Igreja Missionária - IV

COMO DEVE SER UMA IGREJA MISSIONÁRIA - IV

 

SEGUNDO A IGREJA DE MATEUS

Mateus 9.35 a 10.42

A Igreja de Mateus, provavelmente localizada na cidade de Antioquia, passava por duas situações bem peculiares: 1º) é formada por judeus e gentios que aderiram ao cristianismo e são considerados, na sua grande maioria, pelo Império Romano, como inferiores: artesãos, comerciantes, agricultores, jornaleiros, etc. As bem-aventuranças apresentam a identificação social dos membros desta igreja; 2º) Por outro lado enfrentavam um problema com os judeus não cristãos, pois, num concilio judaico realizado em torno do ano 80 d.C., foram expulsos das sinagogas dos judeus e perderam a proteção que gozavam por parte das autoridades romanas.

Segundo o Evangelho, a Igreja de Mateus estava crescendo na compreensão e no compromisso com a missão. Algumas ênfases apresentadas pelo evangelista apontam isto:

 

1. ABERTURA PARA RECEBER OS DE FORA

Depois do episódio com o concílio judaico dominado pelos fariseus, a igreja de Mateus tinha 2 opções: fechar-se e viver o evangelho como uma comunidade judaica ou abrir-se para a missão universal. A princípio a Igreja de Mateus optou pela primeira, seguindo o costume judeu farisaico, mas logo a comunidade abriu-se para receber os gentios que começaram a converter-se. Mateus conservou as palavras de Jesus dirigidas aos discípulos e agrupou em 5 grandes sermões. Estes sermões invariavelmente são pregados, segundo Mateus, na perspectiva da Multidão. O texto de 9.35-10.1 é um claro exemplo disto: Jesus sugere que os discípulos orem pela seara, pois os obreiros eram poucos. Jesus sabia que ao orarem acabariam por se “apaixonar” pela missão e abrir-se-iam para receber os de fora e buscar os que estavam desgarrados, como ovelhas sem pastor. Podemos dizer que a igreja de Mateus foi uma comunidade missionária que se abriu para os gentios. O Evangelho de Mateus pode ter sido escrito como um pequeno manual de missões, sobretudo o cap. 10.

 

2. ENVIO MISSIONÁRIO

Mateus 10.24-25 é a chave para compreender todo o sermão de Jesus no capítulo 10, chamado de Sermão Missionário. Este sermão é proferido após Jesus ter observado as necessidades das multidões: estavam cansadas, angustiadas e eram como ovelhas sem pastor - 9.35-10.1. Isto quer dizer que o povo que seguia a Jesus vivia numa situação caótica, enfrentando vários problemas e sentindo na “pele” a situação de pobreza, de desesperança, de dúvidas, de infidelidade a Deus, etc., que tomava conta de toda a Palestina. Havia muita gente sem emprego, sem casa, sem destino seguro e, principalmente, sem esperança. A situação de aflição e desespero comove muito a Jesus (9.36). Ele, então, se dirige aos discípulos e, tendo em mente o quadro descrito anteriormente, os envia ao encontro das multidões com o propósito de atender às suas necessidades: buscar as ovelhas perdidas (10.6); anunciar a chegada do Reino de Deus (10.7); curar os enfermos, libertar os oprimidos e restaurar os marginalizados (10.8).

Jesus reconhece que os discípulos compreendiam um grupo pequeno diante de tão grandes necessidades (9.37). Ele também sabia que o cumprimento desta missão não seria fácil. Haveria muitos obstáculos: seria como ovelhas no meio de lobos (10.16); seriam acusados pelos poderosos (10.17); enfrentariam a oposição de governadores e reis (10.18) e seriam perseguidos nas cidades (10.23). Jesus não deixa de frisar que teriam a incompreensão dos familiares (10.21). Mas por que Jesus envia os discípulos nesta missão? Porque, segundo o texto de Mt 10.24-25, o discípulo deve imitar ao seu Senhor e imitá-lo significa atender as multidões. Portanto, discipulado implica no envio para a vivência de um estilo de vida e para o pastoreio do povo de Deus, bem como serviço através dos dons e ministérios. A igreja de Mateus apresenta esta abertura para o "ide" de Jesus e "fazei discípulos".

