Reflexões com Josué Adam Lazier


Não há lugar para o espinheiro

NÃO HÁ LUGAR PARA O ESPINHEIRO

 

 

A fábula de Jotão (Juízes 9.7-15) denuncia as ações de um dos filhos de Gideão que se utilizou de expedientes reprováveis para assumir a liderança do povo e, para isto, contou com a omissão das lideranças das famílias naquela época. O filho mais novo do juiz morto, que havia conseguido livrar-se das loucuras do irmão mais velho, Abimeleque, começou a contar a fábula das árvores para advertir o povo sobre as propostas de governo de seu irmão. Jotão comparou-as aos frutos do espinheiro, que não produz nada além dos espinhos, ao contrário das outras árvores da fábula, a oliveira, a figueira e a videira que produzem bons frutos.

 

Nesta reflexão quero apropriar-me da mensagem da fábula e compará-la ao mercado educacional que cresce em nosso país e transforma a educação em produto de vendagens e de aplicação em bolsas de valores. Para mim, a proposta educacional em termos de mercado é a proposta do espinheiro. Considero que a educação preconizada pela Igreja Metodista e definida no documento Plano para a Vida e Missão e nas Diretrizes para a Educação na Igreja Metodista, é a boa árvore, cujos frutos podem ser simbolizados nos da oliveira, da figueira e da videira. È claro que não é somente a Igreja Metodista que preconiza uma educação nestes níveis de resistência ao mercado; há outras instituições confessionais que também o fazem.

 

Da mesma forma que cresce o mercado educacional, ou a proposta do espinheiro, crescem também as preocupações de que estas tentação e tendência cheguem aos arraiais confessionais, incluindo aí o metodista. Cresce também a desconfiança de que a Igreja, enquanto uma instituição humana que trabalha com o sagrado, não consiga resistir aos apelos do mercado e sucumba ante as propostas do “espinheiro”. Considero que isto não seja possível, desde que se leve em conta que a Igreja há muitos anos abandonou o cumprimento da sua missão em forma de finalidades para assumir uma concepção mais abrangente a partir do Reino de Deus, que é o eixo central da sua missão e a razão de ser Corpo Vivo de Cristo. Ou estaria me enganado quanto a isto?

 

Quando falo em missão estou me referindo à educação também, pois ela está inserida na concepção de missão que a Igreja Metodista preconiza. O Plano para a Vida e Missão, vigente desde 1982, assim se expressa: "A Educação como parte da Missão é o processo que visa oferecer à pessoa e comunidade, uma compreensão da vida e da sociedade, comprometida com uma prática libertadora, recriando a vida e a sociedade, segundo o modelo de Jesus Cristo, e questionando os sistemas de dominação e morte, à luz do Reino de Deus” (PLANO para a Vida e Missão, item C).

 

Com relação à educação, a Igreja Metodista abandonou uma tendência liberal e individualizante desde a aprovação do documento com as Diretrizes para a Educação em 1982 e, ao fazer isto, expurgou os seguintes elementos dessa tendência: “preocupação individualista com a ascensão social; acentuação do espírito de competição; aceitação do utilitarismo como norma de vida e colocação do lucro como base das relações econômicas” (DIRETRIZES para a Educação na Igreja Metodista, item III). Desta forma, as bases bíblico-teológicas que fundamentam o documento sobre educação indicam uma prática educativa vinculada aos valores do Reino de Deus e não aos do mercado e contrapõem movimentos que anseiam por uma educação na perspectiva do neoliberalismo.

 

Logicamente, a Igreja enquanto uma instituição formada por pessoas sofre todo e qualquer tipo de pressões e tensões. Como em qualquer instituição, também na Igreja há movimentos de transformações e disputas internas pelo poder e pelo status que a religião confere aos seus líderes. Mas há aqueles e aquelas que resistem e ajudam a Igreja a superar estes momentos. Desta forma, considero que a proposta do “espinheiro” não encontra guarida em nosso meio, institucionalmente falando. Para que isto viesse a ocorrer seriam muitas as rupturas. Indico algumas:

 

