Reflexões e ponderações com Josué Adam Lazier

Tu, porém


 
 

É belo servir ao próximo

 

É BELO SERVIR AO PRÓXIMO


Vivemos numa sociedade onde as coisas são avaliadas pelos resultados, pelos índices de popularidade, pelo poder de compra e aquisição, pelo ter, pelo possuir, onde o princípio do serviço na perspectiva do Evangelho de Cristo é algo ultrapassado.

 

Vivemos numa sociedade onde se busca levar vantagem em tudo e ter sucesso a qualquer preço, onde o espírito do serviço é relegado para os considerados “fracos” e “débeis”.

 

Vivemos numa sociedade que se caracteriza em criar estereótipos e modelos que identificam “vencedores” e ridicularizam “vencidos”.

 

Vivemos numa sociedade que influencia os diferentes segmentos, inclusive a própria Igreja de Cristo, em suas diferentes cores denominacionais, que tem perdido a perspectiva da sua missão em ser sal da terra e luz do mundo.

 

Aliás, isto não é novo, na sociedade do primeiro século da Era Cristã, os movimentos de exaltação do ser humano como semideus estava presente e criava slogans e doutrinas acerca da individualidade humana, ou do servir-se do outro ou do que é de outrem.

 

No entanto, mesmo que pareça romantismo, extraímos do texto bíblico que servir ao próximo é algo belo, bom, bonito, agradável, vantajoso, melhor do que qualquer outra coisa. Estes são os significados da palavra grega kalós que aparece, entre outros textos, em I Pedro 4.10.

 

Neste versículo que saiu da pena do apóstolo Pedro aparece além da palavra kalós, os termos que se traduzem por dom, serviço e mordomo, respectivamente xárisma, diakonia e oikonómoi.

 

São quatro palavras em apenas um verso, mas que dizem muito acerca do serviço, ou do ministério, ou mesmo da vocação, porque todos foram vocacionados por Deus para viver a vida de forma digna e servir uns aos outros em todo o tempo.

 

A recomendação do apóstolo Pedro é para que todos façam isto a partir do dom que receberam e o façam como bons despenseiros de Deus. Em outras palavras, ele está propondo um princípio norteador que afete as relações humanas, sejam em que contexto for, pois o importante é servir e servir é bom.

 

A palavra grega kalós tem a sua origem no verbo kaléo, que por sua vez indica o ato de chamar, de nomear alguém para uma função ou convocar para uma determinada missão.

 

O termo grego kléseos, traduzido costumeiramente por vocação, também tem sua origem no verbo kaléo. Em outras palavras, o que está sendo dito é que a vocação é bela, é bonita, é prazerosa, é vantajosa, sobretudo porque ela se dá no contexto ou na missão de servir aos outros.

 

O apóstolo Pedro, em sua experiência de vida e ministério, sabiamente recomendou aos líderes que exercessem o dom que receberam não constrangendo as pessoas, tampouco com ganância, soberba e dominação. Ele chega a utilizar a palavra “sórdida” (I Pedro 5.1) para se referir a estas atitudes reprováveis e inaceitáveis na vida de um líder. Exercer qualquer tipo de liderança com estes adjetivos é perder completamente a perspectiva divina da beleza do serviço voltado para o bem dos outros.

 

Ah! Temos tanto a aprender sobre isto. Seria mais fácil para os líderes exercerem suas responsabilidades se adotassem este princípio da beleza do serviço e se dedicassem para promover o bem de seus liderados. Seria mais fácil para os sacerdotes cumprirem com seus ministérios se perceberem suas ovelhas como seres humanos para os quais podem oferecer a “gratuidade” do carisma que receberam de Deus. Seria mais fácil para governantes cumprirem, ao menos uma parte, de tudo aquilo que prometem e juram fazer ao assumirem os seus cargos. Seria mais fácil para os líderes revolucionários motivarem as pessoas a lutar pelos seus direitos se houvesse mais alegria e prazer naquilo que se faz.

 

Como afirmou Hugo Assmann, “precisamos recuperar o saboreamento da graça naquilo que fazemos. Revolucionários tristes só podem fazer tristes revoluções”. A sociedade precisa da graça, da beleza, da alegria do ato de servir uns aos outros. Este é um caminho de libertação e transformação.

 

Bispo Josué Adam Lazier

 

ASSMANN, Hugo. Metáforas novas para reencantar a educação. Piracicaba, SP: Editora Unimep, 1996.

 

GINGRICH, F. Wilbur. Léxico do Novo Testamento: grego – português. São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1984.

 

RIENECKER, Fritz e ROGERS, Cleon. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1985.

 

 



Escrito por Josué Adam Lazier às 22h47
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A liturgia da vocação

 

Liturgia da vocação

Atos 9.1-19

 

 

Encontramos no presente texto o que poderíamos chamar de “liturgia da vocação”. Entendo por liturgia, neste caso, os momentos específicos na vida da pessoa após a experiência cristã. Partindo da experiência de um dos mais eminentes representantes do cristianismo primitivo, o apóstolo Paulo, eu vou registrar alguns pensamentos sobre o tema, entendendo vocação como o “ato de sair de si mesmo para servir àquele que chamou”.

 

Paulo nasceu na cidade de Tarso, região da Cilicia, Ásia Menor, atualmente conhecida como Turquia. Tarso era uma grande cidade com 300 mil habitantes. Paulo foi criado num importante centro cultural e comercial do mundo da época, tornando-se um advogado romano. O apóstolo recebeu sua formação básica na casa dos pais, na sinagoga e na escola. Além disto, foi educado na cidade de Jerusalém, estudando aos pés de Gamaliel, um rabino muito famoso na época. Paulo tornou-se um fabricante de tendas, ofício que aprendeu com seu pai. Era cidadão romano e, como tal, membro oficial da cidade. Os seguintes títulos colocam Paulo entre a elite: cidadão romano, líder nato, membro ativo da comunidade, formado para tomar conta da oficina do pai. Quando completasse 40 anos de idade poderia vir a ser um importante rabi, quem sabe um dos mais eminentes. Mas o que aconteceu com este jovem de futuro promissor?

 

Os projetos pessoais - v.1-3

Paulo seguia o caminho que havia escolhido que era o de prender seguidores do Galileu que havia sido crucificado na cidade de Jerusalém. Para Paulo, estes seguidores eram hereges e precisavam ser detidos de qualquer maneira. Antes de seguir para Damasco prendeu e convenceu os juízes a condenarem um jovem chamado Estevão, filho de família proeminente em Israel e conhecidos da família de Paulo. O plano de Paulo foi interrompido quando uma luz estranha brilhou à sua frente enquanto viajava com o intento de prender e levar à condenação outros seguidores de Cristo.