 

3. DISCIPULADO

O discipulado foi uma estratégia que Jesus usou para preparar seus seguidores para o cumprimento da missão. Sem deixar de lado o ministério público, onde atendeu as multidões que o procuravam com as mais diversas intenções, dedicou grande parte do seu tempo para ensinar e preparar seus discípulos para a missão. Na mente do evangelista Mateus, bem como de Marcos e Lucas, esta dedicação aos discípulos estava ainda bem viva.

Um especialista em Novo Testamento (Manson, O Ensino de Jesus, ASTE), fez um levantamento das palavras de Jesus registradas nos três primeiros Evangelhos e chegou ao seguinte resultado: 49,7 % das palavras são dirigidas aos discípulos 25,8 % das palavras são dirigidas às multidões 24,5 % das palavras são dirigidas às autoridades. Este levantamento mostra a importância que as Palavras de Jesus tiveram para os primeiros cristãos, a ponto de serem conservadas pela Igreja Primitiva e registradas pelos redatores dos Evangelhos. Fica evidente que Jesus dedicou tempo para preparar seus discípulos. Encontramos na redação dos cinco sermões de Jesus no Evangelho de Mateus o método de discipulado que Jesus usou: atender as necessidades das multidões e fazer novos discípulos, para que estes atendessem à outras multidões e fizessem novos discípulos.

 

CONCLUSÃO

O estudo sobre a Igreja de Mateus, baseado no capítulo 10 do Evangelho, leva-nos a algumas conclusões:

1. A igreja deve organizar seus dons e ministérios de forma a atender os desafios para a evangelização, para o serviço e para o avanço missionário. Cursos de treinamento e capacitação devem ser oferecidos aos membros das nossas igrejas.

2. A Igreja precisa estar com os olhos abertos para ver as multidões, suas necessidades e “sair” em direção a estas “ovelhas perdidas”. Uma igreja missionária deve ter esta característica de abertura, tanto para ir como para receber as pessoas. É importante frisar que são muitos os campos missionários que estão à disposição da Igreja. Quero mencionar alguns: o grupo de metodistas não professos, os filhos e filhas dos membros da igreja, os vizinhos dos bairros e dos prédios onde moramos, a escola e o trabalho.

3. O crescimento numérico é importante, especialmente para aquelas igrejas que estão, de certa forma, estagnadas. O crescimento numérico é natural e conseqüência do cumprimento dos dons e ministérios que Deus deu a cada um dos membros da Igreja. É importante também o crescimento qualitativo, ou seja, o crescimento na fé e no conhecimento de Deus através do ensino e do discipulado.

4. Viver a experiência da Plenitude de Deus é assumir compromisso com a Missão que, segundo o Evangelho de Mateus, significa atender às multidões e fazer discípulos de Jesus Cristo na perspectiva do Reino de Deus.

 

Bispo Josué Adam Lazier

 

 



Categoria: Sermões
Escrito por Josué Adam Lazier às 12h01
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Para estar no aprisco e não no curral

 

 

PARA ESTAR NO APRISCO E NÃO NO CURRAL

O ministério de acordo com I Pedro 5.1-4

 

 

Introdução

Esta é a terceira reflexão que faço em torno do tema aprisco e curral. A primeira eu intitulei “Entre o aprisco e o curral”, onde descrevi brevemente as características de cada uma. A segunda reflexão eu intitulei de “Ministério no aprisco versus ministério no curral”, em cujo texto indiquei algumas diferenças entre os dois tipos de ministérios, levando-se em conta as parábolas de Lucas 15 e a de Ezequiel 34.

 

Nesta reflexão quero abordar os conselhos apostólicos de Pedro quando se dirigiu aos cristãos que se encontravam na dispersão no Ponto, Galacia, Capadócia, Ásia e Bitínia. O apóstolo chama-os de forasteiros, porque viviam em outras terras, mas assim o faziam como eleitos de Deus e santificados no Espírito Santo (I Pe 1.2).