  1. O Reino de Deus teria que deixar de ser o eixo central da missão da Igreja e das ações educativas, pois uma missão vivenciada na perspectiva da justiça deste Reino não combina com valores mercantilizados da nossa sociedade. Ao assumir valores mercantilistas a Igreja se transformaria num grupo de pessoas acentuadamente individualistas e não se identificaria mais como povo de Deus;
  2. Algumas páginas do Evangelho de Cristo teriam que ser jogadas fora, pois ele adverte sobre o “deus” do presente século que é o poder monetário, o mercado que desgraça a vida das pessoas, além de orientar para uma convivência em sociedade onde a ética, o respeito e a vida são prioridades;
  3. Parte da herança que nutriu os metodistas em quase trezentos anos de história e de serviços prestados ao mundo - seja através da evangelização, da educação, do trabalho social e ou presença sacerdotal e profética na sociedade - teriam que ser apagadas da nossa memória;
  4. Documentos construídos de forma coletiva, participativa, reflexiva, confessional e profética, que foram amadurecendo e dando o respaldo teológico à missão, teriam que ser desrespeitados. Como exemplo, cito o documento Diretrizes para a Educação na Igreja Metodista que afirma o seguinte: “Não se pode mais aceitar uma educação elitista, que discrimina e reproduz a situação atual do povo brasileiro, impedindo transformações substanciais em nossa sociedade. Também não podemos nos conformar com a tendência que favorece a imposição da cultura dos poderosos, impedindo a maior participação das pessoas e aumentando cada vez mais seu nível de dependência” (DIRETRIZES para a Educação na Igreja Metodista, item IV);
  5. A experiência pessoal de milhares de pessoas com a gratuidade do amor de Deus e, portanto, transformadora da vida e das relações, teriam que ser definitivamente anuladas.

 

Para que tudo isto acontecesse, diversos Concílios Gerais da Igreja Metodista teriam que ser realizados. Mesmo que em alguns houvesse retrocessos, em outros haveria avanços mais significativos. Tem sido assim a história dos concílios metodistas.

 

Diante disto, está claro para mim que a opção da Igreja, para todas as suas áreas de missão, é pela proposta da oliveira, da figueira e da videira, ou seja, pelos frutos da cidadania, da solidariedade, da tolerância, da vivência de paz, da convivência de amor, da fraternidade, da dialogicidade, do companheirismo e da sinalização do Reino de Deus, combatendo assim os projetos do espinheiro que estão presentes em nossa sociedade e que seduzem a Igreja, seja na área educacional ou em qualquer outra da vida ou da missão. Não há lugar para o espinheiro entre nós. Que ele seja anátema, bem como toda tentativa de negação da identidade e confessionalidade que caracteriza o povo chamado metodista.

 

Bispo Josué Adam Lazier

 

(Publicado no Mosaico Apoio Pastoral. Ano 15, nº 39. Faculdade de Teologia da Igreja Metodista. Junho/setembro de 2007)

 



Escrito por Josué Adam Lazier às 20h36
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É TEMPO DE QUARESMA - SOBRE A EDUCAÇÃO METODISTA

PENSAMENTOS  SOBRE A EDUCAÇÃO DE ACORDO

COM A LEITURA DO TEXTO DE TITO 2.7-8

 

 

Iniciando os pensamentos

O texto de Tito 2.7-8 é emblemático. Ele está num bloco de recomendações ministeriais feitas para as pessoas com responsabilidades educativas da Igreja. Este bloco de recomendações se constitui num conjunto didático em forma de um catálogo de virtudes. Podemos chamá-lo de “catálogo de virtudes dos educadores”.

 

Modelo de ensino

A ação educativa dever ser exercida de forma a ser modelo, sobretudo para os mais jovens. Trata-se de uma orientação para todos, pois o “estar apto para ensinar é uma qualidade que todos os homens e mulheres podem desenvolver, para atingirem a maturidade cristã”.[1] Para assinalar a importância da educação algumas qualidades são relacionadas à mesma: integridade, reverência, linguagem sadia, ser irrepreensível e confrontar Os ensinamentos que promovem injustiças.

 

Vamos refletir sobre a primeira característica do educador arrolado no texto indicado. Integridade quer dizer ausência de qualquer interesse outro que não a edificação na vida. Integridade vem do latim integritate e significa qualidade de íntegro; inteireza; retidão; pureza; etc.[2] Já o termo íntegro significa inteiro; completo; perfeito; reto; imparcial; brioso; etc.[3]

 

Normalmente nos fixamos no sentido de retidão e pureza, mas o termo é mais abrangente. Ele inclui o sentido de brio, força, coragem. Devemos considerar que educar transmitindo conhecimento é tarefa fácil, mas educar transmitindo vida com o exemplo e com as práticas se constitui numa tarefa mais árdua. No caso de Tito, cuja recomendação serve para nós, ele deveria “combinar uma motivação pura com uma exposição sadia e com um comportamento sério”.[4] A Igreja Primitiva desenvolvia esta perspectiva de educação, ou seja, transformadora, capacitadora e libertadora.

 

A Igreja Metodista toma para si esta perspectiva de educação. E ao fazer isto, precisa focar a juventude que é o alvo dos movimentos de fantasias que atraem os jovens. Tanto na igreja como na escola este desafio se coloca, pois temos como fundamento a tradição bíblica e uma herança que promove uma educação que prepara para a vida.

