Hermann Wolfgang. “Servir, serviço, diácono”, em KITTEL, G. A Igreja no Novo Testamento. São Paulo, Aste, p.273.



Categoria: Tu, porém
Escrito por Josué Adam Lazier às 21h30
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"A MINHA GRAÇA TE BASTA"

II Coríntios 12.9

A Ceia do Senhor é o principal meio de Graça. João Wesley perguntava que: “O comer aquele pão e o beber aquele cálice não constituem meios exteriores, visíveis, através dos quais Deus comunica às nossas almas toda graça espiritual, a justiça, a paz e o gozo no Espírito Santo, que foram adquiridos pelo corpo de Cristo, uma vez quebrado, e pelo seu sangue, uma vez derramado por nós? Comam, pois, do pão e bebam do cálice, todos os que verdadeiramente desejam a graça de Deus”.[1]

Invariavelmente, é atribuída à Graça de Deus a justificação dos pecados e a salvação. De fato, a justificação e a salvação são resultados da presença da Graça de Deus na vida da pessoa. Mas a Graça de Deus é mais do que justificação e salvação, ou seja, ela não é apenas o fundamento da fé na salvação em Cristo Jesus. Isto é fundamental para a experiência cristã, mas a Graça de Deus vai além do ato de justificação e de salvação, ela desenvolve na pessoa justificada o caráter cristão.

A graça, que é caridade, contém em si todas as virtudes e maneira oculta e em potência, como as filhas e os galhos da árvore estão escondidos no interior da semente. Ser semente já é ter o gosto de vir a ser árvore. A graça habitual traz consigo todas as virtudes cristãs em germe”.[2]

Assim, o apóstolo Paulo atribuía o seu ministério e os frutos obtidos à Graça de Deus. Ele dá dicas de que ela age na vida da pessoa justificada a fim de transformá-la em instrumento de salvação e transformação de vidas e da sociedade. Em determinado momento de sua vida, enquanto buscava desenvolver as virtudes cristãs, ele afirma ter ouvido de Deus que a “graça lhe bastava” (II Co 12.9. Ela produz o “desejo que já é uma experiência antecipada dela. Torna-nos capazes de gostar da virtude, antes mesmo de a possuirmos plenamente”.[3] Uma destas virtudes que o apóstolo Paulo procurava desenvolver era a humildade.

O apóstolo relata esta experiência quando trata do tema das fraquezas. Ele declara que se tiver que gloriar-se de alguma coisa, ele gloriar-se-á das suas fraquezas (II Co 12.5,9), diferentemente de algumas lideranças da época e até mesmo da tendência natural dos cristãos, de gloriarem-se pelas visões e revelações (II Co 12.1). Ele é enfático, se tiver que gloriar-se ele o fará não pelas experiências extáticas, mas sim pelas fraquezas.

Além destas referências, encontramos outras declarações paulinas sobre a fraqueza: “Deus escolheu as coisas fracas do mundo” (I Co 1.17); “Foi em fraqueza que estive entre vós” (I Co 2.3); “Sinto prazer nas minhas fraquezas” (II Co 12.10); e outros. Paulo aprendeu que a “fraqueza humana proporciona o melhor motivo para a manifestação do poder de Deus”.[4]

O que levou Paulo a fazer estas considerações? A Graça de Deus, que o justificou dos pecados, mas que o transformava a cada momento em um instrumento dedicado a Deus e pronto a responder os desafios de uma vida que sinalizasse o Reino dos Céus em toda a sua plenitude. O apóstolo evidencia ter compreendido a fragilidade da vida humana, mas também o aperfeiçoamento da vivência sob a manifestação da Graça de Deus.

É sempre sobre a fraqueza e humilhação humanas, e não sobre a força e confiança do homem, que Deus escolhe edificar seu Reino; e ele pode usar-nos não meramente a despeito de nossa mediocridade, incapacidade e enfermidades desqualificadoras, mas precisamente em virtude delas. É isto uma descoberta emocionante que pode revolucionar nosso panorama missionário”.[5]

Ao descrever seu ministério na perspectiva da Graça que desenvolve as virtudes cristãs, entre elas a humildade, ele sugere algumas figuras. Por exemplo: a figura do vaso de barro (II Co 4.7). A palavra “vaso” pode ser traduzida por prato, utensílio, instrumento, deixando de forma bem clara o pensamento do apóstolo.

Os instrumentos de barro para os povos do passado representavam a fragilidade diante de utensílios de metais e ferro. Os instrumentos de barro eram usados para todo tipo de trabalho. Por que Paulo usa esta figura? Porque quer mostrar que o “tesouro”, o poder de Deus se manifesta em vasos de barro, e não de ferro ou ouro. A Glória de Deus se manifesta justamente através de instrumentos vis e frágeis e isto é resultado da Graça de Deus. Em outras palavras, o poder de Deus estava naquilo que Ele poderia fazer com um instrumento precário como o vaso de barro.