 

Experiência com o “eu sou” - v. 4-9

Paulo tem a sua experiência de conversão no momento em que se encontra munido de ofícios que o permitiam prender os cristãos. Ele não entendia o que estava acontecendo, nem seus amigos conseguiram identificar aquela luz. Ao observá-la, prostrou-se em terra cego e assombrado com o fato. Momentos depois da experiência, Paulo soube quem estava por trás daquela luz: Eu sou (v. 5). Ele não conhecia a Cristo, a não ser pelas notícias que recebera. Talvez tenha visto Jesus de longe quando era um peregrino em Jerusalém. Mas Paulo conhecia o Eu sou. Sabia que a luz era coisa de Deus. Até então Paulo achava-se zeloso pelas coisas de Deus, na perspectiva em que ele havia sido educado, e bem educado, no caso a lei judaica. Mal sabia que passaria pela experiência de conhecer aquele em nome de quem realizava as prisões.

 

Paulo conhecia a expressão porque ela foi feita por Deus pela primeira vez no momento da vocação de Moisés. Ao vocacioná-lo, Deus se revelou a Moisés como o Eu sou e afirma que estaria sempre presente. Com isso mostra a Moisés as implicações de sua vocação. Para servi-lo precisava aprender a depender totalmente de Deus. E assim esteve Paulo, dependente de Deus, reduzido a nada, fazendo jejum e oração, esperando o tempo de Deus. Foi uma longa espera até que passasse a exercer o seu ministério.

 

A experiência da vocação - v. 10-16

Deus falou a Ananias que Paulo era um “vaso escolhido”. Trata-se do barro nas mãos do oleiro preparado para ser um instrumento útil. Apesar de sua formação e experiência, Paulo era um vaso de barro moldado pelo artista, o que significa que não era nada diante do tesouro que carregaria e do poder do artista que o modelava. Quando Paulo entendeu isto? Após passar por várias experiências que o fizeram compreender esta verdade. Somente o barro que se submete às mãos do artista pode vir a ser útil ou somente o ferro que se submete ao calor da fornalha e as batidas da bigorna poderá ser aproveitado. Este é o terceiro momento. No primeiro Deus interrompe os projetos pessoais e amplia as possibilidades de serviço. No segundo Deus se revela. No terceiro momento fico o desafio para a pessoa escolher o caminho que seguirá: guardar para si a experiência ou se comprometer com a vocação que recebeu de Deus. Deus não escondeu de Paulo as lutas e dificuldades que ele teria de enfrentar (v. 16) e em todos os momentos a graça de Deus fortaleceu o apóstolo.

 

Aprender com os discípulos - v. 17-19

Paulo enfrentou certa resistência da igreja durante alguns anos. Era perseguidor e agora se apresenta como um convertido. Os cristãos primitivos ficaram com medo, mas Paulo passou a conviver com eles e evidenciar os frutos de uma vida transformada pela Graça de Deus.

 

Eis o quarto momento desta liturgia: aprender com os discípulos, ser discípulo entre os discípulos. É muito comum alguém considerar-se plenamente preparado para a obra ou então pensar que em função da vocação sabe tudo e não precisa aprender com os outros. Ledo engano. Paulo passou cerca de dez anos entre esta experiência e seu ingresso na Igreja de Antioquia como ajudante de Barnabé. Dez anos freqüentando cultos, reuniões de oração, escola dominical, vigílias, sentado para ouvir os líderes da igreja, pregando nos bairros mais pobres e congregações. Era necessário ser moldado por muito tempo, pois seu ministério necessitaria de um homem forjado para as lutas.

 

Conclusão

O capítulo 9 de Atos dos Apóstolos relata a vocação de Paulo. Os capítulos 22 e 26 apresentam sua versão sobre esta vocação. Vejamos algumas lições tiradas do estudo dos três textos, principalmente 9.1-19:

 

Vocação não significa concordância de Deus com os projetos e desejos pessoais. Muitos se enganam com isto, pensando que por desejarem servir a Deus Ele estará sempre de acordo com os seus projetos pessoais.

 

Vocação significa renúncia a muitos sonhos e projetos pessoais, pois Deus incute no coração do vocacionado novos sonhos relacionados com a missão. Os que não conseguem renunciar a projetos pessoais terão dificuldades em cumprir cabalmente seu ministério e chamado.

 

Vocação implica em aprendizado. Nenhum vocacionado está liberado do estudo e da formação. O aprendizado tem dia para começar, mas não tem dia para terminar. O vocacionado que não se submete ao aprendizado sistemático e diligente será um ministro indisciplinado e ineficiente.

 

Vocação significa servir a Deus quando e onde Ele quer. O servo está sempre disponível para ser enviado. Não há compatibilidade entre vocação e disposição para servir a Deus somente quando e onde a pessoa quer.

 

Vocação significa um chamado especial e uma capacitação extraordinária dada por Deus para todos os membros da igreja. Não são vocacionados somente os bispos, pastores e pastoras, mas todos os membros da Igreja são chamados a servir a Deus através de seus talentos e dos dons do Espírito Santo.

 

Bispo Josué Adam Lazier



Escrito por Josué Adam Lazier às 18h34
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Tem dó...

Exercitar a piedade

1Tmóteo 4.7b-8

 

 

Esta recomendação do apóstolo Paulo aos seus discípulos, em especial a Timóteo, faz parte de um conjunto de orientações ministeriais dadas aos jovens seguidores e aos líderes da Igreja, sobretudo da Igreja em Éfeso. Elas são feitas num contexto de convivência, de diálogo e de discipulado, onde a vida era confrontada com os valores que a Palavra de Deus apresentava para os cristãos. Portanto, são relevantes para nós hoje.

 

Neste bloco de orientações encontra-se a que está em destaque. Normalmente entende-se piedade como dó. FERREIRA define assim a palavra: “1. Amor e respeito às coisas religiosas; religiosidade; devoção; 2. Pena de males alheios; compaixão, dó, comiseração”[1]. Este é o senso comum acerca desta palavra.

 

Já o termo grego “eusebeia”, traduzido por “piedade” e de acordo com o contexto, significa “atitude religiosa no sentido mais profundo, a reverência a Deus que advém do conhecimento Dele... conota a seriedade moral, que afeta o comportamento externo bem como a intenção interior[2].

 

O sentido bíblico da palavra vai além do sentimento de dó ou de piedade, indica uma atitude moral e ética, um comportamento transformado pelo conhecimento de Deus e pela reverência a Deus. Assim, é mais do que dó, é ação em direção aos que causam “dó” ou “piedade”. Por se tratar de uma atitude que evidência o caráter cristão, esta ação é acompanhada de um exercício de humildade e de entrega. Para STOTT, se trata de “uma mistura de temor e amor que, juntos, constituem a devoção do homem para com Deus”[3].

 

A figura utilizada pelo apóstolo para ilustrar o exercício é a dos atletas que participavam dos jogos nas grandes cidades da época, como era o caso de Éfeso. Os atletas se submetiam a um treinamento rígido para alcançar os objetivos. O exercício da piedade cristã é acompanhado de dedicação e disciplina por parte dos discípulos de Jesus.