 

A educação desenvolvida pelas escolas seculares mantidas pela Igreja Metodista está presente na América Latina há 135 anos. Nestes anos a educação foi sendo forjada e desenvolvida de forma a apresentar desafios para a geração de hoje.

 

Para continuar a reflexão

As outras características destacadas nos texto indicam o zelo, a seriedade, o compromisso, a preparação e o cuidado com a vida. Indica ainda que o educador deva dar atenção para não ensinar uma coisa que não vivência em suas ações e comportamento.

 

A educação é mais do que simplesmente transmitir conhecimentos, é formar cidadãos transformados com o compromisso de atuarem na sociedade como agentes de transformação. Para isto, o texto bíblico nos desafia a sermos íntegros, briosos, fortes e corajosos para atuarmos como educadores numa perspectiva libertadora.

 

Josué Adam Lazier

 

Oração do Educador

(Palavras de Paulo Freire, A Pedagogia da Autonomia)

 

Senhor!“Não posso ser professor se não percebo cada vez melhor que, por não ser neutra, minha prática exige de mim uma definição. Uma tomada de posição. Decisão. Ruptura. Exige de mim que escolha entre isto e aquilo. Não posso ser professor a favor de quem quer que seja e a favor de não importa o quê. Não posso ser professor a favor simplesmente do Homem ou da Humanidade, frase de uma vaguidade demasiado contrastante com a concretude da prática educativa. Sou professor a favor da decência contra o despudor, a favor da liberdade contra o autoritarismo, da autoridade contra a licenciosidade, da democracia contra a ditadura de direita ou de esquerda”. Amém.

 

 (Paulo Freire, A Pedagogia da Autonomia)

 

 



[1] Getz, Gene A., A Estatura de um Homem (Espiritual), São Paulo, Editora Vida, 1988, pg. 64.

[2] Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda, Novo Aurélio – Século XXI, Editora Nova Fronteira, 1999, pg. 1121.

[3] Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda, Novo Aurélio – Século XXI, Editora Nova Fronteira, 1999, pg. 1121.

[4] Stott, John, A Menagem de I Timóteo e Tito, São Paulo, ABU, 2004, pg. 196.



Escrito por Josué Adam Lazier às 20h19
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É TEMPO DE ORAÇÃO SOLIDÁRIA

É TEMPO DE QUARESMA

A EFICÁCIA DA ORAÇÃO

Lucas 11.9-13

 

 

Lucas usou uma fonte primitiva que conservou estas palavras de Jesus e colocou-as num contexto onde demonstra preocupação com a espiritualidade.  Ele inclui o presente texto junto ao diálogo de Jesus com Marta e Maria, à oração do Pai Nosso e à parábola do amigo insistente. Há que se levar em conta também o paralelo em Mateus 7.7-11, pois este evangelista colocou estas palavras de Jesus num contexto onde está registrada a preocupação com os outros. A eficácia da oração está na preocupação com o bem estar dos outros, na concepção de Mateus.

 

Lucas usa 3 pequenas ilustrações para alimentar a espiritualidade dos discípulos de Jesus. São ilustrações tiradas do dia a dia, pois qual é o pai que, se o filho pedir pão, lhe dará uma pedra?  Ou se o filho lhe pedir peixe lhe dará uma cobra?  Quanto mais Deus, o Pai Celestial que ouvirá as orações quando elas são motivadas para a sinalização do Reino de Deus, sua justiça e esperança.

 

O grande apelo para a vivência de uma espiritualidade solidária e fraterna, não individualista e intimista, é o outro. Sobretudo aqueles que hoje vivem sem esperança, sem alegria, sem pão, sem casa, sem educação e sem as condições mínimas de sobrevivência.

 

Lucas apresenta o Espírito Santo como o que alimenta a vocação do povo de Deus, que fortalece a espiritualidade dos discípulos de Jesus e que impulsiona a Igreja a plantar esperança e sinalizar a presença do Reino de Deus e sua justiça. A eficácia da oração dos cristãos está na preocupação com as necessidades das multidões que vivem sem eira e nem beira, que vivem como ovelhas desgarradas e sem pastor e vivem a mercê dos caprichos daqueles que dominam os mecanismos de divisão de renda.

 

Neste sentido, a oração é ação em prol dos que reclamam atos de solidariedade, fraternidade e tolerância.

 

Senhor, desejamos orar sempre, mas também queremos agir em favor das pessoas que precisam de apoio e de solidariedade. Ajuda-nos a sermos sensíveis às necessidades dos outros. Amém.