As tribulações que Paulo enfrentou (descritas em II Co 4.7-11, 11.24-30, 6.4-5 e 12.7-10; Rm 8.35, I Co 4.9-13), são evidências desta fragilidade e do poder de Deus que se aperfeiçoa na fraqueza do instrumento usado (II Co 12.9). Em outras palavras, as tribulações servem para ensinar ao “vaso de barro” a sua fragilidade e para que confie em Deus e em Sua Graça, não em si mesmo, pois prejudicaria a pregação do evangelho.

Depois Paulo passa a descrever algumas circunstâncias do “vaso de barro”: atribulados, abatidos, perplexos, perseguidos, levando em si os sinais da morte de Cristo. Mas por ser de barro e dependente da Graça de Deus: não angustiados, não desamparados, não desanimados, não destruídos, levando em si os sinais da vida de Cristo. Isto é que confunde os que pensam que são fortes. De vasos de barro Deus faz refletir a Sua Glória, o Seu Poder, a Sua Grandeza, etc. Depender da Graça de Deus é possibilitar que as sementes das virtudes cristãs plantadas se desenvolvem e produzam os frutos relativos a cada virtude.

Quando celebramos a Ceia do Senhor estamos realizando o principal meio de Graça, que nos faz lembrar que somos justificados pela graça, mas que também somos transformados em instrumentos da paz, do amor, da esperança, da justiça, da retidão, da santidade, da reconciliação e da comunhão abençoadora. Deus nos fala através da II carta aos Coríntios 12.9: “a minha graça te basta”, ou seja, “a graça atual nos move a atualizar essas potências escondidas e realizar o que significam: Cristo agindo em nós”.[6] Bispo Josué Adam Lazier



[1] WESLEY, João. Sermão XVI: Os Meios de Graça (III, 12) in Sermões. São Paulo, Imprensa Metodista, 1953, v. 1, p. 335.

[2] MERTON, Thomas. Na Liberdade da Solidão. Petrópolis, Editora Vozes, 2002, p. 27.

[3] MERTON, Thomas. Na Liberdade da Solidão. Petrópolis, Editora Vozes, 2002, p. 27.

[4] SANDERS, J. Oswald, Paulo – o Líder, São Paulo, Editora Vida, 1986, pg. 174.

[5] STEWART, James S., Thine is the Kingdom, Edimburgo, St. Andrews Press, pg. 23.

[6] MERTON, Thomas. Na Liberdade da Solidão. Petrópolis, Editora Vozes, 2002, p. 27. 



Categoria: Sermões
Escrito por Josué Adam Lazier às 10h44
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O Vale dos ossos secos

VALE DOS OSSOS SECOS

Ezequiel 37.1-14

 

 

 

1. O povo de Israel vivia no exílio. Estavam longe de casa, do Templo e, pensavam as pessoas na época, longe de Deus.  O povo via no exílio o juízo de Deus e não demonstravam esperança.

 

2. Havia muita desesperança e dor no meio do povo. Ninguém conseguia enxergar que Deus estava presente e pronto a abençoar o Seu povo. Mas no meio do povo há um homem vocacionado por Deus.  Este homem costumava ter visões e nestas visões ele enxergava o que os outros não conseguiam ver. Podemos dizer que a vocação deu a Ezequiel o dom de “ver”.  Ele via muitas coisas.

 

Uma das coisas que viu foi um vale de ossos secos.  Mas viu, além disto, que Deus era capaz de fazer com o vale de ossos secos: viu o mover do  Espírito de Deus sobre os ossos; viu os ossos criando vida;  viu os ossos sendo restaurados;  viu os ossos finalmente vivos; viu que Deus era o Senhor que tinha poder para destruir e para criar e construir. O profeta viu Deus reconstruindo o Seu povo.

 

3. Esta restauração acontece a partir do exercício do ministério deste vocacionado. Junto com o dom de “ver” ele recebe o dom de “anunciar”. Deus age segundo a pregação do profeta Ezequiel. Ele recebe a missão de pregar e por 3 vezes Deus diz isto: PROFETIZAI - v.4, 9, 12.  Deus quer cumprir com sua missão de “dar vida”,  mas compartilha com Seu povo o privilégio de participar de tal missão, ou seja, quer o envolvimento do povo no processo de libertação e de reconstrução.

 

4. Temos outros exemplos de pessoas vocacionadas que têm a capacidade de “ver” o que os outros não vêem.  Trata-se de Simeão e Ana - Lucas 2.25-32 e Lucas 2.36-38. Nesta época o povo vivia como ossos secos, pois não havia esperança. Nesta época havia muita morte e desesperança. Jesus vai dizer que o povo vivia como ovelhas sem pastor.  Ninguém enxergava nem o povo comum, nem os religiosos, nem os sacerdotes, nem as autoridades religiosas e políticas da época. Mas dois vocacionados por Deus enxergaram: viram o que não era visto pelos outros,  viram a salvação chegando a Israel.