 

Como os seguidores de Cristo viviam em um ambiente de hostilidade, o exercício do pastoreio junto ao povo era fundamental para preservação da fé e perseverança na vida cristã. Desta forma, o apóstolo se dirige aos dirigentes dando-lhes várias recomendações de como pastorear naquelas condições. Na verdade ele faz uma comparação entre dois modelos de pastoreio, que estou chamando de aprisco e curral. Ao fazer isto, é incisivo e desafiador, pois suas palavras exortam e edificam.

 

Diálogo com os líderes da comunidade

Ele designa os líderes de presbíteros, por serem as pessoas que adquiriram experiências ao longo de suas vidas e foram reconhecidas como líderes da comunidade que se encontrava dispersa por vários lugares. Os presbíteros deveriam ser como referências de obediência e dedicação a Deus para os demais que iniciavam a jornada de fé. Ao se dirigir a eles assinala o pastoreio na perspectiva do aprisco e se apresenta como co-servo, co-ancião e cooperador, como alguém que testemunhou os sofrimentos de Cristo e tornou-se testemunha da ressurreição (5.1).

 

O apóstolo Pedro indica três características do que estamos chamando de ministério no aprisco ou ministério no curral. Inicia sua recomendação com a expressão “rogo”, em grego parakaleo, que significa chamar ao lado, convidar para uma conversa. É desta forma que o apóstolo se dirige aos líderes, ou seja, pastoralmente convida para uma conversa mais íntima acerca do cuidado pastoral. Nesta conversa ele pede que o pastoreio aconteça e passa a indicar as características.

 

Espontaneamente

Ele diferencia o aprisco do curral quando indica que o pastoreio deve ser feito espontaneamente e não por constrangimento. A palavra constrangimento tem o acento de obrigação, coação, sem alegria, sem motivação, sem zelo e sem compromisso com o rebanho. Para Pedro o pastoreio deve ser exercido de forma livre, da forma que Deus o quer, sem imposições e legalismos, mas com respeito, cuidado e dignidade.

 

A ordem de apascentar voluntariamente, segundo Deus, poderia então significar: não cumprais a vossa obrigação coagidos pela imposição das mãos sobre vós. Redescobri as motivações da fé, ‘segundo Deus’, que estão na origem do vosso ministério, e deixai-vos guiar por elas”.[1]

 

É uma recomendação instigante e relevante para os dias de hoje, pois este é o ministério feito no aprisco. Nele não há coação e nem intimidação, não há ameaças e nem dissimulações. É um pastoreio com o coração aberto e cheio de amor e de esperança para com as pessoas, feito com honestidade e com voluntariedade.

 

De boa vontade

Na recomendação anterior o curral estava na coação, na presente orientação está na sórdida ganância ou na avidez por ganho. O tema do dinheiro entra na pauta de recomendações do apóstolo, pois a ganância é uma força destrutiva do ministério “como Deus o quer”. Deus quer o ministério de boa vontade, com generosidade, com magnanimidade, onde a tentação pelo lucro e pela satisfação dos interesses pessoais é superada.

 

O termo grego utilizado e traduzido por boa vontade, tem o sentido de zelo, de cuidado. “A palavra é extremamente forte e expressa entusiasmo e zelo devotado”.[2] O ministério no aprisco tem esta perspectiva desafiadora para os dias de hoje, especialmente levando-se em conta os movimentos de negociação e de busca de recompensas financeiras pelo trabalho pastoral. Pedro, ao se dirigir aos líderes da comunidade, faz um apelo para que a disposição que estava presente no início do ministério seja restaurada e renovada. Assim, os presbíteros deveriam pastorear

não forçados, mas de bom grado, obedecendo à vontade divina; não por causa do lucro, mas por devotamento ao próximo; não com modos ásperos, como tiranos, mas dando o exemplo de suavidade e delicadeza”.[3]

 

Como modelos do rebanho

Pedro não deixa dúvidas. O ministério realizado com violência, com dominação, com patrulhamento, não é o Deus quer. Deus quer um ministério livre, espontâneo e caracterizado pela disposição em servir. O acento da recomendação está no relacionamento de serviço em prol das ovelhas. As recomendações de Cristo aos discípulos e expostas pelos evangelistas estão diretamente ligadas a esta recomendação petrina, especialmente as que falam que os maiores são os que servem e não os que se assentam à mesa (Mc 10.43-44).