 

 


Josué Adam Lazier



Escrito por Josué Adam Lazier às 20h08
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Tempo de Quaresma

TEMPO DE QUARESMA

 

 

O que significa o tempo de quaresma? Embora esteja incluída no calendário cristão, tornou-se um apenas um destaque religioso em cultos, missas e celebrações. Parece que o povo já não entra mais em “tempo de quaresma”.

 

1.Quaresma é tempo de luto e reflexão sobre a vida. Tempo de luto porque os sinais de morte na sociedade  são evidentes. Não só neste período, mas o tempo religioso chama os cristãos a considerarem a fragilidade da vida e, consequentemente, a incapacidade do homem e da mulher viverem sem guerras, sem violências, sem agressões, sem desrespeito, sem injustiças, sem mentiras, sem roubos, sem arroubos de egocentricidade. No ato de enlutar-se está a reflexão e a ponderação acerca da precariedade da vida e a busca pela reconstrução de uma vivência salutar e agregadora de valores para todos.

2.Quaresma é tempo de esperança. O luto, o choro, o ato de arrependimento que marcam o período da quaresma são geradores da vida. Figuradamente, as lágrimas da dor e da morte regam a terra da esperança, cujas sementes germinam e brotam a fé, a caridade, a dignidade e recriam a vida, dom de Deus. A vida é assim: crise e esperança; luta e superação; morte e ressurreição, pois ainda há esperança e isto os poderosos não podem combater.

 

3.Quaresma é tempo de resistência. Numa sociedade cheia de contradições e de valores que agridem a dignidade humana, a resistência é palavra de ordem para a sobrevivência da humanidade. Ela faz brotar a solidariedade, a fraternidade, a tolerância e a paz. Ela faz a vida ter sentido e a luta a ter valor.

 

4.Quaresma é tempo de caridade. Já nem falo do amor para não correr o risco de banalizá-lo ainda mais, mas falo da caridade. Se não é possível amar conforme o mandamento de Deus, que pelo menos a caridade seja praticada para com os pobres, os diferentes, os opositores, os mais fracos, os marginalizados e os adoecidos. A caridade nos aproxima de Deus e nos humaniza.

 

5.Quaresma é tempo de preparação. Sim. Tempo de preparação para a ressurreição. Quem se arrepender de seus erros e pecados e evidenciar este arrependimento através de atos, experimentará a ressurreição, segundo as palavras do Cristo.

 

Portanto, o tempo de quaresma nos convida à reflexão, ao arrependimento, à resistência em favor da vida, à caridade e à esperança da ressurreição.

 

Boa quaresma.

 

Josué Adam Lazier

 

 

 

 

 



Escrito por Josué Adam Lazier às 19h47
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Cuidando das Pessoas

CUIDANDO DAS PESSOAS

 

Uma das preocupações que tenho enquanto uma pessoa de fé e atuante na educação e direitos humanos, passa pelo cuidado com as pessoas. Tenho lido em diversos periódicos líderes de diversas denominações, pedagogos e terapeutas abordarem este assunto, que tem tudo a ver com o momento em que nos encontramos na sociedade, onde as relações sociais são minimizadas e relativizadas.

 

O cuidado pastoral desafia a família, a escola e a igreja numa sociedade relativista, discriminadora, excludente e individualizante. Com o tema do cuidado junto às pessoas quero realçar diferentes ações que têm como objetivo construir o bem comum e forjar uma sociedade onde as relações sejam fraternas, solidárias e dignas.

 

Neste sentido, as questões relacionadas à emotividade, espiritualidade, família, trabalho, profissão, educação, aspectos psicológicos, mentais, físicos, emocionais, devem ser considerados, pois a pessoa é um ser integral e não pode ser tratada como seguidora de líderes personalistas que oferecem imediatismos, receituário para curas, para ganhar dinheiro, para arrumar casamento, para ser feliz, para comprar casa, para adquirir carro, tampouco mantras ou frases de efeito e de auto-ajuda.

 

A instituição familiar, eclesial ou educativa que vai alcançar as pessoas e ajudá-las na construção de uma história de transformação e construção da cidadania plena e para todos, é a que tiver cuidado com as pessoas em suas diferentes idades, experiências, potencialidades, bem como fragilidades e imperfeições.

 

A história está marcada por intolerâncias e discriminações e está manchada com muito sangue inocente derramado para expiar a insanidade de poderosos e as injustiças praticadas em nome de um deus que só vê os que “pensam que são”.

 

Que 2016 seja o ano do “cuidado junto às pessoas”, pois a sociedade será diferente e humanizada. Vamos seguir este caminho?