 

FOSTER define o exercício da piedade chamando-o de meditação. Assim se expressa: “a meditação não é um ato simples, nem pode ser completada da forma como se completa a construção de uma cadeira. É um modo de vida. Você estará constantemente aprendendo e crescendo à medida que penetra as profundezas interiores”.[4]

 

Espiritualidade tem a ver com a vida integral da pessoa em sociedade. Devemos considerar que a espiritualidade acontece em meio à vida concreta e não imaginária. Ela se evidencia na vivência do Evangelho, na prática do serviço cristão, no cumprimento das responsabilidades, na luta pelo direito e pela cidadania, na evangelização, no testemunho, na vida familiar, etc. Ninguém se tornará “mais espiritual” pelo escapismo, através do intimismo ou do individualismo, mas sim pelo exercício da piedade, ou seja, das atitudes de uma vida marcada pelo amor, pela moral, pela ética, pelo respeito, pela dignidade, pela valorização da vida, pela ternura e pela responsabilidade cidadã.

 

Assim, o exercita-te na piedade tem um tom pastoral, exortativo e catequético, pois ensina aos que exercem liderança que não basta ter uma espiritualidade centrada na devoção, mas é fundamental que esta espiritualidade esteja centrada no desenvolvimento do caráter cristão que se traduz em atitudes éticas, morais, justas, dignas, solidárias, fraternas, tolerantes e honestas.

 

Bispo Josué Adam Lazier

 

 



[1] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, RJ: Editora Nova Fronteira, 1986, p. 1327.

[2] KELLY, L.N.D. I e II Timóteo: introdução e comentário. São Paulo, Mundo Cristão, 1983, p.65 (Série Cultura Bíblica)

[3] STOTT, John. A Mensagem de I Timóteo e Tito. Paulo, ABU, 2004, p.117.

[4] FOSTER, Richard J. Celebração da disciplina. São Paulo, Vida, 1983, p.46.



Escrito por Josué Adam Lazier às 20h34
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CARTA DIRIGIDA AO COLÉGIO EPISCOPAL EM 09 DE JUNHO DE 2008

 

Ao Colégio Episcopal da Igreja Metodista

 

E a graça foi concedida a cada um de nós segundo a proporção do dom de Cristo” (Ef 4.7)

 

Tenho aprendido através dos estudos que todo relato escrito ou oral é acompanhado de subjetividade. Tenho aprendido também que o historiador, ou leitor e ouvinte do relato escrito ou oral, também o faz com subjetividade. Desta forma, tudo parece ser relativo. Mas, mesmo considerando a subjetividade e a relatividade, não poderia deixar de escrever algumas linhas para, quem sabe em algum dia do futuro alguém lê-las, caso elas estejam nos anais da nossa Igreja, julgá-las com o mínimo possível de subjetividade e compreender melhor a gênese das minhas preocupações.

Preocupa-me a crise da UNIMEP no que diz respeito à presença pública e testemunho público da Igreja Metodista em Piracicaba e micro-região, diante dos encaminhamentos administrativos, embates políticos, disputas judiciais, condenações judiciais da Instituição e outros fatos, que acabam por atingir a imagem dos metodistas na cidade. Não estou entrando no mérito das decisões dos mandatários da Instituição, estou focando a face pública que está delineando e caracterizando a Igreja Metodista na cidade e micro-região. Talvez nem todos saibam, mas a UNIMEP é como uma extensão da família das pessoas que trabalham na Instituição e há um grande envolvimento de toda a cidade com os acontecimentos que envolvem a Universidade. A Universidade metodista é também uma realização da sociedade piracicabana e não apenas missão da Igreja Metodista.

Logicamente que há todo um embate político envolvendo a crise da UNIMEP, mas está evidente que não estamos conseguindo trabalhar estas questões políticas, institucionais, ideológicas, etc, sem atingir a missão metodista nas cidades ao entorno da UNIMEP e, em particular, dos metodistas que residem em Piracicaba e que têm o dever de dar um testemunho evangelizador público e transformador. Não dá para simplificar a situação apenas pelo viés político, pois o político está presente em todos os momentos da vida e em todas as instituições, mesmo nas pequenas famílias. Penso que está se formando uma “dívida moral” e que deverá ser paga pela membresia de nossas igrejas, em sua grande maioria gente trabalhadora e doadora do seu tempo, recursos e talentos para servir a Deus e cumprir com a missão metodista.

O último evento, demissão do Diretor do Colégio Piracicabano, prof. Almir Linhares, trouxe para a crise pessoas que estavam distante da mesma e que procuram o Colégio pela qualidade ou pela tradição que ele evidencia. A “comoção” que tomou conta dos pais e professores atingiu crianças e adolescentes que estudam no Colégio. As crianças não deveriam, mas já estão vivendo as tensões de uma crise que parecia distante delas e que chegou repentinamente. Este fato envolvendo o Colégio Piracicabano tende a potencializar a crise.

A Igreja Metodista está presente há mais de 120 anos na cidade de Piracicaba e região. Há uma história de vida construída. Talvez eu esteja exagerando, por causa da tal subjetividade, mas a missão dos metodistas na cidade está ficando comprometida. Sei que outras pessoas também têm este mesmo sentimento. Uma vez mais reafirmo, não estou entrando no mérito da administração da Instituição, mas o espaço para o diálogo, para o encontro, para a reconciliação e para a superação dos problemas está ficando cada vez mais distante.

Neste sentido, além de todo o trabalho já realizado pelo Conselho Diretor, Direção Geral e Pastoral Escolar e Universitária, penso ser de suma importância que o Colégio Episcopal tome outras iniciativas enquanto há tempo a fim de buscar a restauração da convivência pacífica, da comunhão e do diálogo, do resgate da dignidade das pessoas, da idoneidade da Instituição e da Igreja, da legitimação dos documentos da Igreja, da cura e reconciliação de acordo com o Evangelho de Cristo, do fortalecimento da presença pública da Igreja e do testemunho transformador na perspectiva da graça de Deus, seja na sociedade, instituição e comunidades locais. O Colégio Episcopal não pode se furtar aos desafios que se colocam diante de nós e, em obediência aos documentos que fundamentam a missão e o testemunho evangelizador da Igreja, atuar para sanar a crise enquanto ela não se avoluma.

 

Que Deus nos dê a Graça para o pastoreio e para o discernimento desta situação.

 

Piracicaba, 09 de junho de 2008

 

Josué Adam Lazier

Bispo Honorário



Escrito por Josué Adam Lazier às 10h04
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O JOVEM TIMÓTEO

FILHO E SERVO

I Tm 1.1

 

Timóteo nasceu na cidade de Listra, localizada num planalto de cerca de 900m de altitude, no centro da Ásia Menor. A cidade era muito pobre e os bandidos, na época, costumavam se refugiar lá. Timóteo converteu-se na primeira viagem de Paulo, quando o apóstolo esteve na cidade de Listra anunciando o Evangelho (At 16.1-4).