 

Numa situação de aprisco não há dominação, há sim doação, dedicação e humildade. “A humildade proposta por Cristo não tem nada a ver com os meios usados para se fazer carreira e chegar ao poder”.[4]

 

Para continuar refletindo

Considerar as palavras do apostolo Pedro é sair da perspectiva do curral e entrar na do aprisco, é pensar na dimensão pública do pastoreio e do serviço que a Igreja deve prestar à sociedade. É pensar na inclusão dos que são excluídos, é pensar na libertação dos que são oprimidos, é denunciar quando a vida, dom de Deus, é aviltada pela violência contra crianças, contra mulheres, contra os idosos e contra os que são diferentes, é pensar na vida integral e no resgate da dignidade humana. É pastorear num ambiente de aprisco.

Dar atenção as palavras de Pedro é sair do curral e entrar no aprisco, pois suas palavras continuam a instigar a liderança da igreja nos dias de hoje.

 

Bispo Josué Adam Lazier

 

 



[1] BOSETTI, Elena. Deus-Pastor na Bíblia – solidariedade de Deus com seu povo. São Paulo, SP: Edições Paulinas, 1986, p. 102.

[2] RIENECKER, Fritz – ROGERS, Cleon. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1985, p. 567.

[3] BALLARINI, T. e outros. Introdução à Bíblia, vol. V/2. Petrópolis, RJ: Editora Vozes Ltda, 1969, p. 345.

[4] BOSETTI, Elena. Deus-Pastor na Bíblia – solidariedade de Deus com seu povo. São Paulo, SP: Edições Paulinas, 1986, p. 112.

 

 

 



Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 08h43
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IGREJA MISSIONÁRIA III

 

 

COMO DEVE SER UMA IGREJA MISSIONÁRIA III

...erguei os olhos e vede os campos, pois já branquejam para a ceifa” (João 4.35b)

 

A Bíblia registra que a Igreja como Corpo Vivo de Cristo cresce em todas as dimensões da fé e da experiência cristã, inclusive no que diz respeito ao crescimento quantitativo. O texto bíblico nos afirma que crescemos em tudo naquele que é o Cabeça, Cristo Jesus (Ef 4.15). O foco da missão da Igreja deve estar direcionado às vidas que podem ser transformadas e convertidas à partir do conhecimento do Evangelho de Jesus.

 

O texto de João 4.35b é motivador para as duas ações ministeriais da Igreja: semear e colher. Tanto o que semeia como o que colhe são fundamentais para o cumprimento da missão da Igreja. O semeador não é melhor do que aquele que ceifa. Nem o que ceifa é melhor do que o semeador. Ambos devem perceber que os campos branquejam, ou seja, ter a percepção de que a terra está pronta para a semeadura e de que os ceifeiros devem estar prontos, pois rapidamente os frutos se tornarão maduros para a colheita. Uns semeiam. Outros regam. Outros plantam. O importante é Deus que dá o crescimento (I Co 3.7) e que reconhece o trabalho do semeador, do que rega e do ceifeiro.

 

Às vezes a terra parece como a da Judéia e a de Jerusalém no tempo de Jesus, árida e sem produzir nada, no entanto, o semeador e ceifeiro do Senhor têm a capacidade de perceber que mesmo na aparente aridez há sinais de que os campos branquejam para a ceifa. Como nos afirma o profeta: “Assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei” (Isaías 55.11). É nesta confiança que semeamos e colhemos, pois a Palavra de Deus não volta vazia.

 

Jesus parece fazer um jogo de palavras quando diz “levantai os olhos e vedes”. Nas duas expressões encontramos o sentido de não olhar para baixo procurando sinais das plantas que estão nascendo, mas sim o de levantar os olhos e contemplar o campo que está pronto para a colheita. Não se trata de uma “visão interior e mística, e muito menos uma visão platônica das formas, mas, sim, um ato espiritual de ver, a vista da fé”.[1] Os discípulos contemplam a glória de Jesus (João 1.14) e os campos que estão brancos para a ceifa.