 

 

Josué Adam Lazier



Escrito por Josué Adam Lazier às 20h38
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Por uma teologia sobre o caráter cristão

POR UMA TEOLOGIA SOBRE O CARÁTER CRISTÃO

Pensamentos e Abstrações

 

Introduzindo o assunto

Tenho pensado no costume de se colocar adjetivos em alguns conceitos ou entendimentos teológicos. Desta forma, há várias teologias professadas e proferidas nos discursos e nos movimentos eclesiásticos e para-eclesiásticos. Sempre surgem entendimentos ou conceitos teológicos que recebem, em função de suas características, um nome. Cito como exemplo, a teologia da prosperidade, teologia da esperança, teologia da guerra espiritual, teologia de missões, teologia do caminho, e assim por diante. Gostaria de refletir sobre um conceito teológico que se coloca, invariavelmente, quando se considera a vivência cristã num mundo secularizado e marcado por um fundamentalismo religioso extremamente individualizado, ou seja, o conceito de caráter cristão.

Seria possível falar de uma “teologia do caráter cristão”? Seria possível caracterizar esta teologia e teria ela relevância na atual conjuntura e cultura eclesiástica? Para tratar deste assunto se faz necessário colocar algumas questões: Qual evangelho tem sido pregado em nossos dias? Quais são os frutos que acompanham a vida dos que proclamam o evangelho de Cristo? Como vivem os líderes da Igreja? Como a Igreja mede o sucesso de seus líderes? Qual o estilo de vida da liderança? Os líderes são avaliados pela sua fidelidade a Deus e aos compromissos assumidos ou pelos resultados obtidos numa perspectiva do mercado? Quem de fato é referência de vida cristã para os novos cristãos? A Igreja tem sido sal da terra e luz do mundo?

Ao definir caráter e caráter cristão, os bispos e bispa da Igreja Metodista assim se expressaram: “caráter é o conjunto de traços particulares relacionados ao aspecto moral do ser. O caráter cristão é o conjunto das características de que a Bíblia fala e que são inerentes a Jesus Cristo ou ao Espírito Santo e, conseqüentemente, deveriam ser parte da vida daqueles e daquelas que nasceram de novo e têm o Espírito Santo”.[1] Ao fazerem esta consideração esperam que todos os membros da Igreja evidenciem o caráter cristão.


 

Refletindo sobre os contornos de tal teologia

Gostaria de apresentar alguns contornos na busca por uma teologia do caráter cristão.

 

1. Uma teologia do caráter cristão deve levar em conta os referenciais bíblicos e teológicos que fundamentam a integridade da pessoa que exerce liderança e que vivencia o Evangelho de Cristo. Estes referências são encontradas nas cartas pastorais endereçadas a Timóteo e a Tito. O apóstolo, ao ensinar seus discípulos, elencou qualidades que devem acompanhar a vida dos líderes. Destaco as seguintes: irrepreensível, temperança, sobriedade, modéstia, hospitalidade, aptidão para ensinar, sem violência, sem contendas, sem avareza, vivência familiar equilibrada, maturidade, bom testemunho, respeitabilidade, sem ganância e sem arrogância, além de outras (I Tm 3.1-13).

 

2. Uma teologia do caráter deve considerar o referencial teológico e doutrinário deixado por João Wesley, ou seja, a santidade bíblica. Ele definia a santificação como amar a Deus de todo coração e ao próximo como a si mesmo.  Considerava o amor como prova suprema da presença de Deus e da Sua Ação na vida do cristão. Portanto, uma santidade que se concretizava em atitudes em relação ao próximo, atitudes de respeitabilidade, dignidade, tolerância, solidariedade, consideração e apoio.

Falar de amor nos dias de hoje é repetir um chavão pejorativo e que tem a ver mais com a própria pessoa. Assim, prefiro falar de caridade que apresenta um apelo que vai em direção aos outros e, desta forma, chega no amor abnegado revelado por Cristo na cruz do Calvário.

 

3. Uma teologia do caráter cristão deve assinalar a integridade que acompanha a vida de uma pessoa transformada pela Graça de Deus. A Graça de Deus é transformadora, capacitadora e, portanto, forjadora da integridade cristã. Integridade vem do latim integritate e significa qualidade de íntegro; inteireza; retidão; pureza. Já o termo íntegro significa inteiro; completo; perfeito; reto; imparcial; brioso.

Desta forma, a integridade começa com o cuidado que a pessoa tem consigo mesma, com as atitudes que toma, com a vida daqueles que estão próximos e com a vida daqueles que estão ao seu alcance. É a integridade física, moral, ética, relacional, familiar, profissional, social, etc.