 

A mãe de Timóteo, Eunice, era uma judia temente a Deus. Sua avó, Lóide, também era uma mulher temente a Deus. Ambas foram exemplos para o jovem convertido e vocacionado que, percebendo a fé autêntica das progenitoras, se tornou igualmente um cristão de fé autêntica (2 Tm 1.5). O pai era um grego, mas não impediu que Timóteo fosse instruído nas Sagradas Escrituras (2 Tm 3.15).

 

Timóteo era um jovem vocacionado para o ministério pastoral (1 Tm 4.14 e 2 Tm 1.6). Recebeu a incumbência de pastorear a Igreja de Éfeso (1 Tm 1.3), mas parece que tinha preferência por Filipos (Fp 2.19-20).  Entre as responsabilidades de Timóteo, podemos destacar as seguintes: combater os falsos pregadores que perturbavam a igreja; orientar sobre a ordem no culto; ordenar os líderes da igreja; criar o ministério de atendimento às viúvas; ensinar a fé, as doutrinas e as obrigações éticas e morais[1]. Ou, seguindo o texto de 1 Timóteo, impedir que alguns ensinassem doutrinas diferentes (1.3), instruir (1.8), ensinar (4.6,11), proclamar (4.11), exortar (5.1), ordenar (5.7), repreender (5.20), admoestar (6.17), etc.

 

Antes de assumir as responsabilidades pastorais, Timóteo foi companheiro de Paulo por muito tempo. Estima-se em 15 anos o tempo empregado por Paulo para discipular Timóteo. Uma das razões da escolha era que, em Listra e Icônio, davam um bom testemunho a seu respeito (At 16.2). Paulo chama-o de verdadeiro filho na fé (1Tm 1.1).

 

Nos textos de Paulo, filhos dele são aquelas pessoas que ele gerou para a fé em Jesus Cristo. Ou seja, sente-se pai e mãe de todos os que, pela ação e testemunho dele, aderiram a Jesus Cristo pela fé. É o que podemos ver, por exemplo, em 1 Tessalonicenses 2.7-,11-12; 2Coríntios 12.14-15. Gálatas 4.19, Filemom 10. Timóteo, apesar de ter sido educado na fé pela avó e pela mãe (veja 2 Timóteo 1.5), é considerado ‘filho’, sinal de que entre o autor e o destinatário da carta há uma relação forte (veja o que se diz de Timóteo em Atos 16.1-5)”.[2]

 

Como companheiro de Paulo, ele o representou em Tessalônica e depois levou notícias ao apóstolo (1 Ts 3.2-6). Fez isto com a igreja de Corinto também (1 Co 4.17). Além disto, teve participação na evangelização e fundação de algumas igrejas. Por isso, é chamado de “amigo nas lutas” (Cl 1.1, Fp 1.1 e Fm 1). Ele assumiu suas responsabilidades e Hebreus 13.23 informa que foi preso e recentemente libertado. Isto nos leva a pensar que Timóteo, por sua liderança na Igreja de Éfeso, acabou preso, como muitos outros líderes, e agora, para alegria dos irmãos, estava liberto.

 

Paulo costumava dirigir-se ao discípulo chamando-o de servo (1 Tm 4.6), usando a expressão “diácono”, normalmente traduzida por “ministro”. Vários termos gregos apresentam o conceito de “servir” no Novo Testamento: douleuo - servir como escravo; therapeuo - cuidado e preocupação presente no ato de servir; latreuo - servir por salário; leitourgeo - serviço oficial e público do povo e do Estado (no caso do cristianismo, significa o serviço da Igreja); hypereteo - designa a relação do escravo para com o senhor e significa, literalmente, “remar”; diakoneo­ - serviço prestado por amor.[3] A palavra mais usada é a diakoneo, seguindo seu uso corrente, que indicava aqueles que serviam à mesa, ou seja, os servidores. Filipenses 1.1 e 1 Timóteo 3.8-12 fazem referências aos diáconos, indicando pessoas que assumiam determinados encargos na comunidade cristã.    

 

Qual era, portanto, o perfil do jovem discípulo Timóteo? Alguns textos definem-no: tímido e receoso (1 Co 16.10); jovem (1 Tm 4.12, 2.22); doente (1 Tm 5.23); emotivo (2 Tm 1.4); cauteloso em demasia (2 Tm 1.7); cooperador (Rm 16.21); filho amado e fiel (1 Co 4.17); cuidadoso com os filipenses (Fp 2.20); caráter provado (Fp 2.22); fé sem fingimento (2 Tm 1.5); conhecedor das Escrituras (2 Tm 3.15). Essas qualidades e características revelam uma pessoa frágil e vulnerável como as outras, mas com o carisma da vocação  e do serviço cristão.

 

 

Bispo Josué Adam Lazier



[1] STOTT, John. Tu, porém: a mensagem de 2 Timóteo. São Paulo, ABU, 1982, p.7.

[2] BORTOLINI, José. Como ler a Primeira Carta a Timóteo. São Paulo, Paulus, 2001, p.20.

[3] BEYER, Hermann Wolfgang. “Servir, serviço, diácono”, em KITTEL, G. A Igreja no Novo Testamento. São Paulo, Aste, p.273.



Escrito por Josué Adam Lazier às 21h30
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Carisma e integridade

INTEGRIDADE X CARISMA

PRINCÍPIO OU IMPERATIVO?

 

Tu, porém 6 – carisma do ministério pastoral

 

 

Tenho refletido sobre o tema do carisma no ministério pastoral e há muitos colegas que têm me acompanhado nestas reflexões. Volto ao tema para falar da integridade. Seria ela um princípio de vida ou um imperativo que acompanha o carisma? Vejamos o texto de Mateus 6.19-24:

 

Integridade vem do latim integritate e significa qualidade de íntegro; inteireza; retidão; pureza. Já o termo íntegro significa inteiro; completo; perfeito; reto; imparcial; brioso.

 

O primeiro aspecto na integridade do ministério pastoral é a questão dos tesouros (Mt 6.19-24). O foco está na relação da pessoa com as coisas que possui, ou as atitudes que toma e os pensamentos que tem. Jesus não condena o dinheiro em si, mas o apego a ele. A expressão tesouro evidencia coisas muito importantes para alguém. Está incluído o status, a posição social, a busca pelo poder. Portanto, ajuntar tesouros no céu é fazer coisas na terra cujos efeitos durem por toda a eternidade[1]. Trata-se do exercício de uma liderança no estilo de Jesus, que fez do Reino de Deus prioridade.