 

Como nos diz o Senhor no texto bíblico: levantemos os olhos e vejamos que os campos estão brancos para a colheita. Cresceremos na comunhão e na santidade bíblica; cresceremos no discipulado e na mordomia cristã; cresceremos em número de pessoas alcançadas e comprometidas com o Evangelho de Jesus, pois é tempo de plantar; tempo de regar; tempo de colher; é tempo de trabalhar incansavelmente para o cumprimento da missão que recebemos de Deus.

 

Uma Igreja Missionária tem os olhos voltados para a realidade onde está inserida, tem os ouvidos atentos para o clamor do povo e o gemido dos que sofrem, tem a boca pronta para proclamar as boas novas do Evangelho e denunciar os atos de morte, tem as mãos estendidas para acolher os necessitados e os pés preparados para caminhar pelas estradas em direção às multidões. Uma igreja missionária tem a coragem e a ousadia de proclamar o senhorio de Cristo e a coragem para dizer não aos valores do presente século.

 

Bispo Josué Adam Lazier

 



[1] Kahn, D., Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, vol. II, São Paulo, Edições Vida Nova, 2000, pg. 2596.

 

 



Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 20h37
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Igreja Missionária II

 

 

COMO DEVE SER UMA IGREJA MISSIONÁRIA

I Coríntios 12.4-30

 

 

Já há alguns anos que a Igreja Metodista tem se organizado de forma a possibilitar uma participação mais efetiva de todos os membros na vida da igreja.  Para que isto pudesse acontecer, decidiu-se que o novo modo de ser igreja seria através dos dons e ministérios.  Na verdade, a participação de leigos no trabalho da Igreja já vem de longa data. Deste o tempo de João Wesley, o fundador do metodismo, os leigos ocupavam ministérios importantes. É o caso dos pregadores leigos, que eram submetidos a uma disciplina rígida, como exemplo: dedicar em torno de 6 horas de leituras diárias. Além de pregadores leigos, Wesley preparava líderes para as “classes” ou “sociedades”, que eram grupos de discipulado.   Nestes grupos os líderes escolhidos e preparados por João Wesley tinham a função de visitar, aconselhar, orientar, etc, os membros do grupo. A Igreja Metodista hoje valoriza os trabalhos dos diversos ministérios que surgem na vida de seus membros.

 

Nosso objetivo é refletir sobre a mutualidade destes ministérios considerando a perspectiva missionária.  Mutualidade quer dizer “a dependência e integração que um ministério tem com o outro”. Paulo, para explicar isto, usou a figura do corpo humano. O corpo humano tem diversos membros, e cada membro tem a sua função, mas todos dependem uns dos outros. Exemplo: os pés dependem das mãos para calçar os sapatos, e assim por diante. Da mesma maneira no Corpo de Cristo. Cada membro tem uma função diferente, mas nenhum membro consegue fazer tudo sozinho, precisa da ajuda dos outros. A Igreja funciona bem quando os diversos ministérios que ela tem trabalham de maneira integrada e para o benefício de todos os membros. O gráfico seguinte ilustra isto:

 

A - I CORÍNTIOS 12.4-11   -    DIVERSIDADE DOS DONS

 

  B1 - I CORÍNTIOS 12.12-13 - UNIDADE


A - I CORÍNTIOS 12.14-17 - DIVERSIDADE DOS DONS

 

  B2 - I CORÍNTIOS 12.18-26 - MUTUALIDADE

 

A - I CORÍNTIOS 12.27-30 -    DIVERSIDADE DOS DONS

 

O texto de I Coríntios 12.4-30 chama a atenção para que não transformemos os nossos ministérios em “igrejinhas”, onde não se valoriza o que os outros ministérios estão fazendo. Quando isto ocorre a unidade da Igreja fica prejudicada e ela deixa de cumprir o papel de ser  a plenitude de Cristo. A Igreja cumpre com sua missão quando vivencia a integração, a mutualidade e o comprometimento de todos os ministérios e uns com os outros.

 

O Desafio que a Igreja Metodista tem é o avanço missionário e para isto nem é necessário se estabelecer alvo. O alvo da uma igreja missionária é se fazer presente na sociedade e cuja atuação é transformadora, sinalizadora do Reino de Deus e testemunha da nova vida em Cristo Jesus. Uma igreja missionária convida constantemente as pessoas para viverem os valores do Evangelho em todos os momentos da vida. Para isto é importante a figura do Corpo, onde seus membros cumprem a sua função em benefício dos outros membros. Os ministérios unidos constituem-se numa grande força para o avanço missionário.