 

4. Uma teologia do caráter cristão tem como contorno a espiritualidade, que não pode ser a estereotipada, a da moda, a que promove o ibope pessoal, a que atrai os holofotes, a que apresenta uma imagem superficial e enganosa da pessoa, a da dominação, do grito, da enganação. A espiritualidade na perspectiva de uma teologia do caráter é aquela que se evidencia através do cuidado pastoral, da alegria em servir a Deus em toda e qualquer circunstância e do discernimento maduro e comprometido com os valores do Reino de Deus.

 

5. Uma teologia do caráter cristão deve levar conta a dimensão pública. Não há liderança que possa ser desenvolvida sem a perspectiva da coletividade, da comunidade e da sociedade em geral. O que a pessoa é enquanto ser vivente e transformado pela Graça de Deus tem que ter respaldo no público da vida, no enfrentamento das questões contraditórias da vida, no testemunho e na defesa do direito e da justiça. Não é porque a pessoa se apresenta como alguém que tem a Graça e o Espírito de Deus que pode se colocar acima da lei e dos direitos dos outros.

 

6. Uma teologia do caráter cristão é alimentada na vivencia familiar e doméstica, onde a pessoa se desnuda e é conhecida pelas reações espontâneas e pelo que ela é “por dentro”. A teologia do caráter cristão começa no íntimo das relações familiares e conjugais, considerando que a família é um meio de graça.

 

7. Uma teologia do caráter cristão evidencia os valores do Reino de Deus, entre os quais a justiça é fundamental. A mensagem dos profetas ao longo do Antigo Testamento assinalava o direito e a justiça de Deus, onde o povo, em especial seus líderes, era exortado a viver e praticar a justiça.

 

Desafios para uma teologia do caráter

Esta teologia apresenta diversos desafios, tais como: Não conformação com os valores da pós-modernidade; Não conformação com os expedientes utilizados na política pela busca de espaços ou de poder, ou seja, mentiras, dissimulações, enganações, maldade, impiedade, roubo, imoralidade e outros; Renúncia às tentações por fama, riqueza, prestígio e holofotes; Negação do eu enquanto autopromoção e bem estar pessoal em virtude da experiência com a Cruz de Cristo que produz uma vida transformada e forjada para a humildade, para o serviço e para o testemunho cristão; além de outros.

 

Bispo Josué Adam Lazier

 

 

 

 



[1] Colégio Episcopal da Igreja Metodista, Caráter Cristão, São Paulo: Editora Cedro, pg. 8.



Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 14h00
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Eu tenho esperança....

EU TENHO ESPERANÇA. E DAÍ...

 

 

Gostaria de deixar uma mensagem de esperança. A esperança é um dos sinais da presença de Deus, ao lado da fé e do amor. Ela é sinal que o Reino de Deus está presente.

 

A educação numa perspectiva libertadora leva em conta a esperança para ver a pessoa-objeto se transformar em sujeito da sua história. Além disto, há a teologia da esperança e a pedagogia da esperança, pois sem ela a vida vira uma desgraça.

 

Não é fácil falar de esperança considerando as crises que estamos vivendo: crise de autoridade, crise de identidade, crise de confessionalidade, crise da integridade, crise da criticidade.

 

Mas vou me arriscar e dizer que a esperança é que nutre a fé e a espiritualidade. Sem esperança a fé fica utilitária e a espiritualidade fica sem chão. Ao contrário disto, quando há esperança a fé é comprometedora e a espiritualidade é transformadora, acolhedora e pedagoga.

 

Tenho esperança de que o Espírito de Deus não esteja entristecido e continue a se mover e a nos mover para a plena realização do Reino de Deus e da sua Justiça. Esperança de que a vida seja vivida dignamente.

 

Alguém vai dizer que estou virando um sonhador utópico. “Pode ser”, assumo a minha utopia. A minha utopia é a do Reino de Deus, ela é realizável. Não de forma mágica ou como um “maná” que cai do céu. Mas com trabalho, transformação, libertação, coragem, verdade, transparência, honestidade, dignidade, fraternidade, solidariedade, ecumenicidade, unidade, coisas que parece terem sumido com as crises, mas que continuam imersas em muitas pessoas de bem.

 

Eu tenho esperança. E daí? É aí que reside um grande diferencial para o enfrentamento das lutas da vida e o confronto com as injustiças que poderosos e endeusados promovem.

 

 

Josué Adam Lazier



Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 13h59
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Qual é o tom que deve reger a Igreja?

O TOM QUE DEVE REGER A IGREJA

 

Coloco a questão com uma pergunta: qual é o tom que deve reger a igreja? Com esta pergunta quero refletir sobre o que deve ser predominante na orientação da vida, da missão, da estrutura, dos concílios e toda a vida eclesial.