 

Outro aspecto da integridade está nos versículos 21 e 24: “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” e “ninguém pode servir a dois senhores”. O verbo servir é muito forte na tradição bíblica, pois o povo de Deus foi chamado para servi-lo. Esta obediência está em relação direta com o “coração”, pois o que “fazemos é o resultado do que pensamos; portanto, o que irá determinar nossas vidas e o exercício das nossas vontades é o que pensamos, e isso por sua vez é determinado por onde está nosso coração – tesouro”.[2]

 

Um ministério pastoral íntegro não está dividido entre dois senhores, tampouco age de maneira hipócrita, tentando mostrar o que de fato não é. O apóstolo Paulo usa a expressão irrepreensível para transmitir a Timóteo esta qualidade (I Tm 3.2). Ser irrepreensível significa ter uma boa reputação. Esta foi uma das razões que motivou Paulo a levar consigo Timóteo, pois em Listra e Icônio as pessoas davam bom testemunho acerca dele (Atos 16.2). O importante no caso de Timóteo é que as pessoas falavam sobre ele; era mais de uma pessoa que falava e em dois lugares, Listra e Icônio. Quando a Igreja Primitiva enfrentou um problema na organização e atendimento das pessoas, os apóstolos recomendaram que fossem escolhidos sete homens de “boa reputação”, ou seja, homens íntegros (Atos 6.3).

 

Paulo demonstra integridade no exercício do seu ministério e no relacionamento com os cristãos (I Ts 2.3-8). Integridade não deve ser vista aqui como perfeição ou ausência de erro, mas, sim, a capacidade de atingir os objetivos sem corrupção ou enganos.

 

 Vejamos como esta integridade se apresenta no texto: a) verso 3 - a pregação não foi baseada  no engano, impureza e dolo - engano no sentido de “desviar do caminho”, “iludir”, “seduzir (para o erro)” ou “levar ao erro”;  impureza no sentido de “más intenções”   e  dolo no sentido de “falsificação” ou “adulteração”. Pelo contrário, a pregação era o anúncio dos oráculos de Deus para seu povo. A pregação é o momento no qual o pastor e a pastora alimentam o rebanho e orientam sobre a vida, sobre a fé, sobre o discipulado, sobre a esperança, sobre o serviço cristão, sobre a família, etc. Para isto, devem dedicar tempo para a oração, leitura, reflexão e preparação do sermão; b) verso 4 - não para agradar a homens e sim a Deus.  É necessário que fique bem compreendido o que Paulo está afirmando, pois ele fala num contexto onde muitos procuravam ganhar vantagens dos homens agradando-os de diversas maneiras.  A motivação para agradar era falsa, pois não tinha o interesse pelo bem-estar dos outros.  Paulo está dizendo que a preocupação dele e dos seus companheiros de ministério não era o tornarem-se populares e assim receberem favores.  Pelo contrário, eles haviam sido maltratados em Filipos e por todos os lugares onde passavam, pois a preocupação era com a pregação do evangelho de Jesus Cristo; d) versos 7-8 - Paulo revela que estavam prontos a dar a própria vida em favor dos Tessalonicenses e que trataram os cristãos com amor e carinho.

 

A carta de Judas trata do tema da integridade dos líderes da Igreja de então, como que a dizer que o carisma da liderança, aquele concedido pela comunidade de fé através da imposição das mãos como reconhecimento do chamado, tinha como principal marca a integridade. Carisma sem integridade é como um jardim sem flores, ou uma árvore frutífera sem frutos. Pode ser como a palha que o vento dispersa, pois o carisma por si só não se sustenta, sem a integridade ele é frágil e débil e fica a mercê das vaidades humanas.

 

Desta forma, poderíamos ousar concluir dizendo que a integridade é princípio e imperativo, ela tem que estar presente na vida da pessoa que recebeu o “carisma” dado por Deus pela instrumentalidade da Igreja.

 

Bispo Josué Adam Lazier

 



[1] STOTT, John R.W. A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo, ABU, 1985, p. 161.

[2] LLOYDE-JONES, Martyn. Estudos no Sermão do Monte. Editora Fiel, 1984, p. 377.



Escrito por Josué Adam Lazier às 10h06
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Carisma, caráter e caridade

UMA TRÍADE NA ESPIRITUALIDADE MINISTERIAL:
CARISMA, CARÁTER E CARIDADE

Tu porém 4 - carisma pastoral 

 

Introdução

Gosto de pensar na espiritualidade enquanto uma relação das experiências adquiridas, do conhecimento e do saber com a vida prática. Em outras palavras, pensar na conexão do interior com o exterior. A espiritualidade nos desafia a sermos uma pessoa que evidencia esta conexão em todos os momentos da vida.

No que se refere aos ministérios desenvolvidos, a espiritualidade conecta o sentido de vocação com os atos ministeriais praticados. Destaco, portanto, uma tríade nesta espiritualidade ministerial: carisma, caráter e caridade. Sem carisma não há qualidade e autoridade no ministério que se exerce, sem caráter não há autoridade nas ações pastorais e ministeriais e sem caridade não dá para chegar ao coração das pessoas com as quais trabalhamos.

 

Carisma

Já tive a oportunidade de desenvolver este tema em outros textos, incluindo o livro publicado pela EDITEO (O Carisma do Ministério Pastoral), onde apresento os contornos do carisma pastoral. Ao falar de carisma estou me referindo ao ato de reconhecimento e de mandato dado pela Igreja. O carisma, seja do ministério pastoral ou dos ministérios laicos, é reconhecido pela comunidade cristã e desenvolvido em sintonia com a eclesiologia. Não cabe, seja qual for a denominação, um ministério autônomo e sem qualquer relação com as doutrinas, em especial a que define o modo de ser igreja.

Carisma significa o dom através do qual o Espírito Santo age na vida do cristão e da Igreja na medida em que o cristão se oferece a Deus em resposta ao Seu amor. O carisma se evidencia de forma comunitária e não individualizada, pois ele se expressa por meio da dedicação da pessoa ao serviço de Deus e por meio da Sua Graça.

Em outras palavras, o carisma que atribui autoridade ao ministério, não é o pessoal, não são os dons pessoais ou os talentos da pessoa, e sim o mandato, a ordenação ou a consagração realizada pela comunidade de fé.

 

Caráter

O ministério “carismático”, ou seja, aquele que tem o carisma dado pela Igreja é acompanhado por comportamentos e atitudes que evidenciam uma boa índole, um bom caráter, um conjunto de boas qualidades. Nas cartas pastorais (I e II Timóteo e Tito) o autor apostólico destaca várias qualidades que se referem ao comportamento ético e relacional dos líderes da comunidade de fé. Fala, portanto, de caráter e de integridade na vida pessoal, familiar e social.

Falar do carisma é o mesmo que falar da integridade da pessoa. O que confere valor e autoridade ao carisma recebido por ordenação e consagração é a integridade que a pessoa evidencia, em termos de comportamento ético, responsabilidade, transparência, honestidade, respeito e confiabilidade. Sem esta integridade a pessoa que exerce um determinado ministério, mesmo que possua o carisma, não possuirá autoridade e legitimidade para suas ações ministeriais. Da mesma forma que na figura da espiritualidade há conexão do interior com o exterior, deve existir conexão entre o carisma dado pela Igreja e o caráter da pessoa que recebe o mandato (carisma). O carisma sem caráter não tem substância e qualidade.