 

Bispo Josué Adam Lazier

 

 

 



Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 18h29
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No dia dos pais...

 

 

NO DIA DOS PAIS UMA HISTÓRIA DE CRIANÇA

 

 

 

Para celebrar o Dia dos Pais, quero falar de uma criança. Era uma criança feliz e que vivia a vida na sua normalidade.  Não tinha tudo o que seus olhos viam pela televisão ou pelas vitrines das lojas, tampouco tudo o que as outras crianças tinham. Mas mostrava ser uma criança feliz. Encontrava em casa um ambiente propício para sua formação, embora não soubesse compreender todos os acontecimentos que envolviam a sua família. Como toda criança, tinha seus momentos de “traquinagens”.

 

Os pais desta criança tinham qualidades e fragilidades, especialmente o pai, sempre preocupado com o trabalho, com as contas para pagar, com a educação dos filhos, etc. No entanto, a atenção e carinho que os pais lhe dedicavam pareciam fazer com que os problemas nunca tivessem existido. Na verdade, o que acontecia era que o amor era maior do que os problemas.

 

Uma coisa chamava a atenção desta criança: o pai demonstrava algo que ouviu dizer ser o “temor” de Deus. A criança não compreendia o que era este tal de “temor” de Deus, no entanto ele estava presente na vida de seus pais. A criança observava que os vizinhos respeitavam muito seus pais. Seria o “temor” de Deus, pensava a criança.

 

Certa vez a criança perguntou para o pai o que era o “temor” de Deus. O pai respondeu dizendo que era o respeito pela própria vida e pela vida dos outros; era o cumprimento das responsabilidades e o cuidado com o bem estar da família. O pai foi explicando para a criança que temer a Deus é reconhecer que Ele é criador e sustentador da vida e que a fé e a esperança fortalecem a vida das pessoas em todos os momentos. O pai disse ainda que o “temor” de Deus é ter a disposição para lutar contra todas as adversidades da vida, sem nunca perder a ternura, o carinho, o amor e o respeito para com os outros. A criança começou a compreender o que era o tal “temor” de Deus.

 

Esta criança não tem nome, mas pode ter. Pode ser o nome do nosso filho ou filha. Pode ser o nome das crianças que estão sob nossos cuidados. Esta história pode ser vivenciada por todos nós. É isto que desejo para todos os pais e todas as famílias da nossa comunidade, pois ser “pai” é uma missão que requer muita força de vontade, muita superação, muita paciência e perseverança, muito amor e respeito e o “temor” de Deus é a espiritualidade que se insere em nossa vida e nos humaniza, pois ser pai é ser humano sempre.

 

 

 

Bispo Josué Adam Lazier

 

 

 

 



Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 18h03
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Ministério no aprisco versus ministério no curral

 

MINISTÉRIO NO APRISCO VERSUS MINISTÉRIO NO CURRAL
As parábolas de Lucas e de Ezequiel


Introdução

As figuras do aprisco e do curral desafiam nossa reflexão e nos convidam a considerarmos o que diferencia o ministério entre um e o outro.

Enquanto a figura do aprisco indica metaforicamente o encontro amoroso do pastor com suas ovelhas, o curral indica o local da ‘ração’ para o gado, ou seja, onde metaforicamente as pessoas ruminam o ‘sal’ ou a ‘ração’ que lhes são oferecidos sem, no entanto, vivenciaram os aspectos que compreendem o aprisco”.1

Para isto, faremos uma leitura de dois textos bíblicos que nos auxiliarão em nossa reflexão nesta linha de pensamento. O primeiro texto é o de Lucas 15.4-7, onde é contada a parábola da ovelha perdida. O segundo texto é o de Ezequiel 34.1-10, onde são apresentadas características negativas na vida dos líderes, o que nos leva a pensar no exercício de um ministério na perspectiva do curral.


1. A parábola da ovelha perdida – Lucas 15.4-7

Restauração

A parábola da ovelha perdida tem como seu tema central a restauração da ovelha que se perdeu e que causa no pastor, nos amigos e vizinhos, alegria quando ela é encontrada. Ela assinala que Deus procura os pecadores e é sempre Ele quem toma a iniciativa para que recebam a nova vida em Cristo Jesus.
      