 

No caminho para o Templo José e Maria passaram, por certo, por vários sacerdotes, vários religiosos que estavam naqueles dias a serviço no templo.  Olharam mas não viram que o menino nos braços da mãe era o filho prometido para redimir Israel. Simeão e Ana viram e testemunharam o que viram.

 

5. Hoje vivemos como num vale de ossos secos. Parece que o mundo está assim. Parece que a Igreja também assim se apresenta. São muitos os sinais de morte e violência contra a vida. Uma pergunta nos é feita: Poderão reviver estes ossos?  Deus sabe e quer usar seus profetas e profetisas para “verem” e “anunciarem” que Deus vai julgar a fim de restaurar os ossos e dar-lhes vida.  Deus tem o poder e nós a vocação.

 

6. Há muitas coisas acontecendo no mundo. Há muitas coisas ocorrendo com e na Igreja. Há coisas estranhas entrando nos limites da religiosidade e da espiritualidade. Deus continua sendo o mesmo, ou seja, Ele vai restaurar o seu povo e fazer surgir à justiça do Reino de Deus. Deus vai agir através daqueles e daquelas que se submeterem ao seu comando e se comprometerem com os valores do Reino de Deus.

 

7. Hoje, o mundo e a Igreja precisam de profetas, que vejam e que proclamem. Será que o mundo os ouvirá? Será que a Igreja os atenderá? Às vezes penso que os profetas e as profetisas de hoje acabarão fazendo o que o profeta Jeremias teve que fazer: comer seus escritos.

 

8. O vale dos ossos secos de hoje ainda tem salvação, porque Deus continua o mesmo ontem, hoje e amanhã. Os profetas são outros, mas os oráculos de Deus são os mesmos e, quando abunda o pecado na Igreja, Deus age para fazer abundar a graça, senão a Igreja fecharia as suas portas.

 

9. Quem vai ouvir o que os profetas e as profetisas de Deus estão vendo e proclamando?

 

Bispo Josué Adam Lazier

 

 

 

 



Categoria: Sermões
Escrito por Josué Adam Lazier às 22h56
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ONDE ESTÃO AS ATADURAS DE LÁZARO?

João 11.44

 

O morto saiu, com os pés e as mãos enfaixadas e o rosto recoberto com um sudário. Desatai-o e deixai-o ir-se (Bíblia de Jerusalém)

E o morto saiu. Os seus pés e as suas mãos estavam enfaixados com tiras de pano, e o seu rosto estava enrolado com um pano. Então Jesus disse: - Desenrolem as faixas e deixem que ele vá” (Bíblia na Linguagem de Hoje)

Saiu aquele que morto na sepultura lá estava, seus pés e mãos bem ligados, com pano próprio que atava; e tinha ainda seu rosto, num lenço todo enrolado. Então Jesus ordenou: Deixai-o ir libertado” (Bíblia em Versos)

 

 

Onde estão as ataduras de Lázaro?

Teriam sido guardadas por um parente de Lázaro, como lembrança do milagre que ocorreu no seio da família e como símbolo da graça de Deus para as futuras gerações daquele clã?

Teriam sido guardadas por um dos discípulos de Jesus como prova do amor do mestre para com o amigo Lázaro ou até mesmo para exibir-se como testemunha do ocorrido?

Teriam sido guardadas pelo próprio Lázaro como memorial da sua nova vida?

Teriam sido levadas pelos judeus que procuraram as autoridades da época para denunciar Jesus e que se utilizaram das ataduras e do véu para provar a transgressão do nazareno?

Onde estão as ataduras de Lázaro?

Estariam entre as crianças que sofrem violências da família e da sociedade?

Estariam entre as mulheres que têm seus direitos aviltados ou que sofrem violências de seus próprios maridos?

Estariam nos grupos minoritários que sofrem a opressão dos grupos majoritários?

Estariam entre as vítimas dos que detêm o poder e utilizam-no a seu bel prazer?

Estariam entre os desassistidos, excluídos, discriminados, machucados, expropriados, empobrecidos, amordaçados e impedidos de viver a vida com dignidade?

Estariam nas famílias que vivem conflitos e não sabem como superá-los?

Estariam entre os cortadores de cana que durante nove meses ocupam nossas cidades (Piracicaba e região) e desgastam suas vidas para alimentar a fome do capitalismo?

Estariam entre os que são vítimas da ditadura das drogas?

Onde estão as ataduras que amarravam o corpo de Lázaro na gruta do sepultamento?

Elas estão no próximo que precisa da ação solidária, fraterna e comunitária daqueles que acreditam na ação libertadora de Jesus.

 

Bispo Josué Adam Lazier



Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 16h48
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