 

Caridade

Poderia falar do amor, mas preferi a expressão caridade. Parece que o amor tem sido tema dos escritores bíblicos que ficou distante de nós, tema de músicas que são cantadas nas igrejas locais dominicalmente ou tema de poesia e romance. O amor como descrito pelas sagradas escrituras e que se refere ao ato de entregar-se pelos outros, perdoar, pedir perdão, restauração, etc, parece ser algo que ficou no passado. O amor se transformou meramente numa virtude teologal quando deveria ser um fruto sempre presente na vida do cristão. Desta forma, a música que fala da volta ao primeiro amor, lembrando a carta dirigida à Igreja de Éfeso (Ap 2.4), tem razão: a Igreja precisa voltar ao primeiro amor e começar de novo suas boas obras na ótica do ágape.

Optei por falar da caridade, pois se não é possível amar como Cristo amou, que haja pelo menos caridade para com os mais fracos, caridade para com os diferentes, caridade para com o que pensam de forma diferenciada e que ela seja para integrar e incluir os que ficam marginalizados. Recordo-me das palavras do apóstolo Paulo dirigidas aos tessalonicenses, quando diz: “admoesteis os insubmissos, consoleis os desanimados, ampareis os fracos e sejas longânimos para com todos” (I Ts 5.14). Estas palavras inspiram, de certa forma, atitudes de caridade.

Caridade pode ser complacência, benevolência ou compaixão e caridoso seria aquele que procura identificar-se com o amor de Deus. Se conseguirmos isto em nossas práticas ministeriais já estaremos num bom caminho.

 

Tentando concluir

Não dá para concluir. Esta reflexão apresenta inquietações, preocupações, desafios, provocações, questionamentos, convite para o diálogo e para o aprofundamento do tema do carisma. Vamos seguir conversando...

 

Bispo Josué Adam Lazier



Escrito por Josué Adam Lazier às 20h03
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pastorado - diversidade e mutualidade

DIVERSIDADE E MUTUALIDADE NO MINISTÉRIO PASTORAL

I Coríntios 12.4-6

Tu, porém 3 – ministério pastoral

I.                     Diversidade no ministério pastoral.

 

Ela é expressão da amplitude da ação de Deus na vida da Igreja, que concede talentos, dons e ministérios para o cumprimento da missão. Daí decorre a diversidade e a pluralidade nas ações ministeriais, como afirma o apóstolo Paulo em I Coríntios 12.4-6.

 

Esta diversidade implica também na pluralidade do ministério pastoral. É importante ressaltar estes aspectos porque eles contribuem para a amplitude da missão da Igreja. Desta forma, não é aconselhável definir o ministério pastoral a partir de determinados talentos e dons, tampouco a partir de experiências ou perspectivas pessoais. A diversidade do ministério pastoral se dá pela amplitude da missão da Igreja.

 

II.                   Mutualidade no ministério pastoral.

 

Mutualidade indica a “relação e integração que um ministério tem com o outro”. Cada pessoa que exerce o ministério pastoral o faz a partir de seus talentos e dons, mas eles não sintetizam o ministério pastoral como um todo. Na verdade, o ministério pastoral que uma pessoa exerce é completado pelo ministério que outras pessoas também exercem.

 

A Igreja funciona bem quando os diversos ministérios que ela tem trabalham de maneira integrada e para o benefício de todos os membros, em especial o ministério pastoral.

 

A mutualidade é evidenciada em vários aspectos. Destaco três para nossa reflexão:

 

1)   Vocação (clesiologia). É importante considerar que todos os membros da igreja são vocacionados para servir a Deus através do desenvolvimento dos talentos naturais e profissão (Ef 4.1). A vocação é para a salvação, para a santificação, para o testemunho, para a vivência do discipulado cristão, para o serviço cristão e para exercício de dons e ministérios.  A palavra vocação tem origem no verbo grego Kaléo, que tem o sentido de “chamar”, “reclamar para si”, e “comissionamento”, portanto vocação significa “chamada”, “convocação”, ou, de forma mais literal, “sair de si mesmo para servir aquele que chamou”. As cartas paulinas empregam a palavra kaléo 29 vezes, klésis 8 vezes e klétos 7 vezes, quase sempre com o sentido de vocação divina.

Outra palavra que tem relação com a vocação e origem na palavra grega kaléo é ekklesia, que quer dizer igreja, assembléia, povo chamado por Deus e vocacionado para realizar seus planos. Assim, a teologia da igreja é denominada de eclesiologia, que está em relação com a clesiologia. A vocação acontece sempre no contexto da Igreja, pois o vocacionado deve estar integrado ao Corpo de Cristo.

2)   Carisma (eclesiologia). O carisma pastoral é um mandato da Igreja. É a Igreja que capacita, avalia, ordena, consagra e dá o mandato. Alan Richardson afirma: “Ninguém pode dizer que recebeu autorização direta do próprio Cristo sem a instrumentalidade própria de seu corpo, a Igreja ...”. “O ministério pastoral tem sua autenticidade reconhecida quando o carisma da Igreja de Cristo determina os carismas individuais”. A vocação, o chamado, o despertamento para o ministério pastoral pode ser individual, ou pessoal, mas o mandato, a ordenação, a autorização para exercício dos atos pastorais e dos sacramentos é dada exclusivamente pela Igreja.

 

Portanto, no ministério pastoral não há lugar para o individualismo ou o personalismo, pois se trata de um carisma da Igreja e não da pessoa. Ninguém pode exercer este carisma de forma autônoma ou desintegrada da Igreja que reconheceu o carisma dado por Deus e ofereceu condições para o exercício do mesmo. O ministério pastoral exercido por uma pessoa tem implicação direta com os outros ministérios pastorais, justamente porque ele é expressão da eclesiologia. O carisma determina que não há ministério autônomo.

 

3)   Dimensão. O ministério pastoral, por ser diversificado, mas mútuo, apresenta algumas dimensões que promovem a unidade:

Dimensão cristológica. O ministério pastoral deve seguir as pegadas do ministério de Cristo. Ele, sim, exerceu um ministério pleno e perfeito e, portanto, modela o pastorado.

Dimensão pastoral. O amor deve ser uma das marcas do pastorado. O ministério pastoral é marcado pela doação e pela dedicação aos outros. O amor promove a gratuidade e a alegria do serviço.

Dimensão profética. A Igreja Metodista professa uma dimensão profética do ministério pastoral. É importante destacar o aspecto profético no sentido de proclamação e prática, seja no serviço cristão, na resistência aos valores do mundo e na renúncia aos movimentos modistas.

Dimensão sacerdotal. O pastor e a pastora, como servos de Deus em constante comunhão com o Senhor da Igreja, têm empatia com aqueles que sofrem e agem com solidariedade e apoio para com os enfermos, angustiados, frustrados, marginalizados, desesperançados, atribulados, com o propósito de orientá-los e nutri-los espiritualmente.