Para os religiosos daquela época, Deus receberia somente as ovelhas arrependidas, mas para Jesus, Deus procura as desgarradas, machucadas, violentadas, atingidas pelas feridas da vida e as restaura ao seu aprisco.
      
Ir ao encontro da que está perdida
Esta é a idéia presente na parábola da ovelha perdida. O pastor deixa as noventa e nove ovelhas que estão seguras e vai procurar a que se perdeu. Quando a encontra descobre que está machucada pela queda e carrega-a para casa (15.5). “Surpreendentemente, este pastor se regozija com o fardo de restauração que ainda está diante dele. Este tema é importantíssimo nesta primeira parábola”.2
      
Além disto, o pastor revela que a ovelha era importante para ele. Ele percorre um longo caminho, quiçá fazendo sacrifícios e suportando as dificuldades em encontrar a ovelha perdida.

Pensemos nos sacrifícios suportados pelo pastor andando nas pegadas da ovelha perdida e percorrendo montes e vales, sem desistir, até encontrá-la (Lc 15,4). Nessa parábola, a preciosidade da ovelha perdida é insinuada também pelo adjetivo possessivo. O pastor exclama: ‘encontrei a minha ovelha’ (Lc 15.4)”.3


Carregar pelos braços
A ação no contexto do aprisco deve cuidar das que estão seguras e se alegrar com as que nunca se perderam, mas não pode deixar de focar as que se extraviaram e precisam de cuidado e restauração. Esta ação de restaurar tem todo um sentido afetivo por parte do pastor: ela toma a ovelha em seus braços e leva-a casa. Trata-se de uma atitude de cuidado, de respeito e de valorização da ovelha que, mesmo que tenha sido rebelde em se desviar do caminho pelo qual o pastor conduzia o rebanho, é tratada com consideração. A restauração é fruto desta soma de atitudes do pastor, especialmente da afetividade.
      
O profeta Isaías afirma o seguinte falando do relacionamento de Deus com seu povo: “como pastor, apascentará o seu rebanho; entre os braços, recolherá os cordeirinhos e os levará no seu regaço; as que amamentam, ele as guiará mansamente” (Isaías 40.1).
      
A alegria do pastor
Além da restauração estar enfatizada nesta parábola, a alegria pelo retorno da ovelha que se perdeu também é indicada, pois ela é contagiante: todos que recebem a notícia se alegram e celebram, pois “haverá mais alegria no céu por um só pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento”, conforme o texto de Lucas  15.7.
      
A gratuidade na ação pastoral
A parábola apresenta quatro temas: a alegria do pastor, a alegria da restauração, o amor gracioso e o arrependimento.4 Estes temas são norteadores de um ministério na perspectiva do aprisco. O ministério na perspectiva do aprisco tem o tom da gratuidade e não da troca ou do mercantilismo. Como já expressamos em outros textos, afirmamos “que as pessoas que se oferecem para trabalhar nos ministérios da Igreja e que recebem para isto devem fazê-lo na perspectiva da doação, do serviço e nunca da recompensa, ou do salário, ou do subsídio”.5

2. A parábola dos pseudo-pastores – Ezequiel 34.1-10

O profeta Ezequiel, cujo ministério se deu no período do exílio e junto aos desterrados, toca no tema do pastoreio das ovelhas. Ele anunciava a mensagem de que Jerusalém chegava ao fim em virtude da corrupção que havia tomado conta da vida dos líderes do povo e da crise que se alojara entre o povo, uma vez que seus líderes estavam desleixados em relação aos seus compromissos. Em outras palavras, os líderes deixaram de pastorear e conduzir o rebanho e se dedicaram aos seus próprios negócios, ou como diz Ezequiel, se apascentavam a si mesmos. O povo vivia sob o impacto do desterro e do distanciamento do Templo, que simbolizava a identidade e a religião que professavam e eram como ovelhas sem pastor. No entanto, Deus revela que Ele mesmo vai pastorear as suas ovelhas.