Nos últimos anos, o que inclui alguns Concílios Gerais, o tom que tem estado presente é o jurídico, ou seja, os advogados, juristas e conhecedores de leis do país e da Igreja têm tido uma participação destacada e cuja palavra tem determinado decisões e encaminhamentos tomados ao longo do tempo. Acontece que este não é o tom que deveria reger a Igreja. Esta fala não é minha apenas, pois já ouvi outras lideranças afirmarem isto. Logicamente que o jurídico é importante, especialmente numa sociedade que busca valorizar os direitos sociais e humanos e, para isto, a Igreja deve estar esclarecida e se manter em consonância com as leis que regem nosso país. Não há como ser diferente disto, mas o tom regente da Igreja deve ser outro.

O tom deve ser o teológico e missionário. Teológico no sentido da compreensão de Deus, da revelação divina e da Palavra de Deus. O conhecimento de Deus, do Evangelho e dos valores que advêm deste conhecimento forma o saber teológico da Igreja e, por conseguinte, orienta sua vida e missão. Missionário no sentido da ação e da presença pública da Igreja na sociedade, evidenciando compromissos com a justiça, sobretudo na perspectiva do Reino de Deus e se fazendo presente na denúncia, no anúncio e na ação restauradora, evangelizadora e transformadora da sociedade. Neste sentido, o teológico-missionário é o tom que deveria orientar o todo da Igreja, seus concílios, suas doutrinas, sua organização e estrutura, etc.

A Constituição da Igreja assim se expressa: “A Igreja metodista tem como principal missão participar da ação de Deus no seu propósito de Salvar o mundo. A Igreja Metodista faz isto realizando cultos, pregando o evangelho, ministrando os sacramentos, ensinando os membros da igreja e capacitando-os para os diversos ministérios” (Art. 3º da Constituição da Igreja Metodista).

Já o Plano para a Vida e Missão da Igreja se expressa assim: “A missão de Deus no mundo é estabelecer o seu Reino. Participar da construção do Reino de Deus em nosso mundo, pelo Espírito Santo, constitui-se na tarefa evangelizante da Igreja” (Plano de Vida e Missão).

Sendo assim, o tom seria o teológico e missionário e não o jurídico, como parece estar acontecendo nos últimos anos. O jurídico orientaria a Igreja para que suas leis e decisões estivessem em acordo com o que prescreve a Constituição Brasileira e suas leis e para que não tivéssemos que passar pela experiência de ver a Justiça Comum julgando a Igreja e, em muitas ocasiões, insinuando ou mesmo afirmando que a Igreja está equivocada. Mas o tom, o diapasão que rege a Igreja deve ser o teológico e missionário, conforme nossos documentos, em outras palavras, a MISSÃO segundo ela é entendida de forma conciliar, descrita nos documentos da Igreja e fundamentada na tradição bíblica com ênfase wesleyana.

Ao definir a sua missão a Igreja o faz a partir de um conceito bíblico-teológico mais amplo e abrangente do que a vida eclesial, ou seja, o Reino de Deus. Neste sentido, vale ressaltar que a Igreja existe para o cumprimento de sua missão, ampla e abrangente, e não apenas para o crescimento numérico como pensam algumas pessoas em nossa Igreja. O crescimento numérico seja na forma de novos membros, de arrecadação ou de freqüência as atividades da igreja, são conseqüências do cumprimento cabal da missão, mas não se pode minimizar a confessionalidade da Igreja em termos de números.

Portanto, o tom que deve reger a Igreja é o teológico e missionário, cujo eixo principal é Reino de Deus. Que assim seja.

 

 

Bispo Josué Adam Lazier



Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 13h57
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Da visão ou Di + Visão

DA VISÃO OU DI + VISÃO

Conjecturas e nada mais

 

 

Perguntaram-me se eu sou da “visão”. Esta pergunta me problematizou. Não sabia de qual “visão” estavam falando: seria a Visão Mundial, a visão celestial do apóstolo Paulo ou a visão tipo um visionário.

 

Matreiramente, antes de responder, pois hoje as portas, janelas e paredes têm ouvido, procurei esclarecimento: descreva a “visão”, pedi ao interlocutor. Ele me descreveu. Pedi mais esclarecimentos, pois queria me atualizar.

 

Fui informado que há uma “visão” que alguns receberam de Deus e estão implantando (ou seria plantando?) nas igrejas e que todos os membros, pastores, pastoras, bispos, bispas, apóstolos, e outros mais, teriam que recebê-la, pois se trata de uma nova “visão” que a igreja tem.