Dimensão do serviço. Os membros do ministério pastoral são servos de Deus, vocacionados, consagrados e comissionados para o trabalho pastoral e, portanto, chamados a renunciar (Mt 10.3-15), sem o que haverá muitas dificuldades para um cumprimento cabal do ministério pastoral. Vocação não significa a concordância de Deus com os projetos pessoais, mas renúncia a projetos e expectativas pessoais e familiares para servir a Deus.

 

No exercício do pastorado, a pessoa evidencia estas dimensões. Alguns têm uma determinada dimensão mais acentuada, mas todos os que exercem o ministério pastoral expressam em algum momento estas dimensões. Elas também estabelecem a diversidade e a mutualidade.

 

É importante ressaltar que, considerando a vocação, o carisma e as dimensões do pastorado, um pastor não mais pastor que outro, ou que tenha mais “espírito santo” que outro. Devemos lembrar que somos vocacionados para o serviço e que a Igreja é o instrumento nas mãos de Deus para reconhecer nossa vocação e nos dar o carisma. Se há diversidade há também a mutualidade.

 

Bispo Josué Adam Lazier

(reflexão apresentada na reunião de pastores do Distrito de Piracicaba, no dia 13 de fevereiro de 2008. Para aprofundar este estudo indico o meu livro publicado pela EDITEO, O Carisma do Ministério Pastoral)

 



Escrito por Josué Adam Lazier às 23h32
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A alegria dos símplices

EXEMPLO DA IGREJA DE FILIPOS

 

Tu, porém 2 – Vida cristã

 

O autor da carta descreve várias razões que tornariam compreensíveis a tristeza e desânimo por parte do apóstolo e dos filipenses nas circunstâncias em que viviam, mas o que se percebe, ao invés disto, é uma alegria autêntica e contagiante. Portanto uma pergunta se coloca: Por que Paulo se alegra e os filipenses deveriam também alegrar-se diante das circunstâncias descritas pelo apóstolo?

 

1.     Porque Cristo estava sendo proclamado - 1.12-26.

 

Paulo alegra-se porque com sua morte ou vida o Evangelho de Cristo é proclamado (1.18-20).  Segundo o verso 1.14 era um estímulo para outros cristãos as defesas de Paulo perante os juízes e a conseqüente pregação do Evangelho. Desde o início deste texto fica evidente a preocupação de Paulo pela proclamação do Evangelho. Ele não está preocupado com sua saúde, com o processo judicial movido pelos inimigos, mas sim com o Evangelho. Por várias vezes Paulo faz referência a proclamação do Evangelho: 1.12, 1.14, 1.16, 1.18, 1.20.

 

2.     As lutas em prol do Evangelho são sinais da graça de Deus - 1.27-30.

 

A exortação do v.27 está presente nas cartas Paulinas (I Ts 2.12, Rm 16.2, Cl 1,10, Ef 4.1) e demonstram que Paulo não está apenas pedindo que os cristãos sejam justos, santos e piedosos, mas trata-se sim de uma exortação para viver em conformidade com as dádivas que receberam: a dádiva da libertação determina a vida de agora em diante.  Significa uma vida firmada na Cruz de Cristo, que não recusa a cruz e os perigos inerentes da pregação do Evangelho.

 

Paulo fala de inimigos. Quem são eles?  Estes adversários provocam medo e ameaçam com violência contra os cristãos. Em todo o Novo Testamento há uma clara ligação entre ser cristão e sofrer pelo Evangelho (Mt 5.11s, Lc 6.22, I Pe 4.13). Este compromisso com o Evangelho e as lutas decorrentes disto eram motivos de alegria, pois Paulo e a comunidade tinham a oportunidade de experimentar a vida digna do evangelho de Cristo.

 

3.     A alegria é tema de exortação - 4.4-7.

 

O Tema da alegria está de volta na carta. Paulo está preso, mas se regozija. Acontece que seus sentimentos não eram guiados pelas circunstâncias e sim pela transformação ocasionada pela experiência de conversão: a) moderação - no sentido de equilíbrio e disciplina. A palavra em grego significa uma firmeza paciente e humilde, confiante em Deus a respeito de tudo; b) não andar ansioso - no sentido de não desesperar-se por causa das dificuldades e dos conflitos; c) oração, intercessão e Ação de Graças - ingredientes na vida do cristão que aprendeu a ser grato a Deus em todas as situações da vida, sabendo que através das suas lutas o Evangelho é proclamado e Cristo é exaltado.

 

4.  A alegria da Igreja de Filipos na Igreja de Hoje

 

A experiência de Paulo e dos filipenses é muito sugestiva e inspirativa para nossas igrejas nos dias de hoje. Algumas situações vividas, o contexto em que estão inseridas nossas igrejas e atitudes de pessoas que se intitulam líderes e ditam normas para ou outros cumprirem, como os fariseus na época de Jesus, criam um ambiente propício para o desânimo, para a frustração, para o medo e, conseqüentemente, para a infelicidade. A grande lição que a igreja de Filipos dá está ligada ao fato de que vale a pena sofrer por amor a Cristo e por causa do Evangelho.  Não é sofrimento masoquista, mas sim uma obediência e aceitação da vontade de Deus. Nada pode abalar a fé do cristão ou separá-lo do amor de Cristo. Esta fé e esperança são geradores da força e da coragem que alimenta e impulsiona a comunidade cristã a enfrentar as hostilidades e as injustiças, com a expectativa de ver cair às forças que inviabilizam a Vida Plena e Abundante.  Enquanto isto não acontece, as palavras de Paulo são um grande estímulo: “Pois vos foi concedida, em relação a Cristo, a graça não só de crerdes nele, mas também de por ele sofrerdes” (1.29) e “o meu Deus proverá magnificamente todas as vossas necessidades, segundo a sua riqueza, em Cristo Jesus” (4.19) e, principalmente o texto de 1.28: “e que em nada vos deixeis atemorizar pelos vossos adversários, o que para eles é sinal de ruína, para vós, de salvação, e isso da parte de Deus”.  

 

Um aspecto a ser destacado em forma de conclusão é a solidariedade e a fraternidade presentes na igreja de Filipos - 4.15-16. Desde o início a igreja de Filipos foi solidária e fraterna para com Paulo socorrendo-o nas suas necessidades.

 

Num ambiente de lutas e crises, a solidariedade é inevitável e fundamental para gerar força, esperança, alegria e felicidade.  Por isso Paulo insiste para com todos os que servem Senhor e estão comprometidos com o anúncio do Evangelho: “Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito: Alegrai-vos!” (4.4). Atendamos a esta exortação paulina, afim de que nosso ministério seja exercido com este fruto maravilhoso do Espírito Santo que é a alegria. A alegria confunde os poderosos e desarma os impiedosos que não gostam de ver os servos e as servas do Senhor lutar com esperança, fé e regozijo. A alegria dos símplices denuncia a tristeza dos maldosos. Tu, porém "alegrai-vos sempre no Senhor".