“Ezequiel é o profeta que desenvolve mais amplamente o tema de Iaweh-pastor. Dedica a ele todo o cap. 34, no qual contrapõe o comportamento de Deus ao dos falsos pastores que, em vez de apascentarem o povo de Deus, apascentam a si mesmos (vv. 2-10)”.6

Aqui entra nossa metáfora do curral. O povo nesta época vivia sem o cuidado, a direção, a condução e o pastoreio de seus líderes ou pastores. O profeta denuncia isto quando apresenta o perfil dos falsos pastores.

As palavras do profeta são claras e específicas. Não há como não compreender a mensagem que Ezequiel apresenta e que caracteriza os pastores que na expressão bíblica são falsos pastores. Vejamos:

      1. Apascentam-se a si mesmos, ou seja, estão preocupados com o seu bem estar em detrimento do bem estar das ovelhas. O que importa é a satisfação dos desejos e das necessidades pessoais e não as do rebanho.

      2. Comem a gordura das ovelhas e se vestem com a lã. Em outras palavras, isto quer dizer exploração e violência cometidas contra o rebanho.
      
      3. Não dão apoio às que estão enfraquecidas com a situação de desterro, pobreza e opressão a que estavam submetidas as ovelhas, ou o povo de Deus. Devemos lembrar que o povo está no exílio como escravo.
      
      4. Não curam as doentes e nem restauram as que estão machucadas. Não há nenhuma ação por parte dos líderes do povo que produza restauração, cura e libertação. Os pastores se transformaram em lobos vorazes.
      
      5. Não procuram as desgarradas e não vão atrás das que estão perdidas. A ação que mais caracteriza o trabalho pastoral que é conduzir as ovelhas por caminhos seguros não era praticada pelos pseudo-pastores da parábola de Ezequiel.
      
      6. Por outro lado, eram dominadores, violentos, arrogantes, cujo “manejo” das ovelhas era feito com dureza e muito rigor. Uma boa forma de identificar um pastor dominador e dissimulado é reparar se ele olha com ternura para suas ovelhas. O olhar do pastor revela se de fato cumpre com sua função ou vocação na perspectiva da parábola de Lucas ou se na perspectiva da parábola de Ezequiel.
     

Assim, Ezequiel, o profeta do desterro, descreve a vida num curral.

Conclusão
      
Não dá para concluir um assunto de tamanha delicadeza e tamanho desafio. Dá sim para lamentar que em nosso meio se instalem modelos de pastoreio na perspectiva do curral, onde o que vale é a vontade do pastor e o seu bem estar.
      
Não dá para concluir, mas dá para lamentar que a Igreja vivencie esta tensão e que acabe por predominar um modelo de dominação, intimidação e dissimulação. Eu conheço pastor que não consegue olhar nos olhos de suas ovelhas e prefere olhar de soslaio, ou de forma esguelha. O pastoreio, desta forma, é realizado por “viés”. O que significa dizer um ministério “meio furtivo, esconso, tortuoso de obter, fazer ou concluir algo”.7
     

Não dá para concluir, mas que Deus tenha misericórdia de nós.
      
     

Bispo Josué Adam Lazier


      
1 LAZIER, Josué Adam. Entre o Aprisco e o Curral. Postado no blog: www.josue.lazier.blog.uol.com.br em 13 de julho de 2009.
2 BAILEY, Kenneth. As Parábolas de Lucas. São Paulo, SP: Editora Vida Nova, 1985, pg. 199.
3 BOSETTI, Elena. Deus-Pastor na Bíblia – solidariedade de Deus com seu povo. São Paulo, SP: Edições Paulinas, 1986, p. 75.
4 BAILEY, Kenneth. As Parábolas de Lucas. São Paulo, SP: Editora Vida Nova, 1985, pg. 203.
5LAZIER, Josué Adam. O Ministério na Perspectiva da Manjedoura. Postado no blog: www.josue.lazier.blog.uol.com.br em 23 de dezembro de 2008.
6 BOSETTI, Elena. Deus-Pastor na Bíblia – solidariedade de Deus com seu povo. São Paulo, SP: Edições Paulinas, 1986, p. 30.
7 HOUAISS. Dicionário eletrônico da Língua Portuguesa 1.0.

 



Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 20h54
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