 

Bem, já que o assunto tinha começado, continuei a conversa: como ficará a situação dos que não receberam a tal “visão”? Serão excluídos, pois não há lugar para quem não é da “visão”, afirmou o interlocutor. Logo descobri que não sou da “visão”. Mas, para matar a curiosidade, não me contive e fiz mais perguntas e acabei por descobrir que há mais de uma “visão”, mas que estas estão relacionadas entre si e que no fundo é a mesma coisa.

 

Para encurtar a conversa, me contive e lamentavelmente concluí: não é uma “visão” e sim movimentos batizados por diferentes nomes que são apresentados como um modelo formatado de coisa nova, mas em roupa velha, pois preconceitos, desrespeitos, falta de ética e moral, continuam sendo praticas correntes entre os da “visão”.

 

Em minha defesa, como um não da “visão”, recorro ao discurso do apóstolo Paulo perante o rei Agripa, quando ele resume o seu trabalho e defende seu apostolado dizendo que simplesmente foi “fiel à visão celestial que recebeu de Deus” (Atos dos Apóstolos, 26.19).

 

A visão celestial do apóstolo pode ser descrita com as palavras de Romanos 1.16-17: “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: o justo viverá por fé”. Isto sim é visão, o resto, me desculpem os da “visão”, é di+visão.

 

Tenho dito...

 

Josué Adam Lazier

 

 

 

 

 



Categoria: Reflexões
Escrito por Josué Adam Lazier às 13h56
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Quando a Igreja precisa ir para o Divã

QUANDO A IGREJA PRECISA IR PARA O DIVÃ

 

Quando ela deixa de perceber que mesmo entre seus principais membros há pessoas que estão lutando com dilemas, dúvidas, incertezas, inseguranças e decepções;

Quando ela deixa de perceber que ao seu redor há sinais de morte e violência e faz de conta que não é com ela;

Quando ela não deixa que pessoas que professam cultura, rito ou mito diferente dos seus se integrem plenamente em sua vida e missão;

Quando ela não consegue estender a mão para as pessoas cujas mãos estão machucadas, calejadas, trêmulas e manchadas pelas lutas da vida e dureza dos dias;

Quando ela não percebe que as famílias se desencontram, mesmo quando vão aos encontros de casais, porque não sabem como lidar com o contraditório e com a contrariedade;

Quando ela não se dá conta que mesmo entre sua liderança há sinais de imobilidade, passividade e prostração ante os dilemas que os dias de hoje apresentam aos líderes cristãos;

Quando ela não consegue gritar contra a violência que atinge a mulher, a criança, o idoso e os menos favorecidos, como se ela estivesse em outro mundo que não o da realidade;

Quando ela confunde colheita com poda e se vale do Evangelho de Cristo para pautar esta ação espúria;

Quando ela não vê que seus servidores, no caso pastores e pastoras, estão adoecendo e adoentando outros, com suas loucuras em nome de um evangelho que não tem nada com o pregado por Cristo;

Quando não se dá conta que ela deveria ser uma comunidade terapêutica e não uma associação de esquizofrenia alimentada pela idéia de que Deus concorda com suas teorias individualistas, intolerantes e homogeneizadas;

Quando a morte, a dor do outro, o lamento, a murmuração do próximo, não alcançam os que deveriam atuar terapeuticamente, mas que agem pateticamente;

Quando o grito, o choro, o ranger de dentes são transformados em manifestação divina, enquanto a quietude, a reverência, a contemplação são tomadas como falta de experiência religiosa;

Quando a Igreja se referencia na máxima de Maquiavel “os fins justificam os meios” e não sente o constrangimento que o Espírito Santo produz por esta quebra de princípio do Evangelho;

Quando ela disciplina os membros “pequeninos” e não faz o mesmo com os que estão entre a liderança maior da Igreja;

Quando o pastoreio é virtual;

Quando o fundamento dos apóstolos ficou sendo somente dos apóstolos;

Quando o “ai daquele” proclamado pelos profetas ganha relevância entre os chamados líderes cristãos cujas práticas merecem um “ai daquele”;

Quando o vale tudo condenado pela ética da sociedade acaba valendo tudo no aconchego dos espiritualizados;

Quando ela perde o senso da misericórdia;

Quando o amor vira tema dos cânticos “espirituais” e neles fica cativo;

A Igreja que deveria ser terapêutica precisa ir para o divã quando o Cristo da fé, o Jesus de Nazaré, bater à porta da Igreja pedindo acolhida. Ele, com certeza, estará acompanhado daqueles que não puderam adentrar no átrio da Igreja porque não eram os “escolhidos”.

 

Josué Adam Lazier

 

 

 



Escrito por Josué Adam Lazier às 13h55
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