 

Bispo Josué Adam Lazier

 



Escrito por Josué Adam Lazier às 20h05
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Não há lugar para o espinheiro

NÃO HÁ LUGAR PARA O ESPINHEIRO

 

 

A fábula de Jotão (Juízes 9.7-15) denuncia as ações de um dos filhos de Gideão que se utilizou de expedientes reprováveis para assumir a liderança do povo e, para isto, contou com a omissão das lideranças das famílias naquela época. O filho mais novo do juiz morto, que havia conseguido livrar-se das loucuras do irmão mais velho, Abimeleque, começou a contar a fábula das árvores para advertir o povo sobre as propostas de governo de seu irmão. Jotão comparou-as aos frutos do espinheiro, que não produz nada além dos espinhos, ao contrário das outras árvores da fábula, a oliveira, a figueira e a videira que produzem bons frutos.

 

Nesta reflexão quero apropriar-me da mensagem da fábula e compará-la ao mercado educacional que cresce em nosso país e transforma a educação em produto de vendagens e de aplicação em bolsas de valores. Para mim, a proposta educacional em termos de mercado é a proposta do espinheiro. Considero que a educação preconizada pela Igreja Metodista e definida no documento Plano para a Vida e Missão e nas Diretrizes para a Educação na Igreja Metodista, é a boa árvore, cujos frutos podem ser simbolizados nos da oliveira, da figueira e da videira. È claro que não é somente a Igreja Metodista que preconiza uma educação nestes níveis de resistência ao mercado; há outras instituições confessionais que também o fazem.

 

Da mesma forma que cresce o mercado educacional, ou a proposta do espinheiro, crescem também as preocupações de que estas tentação e tendência cheguem aos arraiais confessionais, incluindo aí o metodista. Cresce também a desconfiança de que a Igreja, enquanto uma instituição humana que trabalha com o sagrado, não consiga resistir aos apelos do mercado e sucumba ante as propostas do “espinheiro”. Considero que isto não seja possível, desde que se leve em conta que a Igreja há muitos anos abandonou o cumprimento da sua missão em forma de finalidades para assumir uma concepção mais abrangente a partir do Reino de Deus, que é o eixo central da sua missão e a razão de ser Corpo Vivo de Cristo. Ou estaria me enganado quanto a isto?

 

Quando falo em missão estou me referindo à educação também, pois ela está inserida na concepção de missão que a Igreja Metodista preconiza. O Plano para a Vida e Missão, vigente desde 1982, assim se expressa: "A Educação como parte da Missão é o processo que visa oferecer à pessoa e comunidade, uma compreensão da vida e da sociedade, comprometida com uma prática libertadora, recriando a vida e a sociedade, segundo o modelo de Jesus Cristo, e questionando os sistemas de dominação e morte, à luz do Reino de Deus” (PLANO para a Vida e Missão, item C).

 

Com relação à educação, a Igreja Metodista abandonou uma tendência liberal e individualizante desde a aprovação do documento com as Diretrizes para a Educação em 1982 e, ao fazer isto, expurgou os seguintes elementos dessa tendência: “preocupação individualista com a ascensão social; acentuação do espírito de competição; aceitação do utilitarismo como norma de vida e colocação do lucro como base das relações econômicas” (DIRETRIZES para a Educação na Igreja Metodista, item III). Desta forma, as bases bíblico-teológicas que fundamentam o documento sobre educação indicam uma prática educativa vinculada aos valores do Reino de Deus e não aos do mercado e contrapõem movimentos que anseiam por uma educação na perspectiva do neoliberalismo.

 

Logicamente, a Igreja enquanto uma instituição formada por pessoas sofre todo e qualquer tipo de pressões e tensões. Como em qualquer instituição, também na Igreja há movimentos de transformações e disputas internas pelo poder e pelo status que a religião confere aos seus líderes. Mas há aqueles e aquelas que resistem e ajudam a Igreja a superar estes momentos. Desta forma, considero que a proposta do “espinheiro” não encontra guarida em nosso meio, institucionalmente falando. Para que isto viesse a ocorrer seriam muitas as rupturas. Indico algumas:

 

  1. O Reino de Deus teria que deixar de ser o eixo central da missão da Igreja e das ações educativas, pois uma missão vivenciada na perspectiva da justiça deste Reino não combina com valores mercantilizados da nossa sociedade. Ao assumir valores mercantilistas a Igreja se transformaria num grupo de pessoas acentuadamente individualistas e não se identificaria mais como povo de Deus;
  2. Algumas páginas do Evangelho de Cristo teriam que ser jogadas fora, pois ele adverte sobre o “deus” do presente século que é o poder monetário, o mercado que desgraça a vida das pessoas, além de orientar para uma convivência em sociedade onde a ética, o respeito e a vida são prioridades;
  3. Parte da herança que nutriu os metodistas em quase trezentos anos de história e de serviços prestados ao mundo - seja através da evangelização, da educação, do trabalho social e ou presença sacerdotal e profética na sociedade - teriam que ser apagadas da nossa memória;
  4. Documentos construídos de forma coletiva, participativa, reflexiva, confessional e profética, que foram amadurecendo e dando o respaldo teológico à missão, teriam que ser desrespeitados. Como exemplo, cito o documento Diretrizes para a Educação na Igreja Metodista que afirma o seguinte: “Não se pode mais aceitar uma educação elitista, que discrimina e reproduz a situação atual do povo brasileiro, impedindo transformações substanciais em nossa sociedade. Também não podemos nos conformar com a tendência que favorece a imposição da cultura dos poderosos, impedindo a maior participação das pessoas e aumentando cada vez mais seu nível de dependência” (DIRETRIZES para a Educação na Igreja Metodista, item IV);
  5. A experiência pessoal de milhares de pessoas com a gratuidade do amor de Deus e, portanto, transformadora da vida e das relações, teriam que ser definitivamente anuladas.

 

Para que tudo isto acontecesse, diversos Concílios Gerais da Igreja Metodista teriam que ser realizados. Mesmo que em alguns houvesse retrocessos, em outros haveria avanços mais significativos. Tem sido assim a história dos concílios metodistas.

 

Diante disto, está claro para mim que a opção da Igreja, para todas as suas áreas de missão, é pela proposta da oliveira, da figueira e da videira, ou seja, pelos frutos da cidadania, da solidariedade, da tolerância, da vivência de paz, da convivência de amor, da fraternidade, da dialogicidade, do companheirismo e da sinalização do Reino de Deus, combatendo assim os projetos do espinheiro que estão presentes em nossa sociedade e que seduzem a Igreja, seja na área educacional ou em qualquer outra da vida ou da missão. Não há lugar para o espinheiro entre nós. Que ele seja anátema, bem como toda tentativa de negação da identidade e confessionalidade que caracteriza o povo chamado metodista.

 

Bispo Josué Adam Lazier

 

(Publicado no Mosaico Apoio Pastoral. Ano 15, nº 39. Faculdade de Teologia da Igreja Metodista. Junho/setembro de 2007)

 

 



Escrito por Josué Adam Lazier às 18h46
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